O sujeito falante e o mal (Hannah Arendt)

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Em “Excitable Speech”, um ensaio filosófico da estudiosa Judith Butler, a autora pondera alguns conceitos como o fato da linguagem ser uma cadeia citacional que precede e excede os sujeitos falantes. Isto implica que o indivíduo não pode ser tido como responsável por enunciados dos quais não é, sozinho, o produtor, de modo que não há nenhum sujeito incriminável por trás das expressões do discurso do ódio. Ou seja, como seria possível então recorrer a uma medida legal para condenar alguém?

Alguns desses pensamentos (a dificuldade de se julgar legalmente um sujeito que não é inteiramente responsável por aquilo que diz ou faz) entram de acordo com o mote de Hannah Arendt, filme da diretora Margarethe Von Trotta. O longa conta a história da filósofa Hannah e o processo de produção de seu famoso livro “Eichmann em Jerusalém” quando viaja para a cidade judia a fim de cobrir o julgamento de um ex-funcionário do sistema nazista para o “The New Yorker”.

O maior destaque do filme é mesmo os momentos de discussão e oratória de Hannah, trazendo algumas de suas conceituações em pequenas pílulas. Barbara Sukowa como a protagonista está muito bem, assim como Janet McTeer, em mais uma incrível atuação, como sua amiga fervorosa Mary McCarthy.

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No entanto, não sobram falhas e defeitos na produção. A direção de Margarethe soa amadora em alguns momentos (em especial, há um travelling entre dois personagens se abraçando logo após uma nítida marcação corporal para se fazer o corte) e o roteiro encontra falhas básicas: residir quase toda a força da polêmica dos escritos de Hannah em uma citação que não é comentada no filme. A alemã foi duramente perseguida por apontar a culpa para os líderes judeus, mas em momento algum vemos quais críticas são essas que ela faz e o que esses líderes fizeram ou poderiam ter feito de diferente.

Contando também com uma direção de arte nem um pouco convidativa e com uma fotografia desnecessariamente escura (a sensação de desconforto é sempre presente, mesmo nos momentos de descontração das personagens), Hannah Arendt pouco acerta como filme, mas ganha pontos por ajudar a divulgar o trabalho da estudiosa. Ao menos isso.

Hannah Arendt 
idem, Alemanha, 2012, drama, 113 min.
De Margarethe Von Trotta. Com Barbara Sukowa, Axel Milberg e Janet McTeer.

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