Entre touros e maçãs (Branca de Neve)

Em 2012, liderando uma inesperada febre hitchcockiana, duas biografias sobre o mestre do suspense Alfred Hitchcock estrearam em solo americano em um curto espaço de tempo (Hitchcock e The Girl, protagonizados por Anthony Hopkins e Toby Jones respectivamente, como o célebre diretor). O mesmo já ocorreu em 2005 quando dois filmes trataram sobre o mesmo tema: o processo de produção do livro “À Sangue Frio” de Truman Capote, com os longas Capote e Confidencial, em que os atores Phillip Seymour Hoffman e Jones, novamente em um “papel repetido”, interpretaram o autor. Hollywood tem dessas.

Esta introdução tem um motivo. Ano passado também foi palco para mais uma infeliz coincidência: Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador foram mais duas novas adesões ao panteão de adaptações do famoso conto de fadas dos irmãos Grimm. E este ano chegou mais uma para a galeria, Blancanieves.

A história, no entanto, pouco se assemelha às suas irmãs. Aqui, a Branca de Neve é filha de uma dançarina de flamenco com um ex-toureiro, tetraplégico após um acidente em sua última tourada; a madrasta é uma ex-enfermeira do hospital em que o acidentado ficou hospitalizado; e os anões, um grupo intinerante de toureadores. Com isso em mente, é possível perceber o tom espanhol, certo?

O filme, que é mudo e editado em p&b na pós-produção (o que pode fazer com que alguns se lembrem de O Artista), exagera no teor dramático da história, característica registrada das telenovelas latinas, mas convence em muitos outros pontos. A direção de Pablo Berger é uma belíssima ode ao cinema mudo, sem deixar de imprimir algumas transições de cenas, movimentações de câmera e outros recursos modernos, resultando em uma mistura narrativa bastante interessante. A trilha sonora de Alfonso de Vilallonga e o figurino de Palco Delgado também merecem elogios.

No entanto, não se pode falar em destaques e não citar os nomes da veterana Maribel Verdú e da novata Sofía Oria, como a madrasta e a Branca de Neve em sua versão infanta. As duas roubam todas as cenas em que aparecem, principalmente quando juntas: a cena do banquete é especialmente imperdível. Apesar de caírem na velha dualidade de bem x mal (ou preto x branco, para continuar na fotografia do longa), é uma química que funciona e encanta.

Abordando temas polêmicos como as touradas, exploração infantil, entre outros assuntos que não revelarei aqui para não estragar surpresas, o filme de Berger é realmente o mais inovador de todas as adaptações do conto de fadas. Apesar de perder a mão aqui e ali ao teimar em ser fiel demais à história (a forma em que a maçã é inserida no contexto da trama é decepcionante), Branca de Neve já é uma das melhores produções do ano e ganha de qualquer comparação com as suas irmãs hollywoodianas.

Branca de Neve 
Blancanieves, Espanha, 2012, drama, 104 min.
De Pablo Berger. Com Maribel Verdú, Daniel Giménez Cacho e Macarena García.

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4 comentários

  1. Acredito que o filme seja bom, embora as fotos tenham me dado a impressão de ser uma releitura da versão original dos irmãos Grimm. Pelo menos essa impressão sumiu quando vi as touradas e esses anões.

  2. quando assisti Matrix só pensava em Alice, as vezes acho que la no fundo um diretor apenas faz um releitura de peças e contos já existentes dando um toque seu (atual / Syfy / dramatico). E essa versão que você citou traz isso visivelmente.

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