E se autores de novelas fossem cineastas internacionais?

Avenida Brasil acabou semana passada e todos quase morremos de ódio com aquele final sem vergonha: Carminha responsável pelo assassinato de Max, o casamento triplo de Cadinho, Ivana e Silas terminando a novela juntos mesmo sem terem mostrado interesse no outro a novela inteira, Nina mantendo aquele corte de cabelo horrível por mais de 5 anos e Ágatha engordando mais ainda em Paris.

A novela da Glória Perez estreia hoje e eu resolvi fazer um post comemorativo a essa nova novela que vai nos acompanhar por sei lá quantos meses (depende do quanto ela for bem recebida pelo público e esticada pela produção da Globo, é claro).

Se novela é o produto audiovisual mais consumido no Brasil, como seriam as novelas se elas fossem passadas nos EUA? Mais especificamente, como seriam os autores se eles fossem famosos diretores de cinema? O blog tomou a dianteira e preparou essa lista abaixo. Confira.

João Emanuel Carneiro seria… Paul Thomas Anderson

Comecemos pelo exemplo mais recente: João Emanuel Carneiro. Depois de escrever o mais novo fenômeno da teledramaturgia, JEC pode ser facilmente comparado com PTA. Os dois são famosos pelas histórias ousadas que fogem do padrão estabelecido por outros profissionais.

Veja por exemplo, o maior twist de “A Favorita”, a descoberta da verdadeira vilã. Quando a novela começou alguns achavam que Flora foi presa por injustiça de Donatella, enquanto outros acreditavam que era só safadeza da Patrícia Pillar mesmo. Mas o público só foi saber a verdade sobre a situação das duas lá pelo meio da novela, quando foi revelado que Flora era a assassina do marido de Cláudia Raia.

Claro que os pedantes não perderam tempo e fizeram tramas e sustentaram teorias conspiratórias, tipo a que a revelação da assassina dava para ser obtida pelas imagens da abertura.

Pois é. E onde mais podemos ver isso? Onde mais os pedantes fazem teorias para analisar coisas em camadas e mais camadas de sub-níveis no melhor estilo Inception? Em “Magnólia”, é claro.

Além de os dois artistas serem amados pelo público moderninho, eles também têm certas tradições. Em “Boogie Nights”, nós temos Philip Seymour Hoffman que interpreta um gay apaixonado por Mark Wahlberg, o ator bem dotado de filmes pornôs. Após passar o filme inteiro encantado e flertando com o protagonista, ele termina sozinho. Hum, homossexual que termina sem um parceiro… Onde será que eu já vi isso antes?

Considere-se desmascarado, JEC! Coincidência? Eu acho que não.

Os dois já até contaram histórias sobre vilões oportunistas que ascenderam socialmente, como a própria Carminha de “Avenida Brasil” e Daniel Plainview de “Sangue Negro”, lançando bordões e quotes adotados pelo público.

E por fim, o motivo mais óbvio para a comparação entre eles: os dois são referidos pelos fãs com 3 siglas representando seu nome. JEC  x PTA. Agora ficaram convencidos?

Walcyr Carrasco seria… Lasse Hallström

Não estou falando de Lassie, a cachorra, mas sim Lasse, o diretor sueco de “Regras da Vida” e “Chegadas e Partidas”. Ele e Walcyr Carrasco são famosos pelas suas histórias do interior/de época e com um ritmo mais devagar. Duvida? Vamos dar uma olhada então.

As heroínas são ricas e poderosas…

… Ou então apaixonadas por homens marginalizados pela sociedade.

Outra semelhança com as obras dos dois é que elas seguem basicamente a mesma estrutura. Por exemplo, o que há de semelhante em  “O Cravo e a Rosa”, “Chocolate com Pimenta” e “Alma Gêmea”?

Enquanto que nos filmes de Hallström podemos resumir da seguinte forma:

E apesar de terem filmes tão formulaicos, os dois costumam fazer bastante sucesso com o público. “Chocolate” de Lasse foi inexplicavelmente indicado a 5 Oscars incluindo Melhor Filme, sendo que é um filme apenas bom. Quer dizer.

E no capítulo final de “Alma Gêmea”, em que Flávia Alessandra morre em um incêndio provocado pelo tinhoso, a novela chegou a absurdos 52 pontos de audiência. Cinquenta e dois pontos. Numa novela das 18h. Pelo jeito, janta nenhuma foi feita naquele dia já que todas as mães e avós pararam pra ver a vilã se dar mal, né.

Manoel Carlos seria… Nancy Meyers

Tanto Maneco quanto Nancy Meyers tem um currículo que consiste basicamente em produções com protagonistas mais velhos e de classe média-alta em tramas mais cotidianas. Mas o que você diria que é uma trama cotidiana? Viviane Pasmanter explica.

