Duelo das francesas: Juliette Binoche x Marion Cotillard

Em cartaz esse mês com “Camille Claudel, 1951” e “Ferrugem e Osso”, as atrizes Juliette Binoche e Marion Cotillard têm muito em comum. Francesas, elas já trabalharam com diretores prestigiados, têm uma grande base de fãs e chegaram ao auge de suas carreiras internacionais quando ganharam o Oscar.

Por isso, decidimos escrever esse duelo entre as duas e avaliar quem é a melhor atriz no geral. Não só as atuações, mas também os melhores filmes que fez, as bombas que dispensou, os prêmios que ganhou e as pessoas com quem trabalhou.

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Espero que depois disto, os hipsters possam finalmente seguir adiante e aposentar Catherine Deneuve como a principal musa francesa (isso supondo que eles já terminaram de idolatrar Anna Karina, é claro).

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Em “Ferrugem e Osso”, Marion é Stéphanie, uma adestradora de orcas de um parque aquático que, após um acidente com um dos animais, perde as duas pernas. Recuperada do choque, ela tenta voltar ao seu cotidiano e se envolve com Ali (Matthias Schoenaerts), um boxeador que conheceu quando ele trabalhava como segurança de boate.

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Antes de tudo: como que Marion pode ter sido esnobada no Oscar? Eu entendo ela ter sido ignorada em “Inimigos Públicos” (o filme foi low profile demais para a Academia) e entendo ela ter sido esquecida por “Nine” (muita competição interna entre ela, Penélope Cruz e as outras atrizes do elenco), mas ela ter sido deixada de lado por esse filme foi um absurdo. Ainda mais que ela foi preterida a troco de Quavz… Quvenze… Sopa-de-letrinhas Wallis em “Indomável Sonhadora”.

Se eu passasse meses e meses treinando andar de muletas, próteses, aprendendo a sentar, transar, enfim, se mexer fingindo não ter pernas, e acabasse perdendo vaga numa premiação pra uma criança de 9 anos, eu ficaria indignado.

Mas nem só de favoritismo vive o Oscar, né.

Enfim.

“Ferrugem e Osso”, além de ter uma incrível atuação de Marion, também é um filme incrível por si só. A trama, adaptada de uma coletânea de contos, foi modificada por completo. Interligaram as diferentes histórias, criaram personagens para conectá-las melhor e até trocaram o gênero da protagonista: Stéphanie, a personagem que sofre amputação, era originalmente um homem.

Isto é ainda mais interessante (e louvável) quando lembramos que é um filme de Jacques Audiard, diretor de “O Profeta” (e filho de Michel Audiard, um dos alvos do dito “cinema de qualidade” de Truffaut, Godard e cia da “Cahier du Cinema”). O universo essencialmente masculinizado e viril de Audiard ter sido repaginado para acolher uma protagonista feminina foi um toque bastante sensível da parte do diretor.

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Do outro lado, temos “Camille Claudel, 1915” um específico recorte da vida da artista Camille quando já estava internada em um manicômio. A escultora se relacionou com o famoso Auguste Rodin e também esculpiu trabalhos e obras que chamaram a atenção do público, mas que, por puro machismo da época, não soube tratá-la por igual. Abandonada pelo amante, rejeitada pelo círculo social, Camille acabou pirando e foi internada em um hospício, no qual ficou presa até seus últimos anos de vida.

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O filme, dirigido por Bruno Dumont, mantém o estilo praticamente estático do diretor com longos planos gerais e sem maiores interferências, mas não chama muito a atenção. Não por Juliette, que domina em todo o tempo que aparece (e ela está em quase todos os frames do longa), mas pela falta de intenção.

A história se sustenta apenas na expectativa do encontro entre Camille e seu irmão Paul, porém o que se segue é uma teatralização excessiva (movimentos, ângulos de câmera e expressões muito marcadas) que contrastam com a naturalidade das sequências anteriores. Sem contar algumas passagens extremamente clichês que simbolizam o fim da liberdade da internada.

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Por participar de um filme tão tedioso que até Terrence Mallick dormiria no meio, dou apenas 05 pontos para Juliette Binoche que o salva do marasmo total graças a sua boa interpretação. Já Marion, que além de ter uma boa atuação, também está em um bom filme, ganha 15 pontos.

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No fim do primeiro quesito, Marion sai na frente, mas tudo pode mudar ainda. Tem muito chão pela frente.

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Se hoje os filmes estrelados por elas chegam com tanta facilidade aqui no Brasil, parte disto vem do prestígio que elas conseguiram por meio dos prêmios. Então vamos dar sequência ao duelo com a seguinte categoria: as vitórias que elas tiveram nas premiações mais importantes.

Antes de ser esnobada pelos filmes que comentei no tópico anterior, Marion Cotillard foi indicada ao Oscar por Melhor Atriz em “Piaf – Um Hino ao Amor” que para a surpresa de todos (e principalmente de Cate Blanchett, pelo jeito) ganhou da favorita Julie Christie de “Longe Dela”.

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A vitória da Marion foi uma das vitórias mais justas da história da Academia (foi apenas a segunda vez que uma atriz ganhava a estatueta por uma atuação falada inteiramente em outro idioma, a primeira foi Sophia Loren em 1962 por “Duas Mulheres”) e com esse adendo efusivo da Cate não dava para ficar melhor.

Vou até dar uma parede de gifs em homenagem a Catezinha!

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O Oscar não foi o único prêmio que Marion conseguiu interpretando Piaf. A atriz também ganhou o César e o Bafta com o mesmo filme…

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… E com o mesmo cabelo arrepiado e vestido com babados, pelo jeito.

