4 exemplos de filmes de monstros que podiam ter melhorado Círculo de Fogo

Tem certos tipos de filme que não merecem (nem almejam) uma crítica normal. Eu não quero saber se o novo Emmerich compreende e retrata a ansiedade da humanidade enfrentando o seu juízo final, ou se Truque de Mestre pondera com profundidade as implicações do uso de mágica para crimes justificados por igualdade socialZzZ… Contanto que o filme cumpra o principal requisito para ganhar tal passe livre: ser divertido.

Círculo de Fogo claramente se encaixa nesse perfil de filme, mas infelizmente entrando no lado negativo. A única coisa que eu conseguia pensar ao assistir o filme num sábado de estreia (que só conseguiu encher metade da sala, diga-se de passagem) era o quanto aquele conjunto de lutas escuras e chuvosas que se auto declaravam como o “sonho molhado de qualquer garoto de 10 anos” (molhado pelo fator chuva, pervertidos) podia ter seguido a abordagem de filmes recentes que lidam com monstros, mas com resultados bem mais interessantes.  São elas:

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Comecemos então:

1.  Surpreenda-nos com a escala da sua destruição

Não é de hoje que o verão americano no cinema acha que elevar os riscos e surpreender o telespectador significa não deixar pedra sobre pedra no fim do filme, mas em algum lugar essa linha foi cruzada resultando em algo que beira o ofensivo para a pessoa que está assistindo (ou alguém realmente acha que a Lois Lane teria um jornal pra trabalhar depois do genocídio no ato final de O Homem de Aço?).

Cloverfield é um exemplo oposto cabível nesta situação. Eu me lembro da primeira vez que vi o filme, no cinema, e mesmo com um orçamento curto (25 milhões) eu consegui me imaginar bebendo numa festa, discutindo se Roar da Katy Perry vai receber o processo forte por plágio que merece e o Godzilla simplesmente aparecendo e arrancando a cabeça do Cristo Redentor. Você não precisa morar em Nova York pra também se imaginar fugindo pelo metrô, imaginando qual a melhor rua pra se fugir da invasão, e é isso que eu espero de um filme que tente me aterrorizar com algo que não existe.

Círculo de Fogo é tão solto do elemento humano, tanto na falta de cidades reconhecíveis, tanto no fato de nós perdermos a noção do quão grande esses robôs são visto que eles nunca são postos ao lado de arranha-céus, que chega um momento em que a graça se dissipa completamente e se o filme terminasse num ousado mash-up entre live action e animação da Pixar a transição não seria completamente absurda.

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2. Faça com que os personagens tenham algo a perder, e use isso para movimentar a trama

Clichês existem porque funcionam, e apesar de Círculo de Fogo usar de muitos (e acredite, nada parece muito novo ou original) um dos que curiosamente não está presente é a falta de risco de perder alguém importante. Todos os exemplos de filmes de monstros da década passada possuem essa trama (Naomi Watts em King Kong, namorada do protagonista de Cloverfield, filha do protagonista de O Hospedeiro, Elle Fanning em Super 8) e o motivo é absurdamente simples: porque funciona.

Se os nossos personagens não correm o risco de ter alguém próximo deles morto (e nesse contexto não vale citar o cafona O FUTURO DA HUMANIDADE ESTÁ EM RISCO) é difícil pedir para que nós, que não estamos na mesma realidade que a deles, nos importemos com seus destinos. E sim, o filme lida com a perda de entes queridos de ambos os personagens principais, mas águas passadas não movem moinho.

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3. Varie as suas cenas de ação, por favor

Muita gente malhou o King Kong do Peter Jackson, e embora eu pessoalmente adore o filme é possível dizer que é quase uma verdade absoluta a grandeza que ele conseguiu alcançar nas diversas cenas de ação (sério, deve ter umas 10 grandes cenas, pelo menos). Você tem exemplos de navio batendo nas pedras, dinossauros caindo do precipício, King Kong no topo do Empire State Building, de dia, de noite, na neve, na água. Você pergunta um lugar e eles provavelmente fizeram uma cena nele. Em Circulo de Fogo, TODAS as cenas são à noite e na chuva. Agora adicione isso ao fato do filme só ser exibido em um 3D que, além de mais caro (18 reais a meia entrada) ainda deixa tudo mais escuro, e você tem a receita para um filme que é quase uma experiência sensorial de borrões e barulhos. Não adianta de nada efeitos caprichadíssimos se no fim das contas não poderemos ver o resultado melhor do que um vídeo de 240p no youtube.

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4. Mulher também é gente

Não conseguiria chegar nem perto de descrever tão bem o problema que Círculo de Fogo tem com mulheres quanto neste texto maravilhoso do Vulture, mas ao assistir o filme é impossível não reparar na completa ausência de mulheres no decorrer das quase duas horas, com exceção da presença de Rinko Kikuchi num dos papéis principais e de uma outra piloto que nem falas tem.

Como se o problema já não estivesse pronto, a personagem da Rinko não só fala pouco como também sofre do terrível problema que atinge qualquer mulher num ambiente de trabalho: deixar as emoções tomarem o melhor de si e precisar de um homem para defender a sua honra em brigas. Chegou um momento do filme em que eu não conseguia parar de pensar se isso tudo era intencional ou não, mas ler textos na internet defendendo a personagem como um ícone feminista mostra que as pessoas ainda tratam uma presença feminina como um recurso estilístico (ela é mulher, mas consegue se defender) ao invés de um ser humano que pode ser competente e interessante, sem precisar trazer consigo uma aura de mártir ou presença secundária.

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No fim das contas, Círculo de Fogo não é um filme horrível como pode ter soado nesses argumentos. Não é burro como um Transformers e é uma das poucas empreitadas originais que não tentam usar qualquer conexão com uma marca já estabelecida na tentativa de sugar todo o dinheiro possível (bom, talvez na marca do Del Toro que, após Mama consegue pela segunda vez nesse ano me enganar para gastar meu dinheirinho em um produto fraco).  Mas se for pra esperar algo divertido, do tipo que você revê com os amigos citando as falas mais marcantes, melhor abaixar o fogo do círculo de vocês e torcer pra que Elysium mês que vem seja melhor que isso.

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