Fora do alcance (Ensaio Sobre a Cegueira)

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ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA    { 3estrelas.jpg }

Na minha resenha de Speed Racer, comentei o quanto é complicado o processo de adaptação e o quão prejudicial isso pode ser para um filme. Principalmente pelo fato de os fãs da obra original criarem uma certa expectativa sobre a recriação que será feita. Como eu havia dito, uma adaptação só é boa quando é fiel à visão dos criadores da releitura – independendo do fato de ter sido muito ou pouco alterada.

No entanto, tenho que fazer uma ressalva para Ensaio Sobre a Cegueira. A produção cumpre o que Fernando Meirelles promete? Sim. É aquilo que o filme propõe? Com certeza. Mas tendo lido o material original de José Saramago a impressão que fica é de que o longa tinha potencial para ter sido muito melhor do que de fato foi.

Começo pela estética da película. Não se pode negar a maravilhosa fotografia de César Charlone (que já havia trabalhado com Meirelles em Cidade de DeusO Jardineiro Fiel, ganhando uma indicação ao Oscar pelo último) e muito menos a direção de arte de Joshu de Cartier. O problema é que fica a impressão de que a produção foi “limpada” para tentar agradar ao público e votantes de premiações. Os banheiros estão imundos, a cidade está um caos, mas ainda assim não conseguiu alcançar o nível repulsivo de imundície que o livro menciona. Parece que ambientaram o filme em um lugar sujo apenas para atender as descrições da história, mas não abominável o suficiente para enojar os espectadores.

Há outros fatores que decepcionam, como a atuação do elenco. Todos estão em boas performances, mas não brilhantes como muitos desejam. Julianne Moore está bem (principalmente depois da fraquíssima atuação em Pecados Inocentes), mas são os estrangeiros Alice Braga e Gael García Bernal que conseguem fazer algo a mais, embora nunca cheguem a roubar as cenas que têm.

Portanto, o que se deve observar mesmo é como Meirelles está num crescente absurdo de sua carreira. Começando com o fraco Domésticas, seguindo com o superestimado Cidade de Deus, passando pelo apenas bom O Jardineiro Fiel, chegamos em Ensaio Sobre a Cegueira com a percepção de que as qualidades artísticas do cineasta melhoraram incrivelmente. É nessa fita que ele apresenta seu melhor trabalho de direção, contando com cenas lindas e poéticas (a cena da chuva, inclusive, conquista pela sua simplicidade, enquanto que a cena do estupro coletivo agoniza pelos conturbados flashes das pessoas). Ao final, temos a certeza de que Ensaio Sobre a Cegueira, a adaptação de Saramago, é decepcionante, mas Ensaio Sobre a Cegueira, o filme de Meirelles, é seu melhor trabalho. Fazendo a média, temos um filme bom. Mas não acredito que nenhum dos dois realizadores se contentem com isso.

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8 comentários

  1. Hm, discordo em muitas coisas… Minha resneha sobre esse filme começou dizendo que eu não tinha lido o livro e portanto minha opinião é de mero espectador do filme, ponto para você, rs. Mas quando você fala das interpretações, não concordo mesmo. E depois, ao dizer sobre a carreira do Meirelles, não concordo também sobre os adjetivos para Cidade de Deus e Jardineiro Fiel, rs, mas isso que é a livre expressão democrática. E agora, voltou de vez? Abraços…

  2. Acho que devemos fazer uma clara diferença entre “adaptação” e “filme”. Claro que involuntariamente sempre faremos uma comparação com a obra original (que, nesse caso em particular, ainda não conferi), mas cinema é outra coisa – e acho que o Meirelles continua impecável em sua filmografia.

  3. Bem, primeiramente, não sou daqueles que acham que o livro é sempre melhor que o filme, e também tento não ser chato quando algum livro que eu gosto é adaptado para o cinema. Com Ensaio sobre a Cegueira, porém, foi mais complicado, porque sou muito, muito fã do livro do Saramago. No entanto, acho que consegui gostar mais do filme do que você: acho a atuação da Moore a melhor do filme, seguida por perto pelo Ruffalo, acho, concordando contigo, a direção do Meirelles primorosa, e sou fã da estética adotada pelos realizadores. Reproduzir as descrições e sensações geradas pela leitura do Saramago era impossível, então, por que não?, tentar gerar suas próprias sensações no espectador ? E acho que o filme obtém êxito nisso. Tem problemas, é claro, como, por exemplo, o personagem do Danny Glover, que poderia ter sido melhor desenvolvido. Mas, no fim das contas, é um grande filme.
    E só para terminar: tenho que dizer que não concordo que Cidade de Deus seja superestimado e O Jardineiro Fiel apenas bom. São os dois melhores filmes de Meirelles em minha opinião, com Cegueira logo em seguida. São filmes que conseguiram, com todos os méritos, chegarem ao patamar de “clássicos contemporâneos”.
    É isso.

  4. Imaginei que fosse causar polêmica com essa minha declaração sobre Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel…

    Não é que eu não tenha gostado de Cidade de Deus. É um filme muito bom até. Mas eu não acho que ele tenha merecido todos os elogios impecáveis que recebeu.

    Também gostei de O Jardineiro Fiel, mas a atuação de Ralph Fiennes me incomodou um pouco.

    PS- Eu sempre tento evitar a comparação entre a obra original e o filme, mantendo pelo menos um limite entre eles, mas eu simplesmente não consegui fazer isso com Cegueira. Acho que o material original é forte e poderoso demais para resultar apenas isso que vi. Por isso que acabei sendo mais exigente com o filme… 😉

  5. O filme é forte, poético, crítico e avassalador. Um trabalho belíssimo do Fernando e um elenco afiado. É uma obra para poucos. Faz refletir, mesmo tendo a impressão de se levar um soco na alma a cada cena.

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