Carta de um desejo (Desejo e Reparação)

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 Após ler o magnífico romance de Ian McEwan, Reparação, fiquei um pouco receoso quanto a qualidade de Desejo e Reparação. A novela de McEwan prima principalmente pela sua formidável análise profundamente psicológica dos personagens. Cada olhar, cada ação, tudo há um significado que apenas o narrador sabe o que significa. Contudo, tudo isso é perdido quando é transposto ao cinema. Certas obras funcionam melhor em suas mídias originais, do que quando são adaptadas. Porém, o resultado final do longa de Joe Wright é bastante favorável.

A história inicia-se com Briony, uma jovem promissora escritora, que presencia uma cena que mudará a sua vida. Esse testemunho levará a garota a cometer um ato que separará a vida de sua irmã Cecília e o seu caso Robbie, o filho da governanta. Essa atitude de Briony levará a uma profunda sensação de culpa e arrependimento, fazendo com que faça de tudo para reparar o seu erro.

Apesar ser um romance, a alma do filme pertence mesmo à personagem Briony, interpretada com muita maestria por Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Redgrave. Briony é simplesmente uma personagem fenomenal, repleta de nuances, camadas, bastante metódica e severa. Todas as atrizes que a interpretam nas diferentes fases de sua vida merecem destaque pela forma com que mantiveram a natureza da personagem (perceba que os gestos e principalmente o tom de voz nunca muda entre uma atuação e outra), tendo cada uma o seu momento para brilhar: Saoirse em seu falso testemunho, Romola em seu perdão e Vanessa na sua confissão.

Keira Knightley e James McAvoy também não deslizam nas suas composições. Pode-se perceber a grande influência do cinema antigo na atuação de Keira, as falas rápidas, o tom levemente teatral, e uma expressão corporal com marcações. Mesmo assim, a atriz consegue integrar um leve toque de modernidade, justamente como a personagem é: nascida em berço aristocrático, mas que deseja algo diferente, uma rebeldia comum para juventude atual. McAvoy torna Robbie num personagem mais agradável, mais doce, mas que não perde a sua severidade quando está na guerra (e nem mesmo a sua sensibilidade).

Outro trabalho que merece ser destacado é a notável direção de Wright. Mesmo após o excelente trabalho em Orgulho e Preconceito, o cineasta surpreende mais uma vez. O movimento de câmera que passeava pelos castelos observando a família Bennet durante as festas, agora atinge proporções épicas quando revela as conseqüências da guerra na praia onde esperam pela evacuação. Wright também opta por deixar a história fluir, deixar que os próprios personagens interfiram, ao manter um distanciamento do ambiente (como quando observa Robbie e os cabos Mace e Nettle atrás das folhagens). Uma direção madura que prova, mais uma vez, o quanto ele merece ser observado futuramente.

Há de se destacar também o belíssimo figurino de Jaqueline Durran, a inspirada direção de arte de Sarah Greenwood e a apaixonante fotografia de Samus McGarvey, que juntos  tornam a qualidade técnica do filme soberba. A trilha sonora de Dario Marianelli também merece elogios, já que consegue resgatar a natureza do filme ao mixar os sons de uma máquina de datilografar, remetendo a Briony que atua como a “narradora” da trama.

O único porém do filme pertence à adaptação de Hampton que peca, principalmente no segundo ato. O roteirista prefere abandonar duas grandes seqüências da guerra (uma em que Robbie tenta fugir desesperadamente das bombas de um Stuka e outra em que presencia quase um assassinato de um membro da Royal Air Force)  em detrimento de uma cena que o personagem de McAvoy vê uma exibição de corpos mortos. Além de ser uma escolha que apela para o clichê, ela não é bem executada e não apresenta as verdadeiras conseqüências que o ato de Briony trouxe para a vida de Robbie (o que certamente as duas cenas excluídas fariam). Soma-se também a desnecessária relação entre o cabo Mace e Robbie que se tornou muito mais afetuosa.

Com o auxílio de uma edição bastante engenhosa de Paul Tothill, Desejo e Reparação baseia-se no épico romance, mas com contornos psicológicos e reviravoltas teatrais. Um filme que poderia ter sido mais lembrado nas premiações. Mesmo que tenha “rimas e embelezamentos”, como Robbie teria evitado, a produção merece.

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0-oscar.jpg 7 INDICAÇÕES:
– Filme 
– Atriz Coadjuvante (Saoirse Ronan)
– Roteiro Adaptado
– Fotografia
– Direção de Arte
– Figurino
– Trilha Sonora

 

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4 comentários

  1. Marco, Bom dia.
    Li o seu comentário há pouco e informo que você pode sim enviar a lista de indicados hoje. Algumas pessoas também se atrasaram e estou aguardando mais algumas listas. Assim, estarei aceitando até o fim da tarde.

    Ah, e “Desejo e Reparação” é simplesmente maravilhoso!

  2. Sou absolutamente fascinado por este filme, sua grandeza técnica, seus aparatos indefectíveis de roteiro e atuações, a direção ousada e lendária de Joe Wright. É meu preferido do Oscar este ano, embora as chances de ganhar sejam pequenas. Não li o livro de Ewan McEwan, e acho que vou gostar muito quando puder fazê-lo.
    Abraço!

  3. // Ai, Alex. Expliquei lá em cima, porque acabei não participando… Uma pena que minha internet tenha saído do ar… ¬¬

    // Então leia o livro Weiner. O filme é muito bom, mas considero o livro absurdamente melhor. Aí você vai entender pq eu considero Briony uma das melhores personagens que já li.

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