Pois é, Viviane. Famosa por ser jogada numa piscina em uma cadeira de rodas pela Gabriela Duarte. Grande carreira.

Mas mais do que eu, você ou nosso vizinho, é mais fácil de ver nas novelas dele a Lília Cabral. Praticamente figurinha carimbada.

Outro ponto em que os dois se assemelham demais é no ritmo arrastado e, principalmente, o nível de qualidade inconstante e duvidosa. Afinal de contas:

Talvez alguém deveria levar em consideração o que diz todo ano e finalmente parar de escrever novelas e se aposentar. Acho que isso seria melhor para todos nós.

Tiago Santiago seria… Michael Bay

Se alguns escrevem a novela devagar-quase-parando, outros estão exatamente no lado oposto. Tiago Santiago escreveu a primorosa “Caminhos do Coração” e a sequência “Os Mutantes”, a franquia inteira dos mutantes da Record, enquanto que Michael Bay dirigiu o precioso “Transformers” 1, 2, 3 e… tem mais quantos na fila de espera?

O uso excessivo de efeitos especiais, a mania de esticar a trama o quanto pode porque “está fazendo sucesso” e quer arrancar dinheiro até não poder mais, os protagonistas com deficiência na área de atuação… Preciso continuar?

Aliás, Preciso sim. O currículo dos dois é tão indispensável para o futuro da humanidade que se não fosse por Santiago, não teríamos cenas como essa em que o Théo Becker, o homem cobra, flerta com a Miss Brasil, a mulher aranha.

Definitivamente uma pérola da televisão brasileira.

Antônio Calmon seria… Tim Burton

Isso significa que agora surgirão pedantes dizendo que o melhor autor de todos os tempos é o Antônio Calmon? Porque gente para puxar o saco de Tim Burton tem aos montes.

O fato é que os dois estão mais próximos do que se imagina: ambos são conhecidos pelos trabalhos de tramas fantasiosas. Antônio Calmon escreveu “Vamp”, “O Beijo do Vampiro” e “Um Anjo Caiu do Céu”, enquanto que Burton dirigiu “Beetlejuice”, “Edward Mãos de Tesoura” e “Sweeney Todd”.

E vamos lembrar que estamos falando de uma época onde vampiros não estavam in, portanto o fato de serem tema de novela era completamente inesperado.

Além disso os dois também têm o costume de trabalhar geralmente com os mesmos atores: Tarcísio Meira atuou em “Corpo Dourado”, “O Beijo do Vampiro” e “Um Anjo Caiu do Céu” e Johnny Depp… bem, dispensa apresentações.

Pena mesmo que não foi Cláudia Ohana a repetir a parceria, daí quem sabe poderíamos ter mais cenas como essa:

Ou então como essa aqui, sensualizando em Veneza com um collant rasgado. Ah, os bons tempos de tv aberta…

Glória Perez seria… M. Night Shyamalan

E como a novela da Glória estreia hoje, ela não poderia ficar de fora, não é mesmo?

Mas o que os dois poderiam ter em comum? Bem, tirando o fato de que os dois só têm vacilado e feito um filme/novela horrível atrás da outra?

Me poupe dos seus comentários, Viviane Pasmanter.

A verdade é que apesar dos dois terem produções com histórias completamente diferentes, eles costumam estruturar seus trabalhos da mesma forma: enquanto a Glória Perez joga 28592482032 personagens em um ambiente étnico, Shyamalan insiste na terrível reviravolta no 3o ato (Bruce Willis é um fantasma em “O Sexto Sentido”, samambaias e o vento são os vilões em “Fim dos Tempos”, as criaturas não existem e a vila foi inventada por lunáticos para fugirem da vida urbana em “A Vila” [????]).

Também não ajuda Glória ter 57 núcleos por novela e chegar na metade e não saber o que fazer com toda aquela gente. Quer dizer, e se eu dissesse que Letícia Sabatella sendo uma psicopata e Bruno Gagliasso como o esquizofrênico Tarso “estão-me-seguindo” Cadore eram de “Caminho das Índias”? Eu mesmo podia jurar que fossem de novelas diferentes.

Mas se ela e Shyamalan aprendessem a unir as suas forças, aí sim poderíamos esperar coisas muito melhores vindas dos dois.

Depois de nos ensinar expressões que rapidamente fizeram parte do nosso extenso vocabulário como “apagar as lamparinas do juízo”, “are baba”, “insha’allah”, “queimar no mármore do inferno” e “mas que droga de novela é essa?”, mal podemos esperar pelo que vem aí. Obrigado, Glória!

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