Mulheres hitchcockianas: “a heroína fálica” (Janela Indiscreta)

Semana passada vimos o arquétipo “A vítima enganada” e usamos como exemplo a personagem de Ingrid Bergman no filme Interlúdio, de 1945 (representando, também, o cinema clássico).

Para o gênero “A heroína fálica”, a escolha do filme que representaria este tipo de personagem foi um pouco difícil. Quase escolhi Os Pássaros, pela heroína ser a clara protagonista da história, mas achei mais prudente optar por aquela que é sem dúvidas a perfeita loira hitchcockiana: Grace Kelly.

Essa semana, vamos analisar um dos trabalhos mais lembrados do diretor: Janela Indiscreta. Protagonizado por Jimmy Stewart e Grace Kelly, o longa conta a história de Jeff, um fotógrafo que, após engessar a perna em um acidente de trabalho, começa a espiar os seus vizinhos e desconfia que um deles possa ser um assassino. Sua namorada, Lisa, tem dificuldades para embarcar na história, mas conforme os dias passam, os dois ficam obcecados pela ideia mórbida.

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Como de costume, o post é uma análise do filme inteiro, então se você ainda não conferiu o filme, ou não gosta de ler informações sem tê-lo visto, melhor deixar para depois.

Primeiro, quanto ao termo “heroína fálica”, explico: na psicanálise, o falo é instaurado como um significante corporal privilegiado  (ao menos segundo Lacan). Judith Butler, uma estudiosa feminista mais tarde rescreveu essa teoria, trazendo o conceito de “falo lésbico”. Veja, ele não é concebido exclusivamente pelas lésbicas, mas por qualquer um, já que, a partir dessa elaboração, o falo agora adquire apenas um valor simbólico, podendo ser possuído tanto por mulheres, quanto por homens (ou então, ausente tanto em mulheres, quanto em homens também).

Portanto, o termo aqui apenas exemplifica o comportamento feminino da heroína em questão como sendo masculino, já que ela desempenha ações e atitudes dominantes e ativas. Aliás, daí vem o fato de escolher justamente Janela Indiscreta como exemplo: quando comparado com o protagonista masculino (Stewart), ela é ainda mais masculinizada durante o processo.

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Com isso em mente, podemos seguir com a análise.

Durante o capítulo de introdução do livro “The Women Who Knew Too Much”, Tania Modleski apresenta a sua tese sobre a discussão de Hitchcock ser um feminista ou um misógino: ele simplesmente é os dois, e é por isso que seus filmes sempre dão margens e argumentos plausíveis para os dois pontos de vista.

No capítulo de análise de Janela Indiscreta, no entanto, ela é enfática ao afirmar que esta produção foi provavelmente a primeira a abrir uma discussão positiva para o feminismo. A personagem de Grace Kelly, Lisa, apesar de ainda servir como recurso para discussão de alguns temas estereotipados (interesse por moda e roupas, além da obsessão por casamentos), é um exemplo do novo padrão que seria estabelecido como uma representação positiva da imagem da mulher.

Na cena de introdução da personagem, ela aparece ao público como uma sombra que surge para despertar Jeff (Stewart) adormecido em sua cadeira de rodas. Ele é a donzela indefesa e ela, o príncipe que acorda a Bela Adormecida.

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Em diversos outros momentos, a autora defende essa percepção, como na sequência em que Lisa revela seu nome completo como uma clara representação de maior poder e autonomia à personagem.

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Principalmente, quando em contraste com Jeff, cujo nome desconhecemos. Sabemos apenas do seu apelido, mas não o que as inicias significam.

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Nesta única sequência, é apresentada à audiência as noções de que Lisa é exibicionista e, portanto, possuidora do papel ativo, enquanto que Jeff é um voyeur e, portanto, passivo, submisso, impotente. Este conceito vem a ser reforçado por Tania em outras passagens do texto, como quando a autora relaciona a profissão de fotógrafo com a de “observador profissional” e quando compara a perna engessada como um ato simbólico de sua impotência, de uma castração.

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Uma das várias piadas sugestivas presentes no filme, essa claramente pondo em questão a masculinidade de Jeff em questão.

A teórica também cita outros autores para embasar sua perspectiva. Segundo Raymond Bellour, crítico de cinema, “no cinema clássico, há um sistema binário de oposição entre movimento e não-movimento. Isto funciona para estabelecer a superioridade masculina”. No entanto, é justamente o contrário que é percebido em Janela Indiscreta, é a mulher quem é fisicamente superior ao homem não só nos seus movimentos físicos (já que ele está imóvel e inativo durante absolutamente todo o filme), mas também na dominância dos frames (como bem observa Tania, she towers him over).

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A feminista também discorda de colegas de críticas fílmicas. No seu trabalho, ela refuta a ideia de que “a narrativa fílmica (deste longa de Hitchcock) nega o ponto de vista da mulher”, já que o ponto de vista de Lisa é sempre o mesmo que o ponto de vista de Jeff. Segundo essa ideia portanto, “o espectador não tem escolha senão se identificar com o homem protagonista que exerce um controle ativo sob um objeto feminino passivo”.

Por outro lado, Tania utiliza algumas cenas do filme que revelam que o ponto de vista da Lisa não é só passivo. Tanto ela, quanto Jeff, têm opiniões e perspectivas diferentes sobre o mesmo ambiente. As anotações que ambos fazem quanto a vida afetiva de uma das personagens secundárias (em especial, as desventuras amorosas da Srta. Torso) são opostas durante todo o filme.

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Encontros da Srta. Torso observados por Jeff e Lisa.

No final, o público descobre que são as observações de Lisa que se mostram corretas. Portanto, Lisa representa a espectadora feminina, dando a ela, a última voz.

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Na conclusão do filme, a Srta. Torso recebe a visita de um soldado, quem ela abraça efusivamente ao passo que ele responde “é bom estar em casa”, mostrando ao público que os dois já tinham um relacionamento juntos.

Quando Lisa invade o apartamento do Sr. Thorwald, Tania revela as complicações e como os papéis se invertem: o homem, imobilizado por sua castração nada pode fazer além de observar. O espectador homem é obrigado, então, a reconhecer suas limitações e a se identificar com a personagem feminina (ao passo que a espectadora feminina já se dava nela por meio da agressão e violência contra a mulher).

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Fato este que retorna para, mais uma vez, “feminilizar” Jeff: quando Thorwald se vê frente a frente com Jeff, o protagonista agora assume o mesmo papel antes ocupado por duas mulheres (a esposa assassinada e Lisa).

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Na cena final, após a conclusão do filme, Jeff surge com as duas pernas engessadas, ato máximo de sua invalidez (em primeiro nível) e impotência (em segundo nível). Imediatamente, surge Lisa com as duas pernas livres e vestida com roupas essencialmente masculinas (uma calça jeans e uma blusa social) que “masculinificam” ainda mais a personagem.

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Não somente isso, mas ela surge lendo um livro sobre atividades montanheiras (e esporte é um conceito culturalmente masculino) para logo em seguida trocá-lo por uma revista de moda, em uma representação evidente do seu papel como ativo dominador, já que ela não pode ser controlada.

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Podemos ir ainda além na verdade. Não só o filme se encerra com a imagem de Lisa, mas com uma canção entoando o próprio nome da personagem. O filme, cuja trilha sonora e mixagem de som, é totalmente diegética (isto é, é originada apenas dentro do universo do próprio longa), utiliza como recurso uma música de título igual o de sua personagem (inclusive, em outro momento da produção, Hitchcock já dá uma dica, ao incluir um grupo de amigos cantando: “Monalisa Mona Lisa, men have named you, you’re so like the lady with the mystical smile” de “Mona Lisa” de Nat King Cole). De fato, “men have named you”, “Lisa”. Apenas mais um exemplo dos jogos que Hitch fazia e escondia em seus filmes.

Em um filme sobre o poder da observação, é bastante revelador Lisa ser a última imagem vista pelo público. Isso confere ainda mais poder e dominância para a personagem, concluindo de uma vez por todas, como o filme (mesmo abordando alguns temas estereotipados dentro do universo feminino) ainda é bastante positivo para a representação da mulher.

Abaixo, um pequeno resumo dos principais filmes do diretor que melhor representa o arquétipo.

Semana que vem temos o último arquétipo da série, “A matrona controladora”, e seguirei com o filme Os Pássaros, considerado por muitos a sua última obra-prima.

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Até semana que vem.

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