Com algumas poucas lembranças depois, a atriz só conseguiu indicações ao Globo de Ouro que não vingaram. O seu filme mais lembrado (e premiado) ainda é “Um Hino ao Amor”.

Já Juliette, como também outra francesa (ou melhor, não-americana), também causou um grande choque quando ganhou o Oscar em 1997 por “O Paciente Inglês”. A favorita absoluta daquele ano era Lauren Bacall (por “O Espelho tem Duas Faces”), um dos grandes nomes do cinema dos anos 40/50 e que nunca tinha ganhado o prêmio até então. A surpresa foi tanta que nenhuma das cinco indicadas conseguiu esconder a reação.

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PS- Lauren, inclusive, não concorreu ao Oscar novamente, mas ganhou uma edição honorária em 2010 que a homenageou pelo conjunto da obra. Manobra típica do “vamos-fazer-algo-antes-que-ela-morra-e-sejamos culpados”, como quem joga um osso roído a um cão faminto.

Juliette pode ter surpreendido a todos, mas não foi a primeira vez que ganhava um prêmio. Em 1993, ela ganhou o César e a Copa Vulpi no Festival de Veneza, por “A Liberdade é Azul”, em 97, ganhou o Bafta e o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim por “O Paciente Inglês” (além do Oscar, é claro) e mais recentemente em 2010, ganhou como Melhor Atriz em Cannes por “Cópia Fiel”.

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A atriz foi a primeira (e até agora a única) a ganhar a “tríplice coroa de Melhor Atriz” com as vitórias no Festival de Berlim, Veneza e em Cannes. Ou seja, Juliette fez a rapa. Simplesmente não existe nenhum outro grande prêmio da indústria do cinema que ela já não tenha ganhado. Pode se aposentar feliz, porque não tem como se superar.

… A menos que ela queira fazer uma nova rodada e ganhar os prêmios uma segunda vez, né. Meryl Streep já começou essa leva.

Por ganhar todos os prêmios existentes, inclusive o Troféu Imprensa do Sílvio Santos, Juliette dispara com mais 30 pontos no nosso placar, enquanto que Marion ganha apenas 05 pontos pela vitória como Edith Piaf…

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Ok, e mais 05 pontos pelos aplausos miguxos da Cate Blanchett.

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Juliette conseguiu ultrapassar Marion, mas a diferença ainda é pequena. Vejamos como elas se saem agora que vamos dar uma olhada naquilo que deve ser o mais importante de uma atriz: a sua filmografia.

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Tem certos atores que são imediatamente lembrados por um filme X ou Y, que acabam virando o seu signature-movie. Como já mencionei nos critérios anteriores, não dá para falar de Juliette Binoche e deixar de falar de “O Paciente Inglês” ou de “A Liberdade é Azul”. O primeiro, dirigido por Anthony Minghella, foi um sucesso de bilheteria e ganhou 9 Oscars (incluindo Filme e Direção), tem avaliação de 87 pontos no Metacritic, com opiniões do nível de…

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E também…

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Sem esquecer de…

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Pois é, se os espectadores já acharam “O Paciente Inglês” arrastado, eles devem passar longe de “A Liberdade é Azul”, filme do polonês Krzysztof Kieślowski (que com esse nome deveria responder pelo teste de paternidade de Quvenzhané Wallis).

No filme, ela interpreta a esposa de um maestro de uma orquestra que perde o marido e a filha em um único acidente de carro. O filme é sobre o processo de saber lidar com a perda, sobre depressão, sobre seguir em frente e sobre liberdade na tradução dos títulos em português, porque na versão original o lema “liberdade, igualdade e fraternidade” nada tem a ver com a trilogia.

Brincadeiras à parte, o filme é onde Juliette entrega a sua melhor performance e é um filme obrigatório pra qualquer um que se diga fã da atriz.

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Juliette também é conhecida por “Caché”, de Michael Haneke, e “Horas de Verão”, de Olivier Assayas. Apesar de não ser a protagonista de nenhum dos dois longas, ela participa de várias cenas chaves e também entrega boas atuações. Especialmente no filme de Assayas, que considero uma das melhores interpretações dela e foi praticamente ignorada.

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Mas além de filmes franceses, ela também já fez vários filmes em língua inglesa. O mais famoso deles é “Chocolate”, em que faz uma doceira que tem um par romântico com Johnny Depp.

Aliás, a lista de parceiros românticos dela é a mais diversa, indo desde Daniel Day Lewis (“A Insustentável Leveza do Ser”), Ralph Fiennes (“O Morro dos Ventos Uivantes”), Jean Reno (“Fuso Horário do Amor”), até chegar em Robert Pattinson (“Cosmópolis”) e… Rufem os tambores… Steve Carell (“Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”).

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Sempre fico surpreso do cartaz não ter uma interrogação seguindo imediatamente o nome da Juliette.

Do outro lado, temos Marion. Como já foi dito, o filme que a catapultou para o estrelato internacional foi de fato “Piaf – Um Hino ao Amor”, mas Marion veio a se firmar mundialmente em “A Origem”, drama épico e excessivamente elaborado de Christopher Nolan, em que ela faz a esposa de Leonardo DiCaprio (ou o sub-consciente sabotador dele, mas isso é o mesmo que parceiro conjugal, então eu estaria sendo redundante).

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O filme é mesmo incrível (ganhou em várias categorias no prêmio do blog), mas com um elenco inflado desses é difícil ter um filme só seu quando tem que disputar atenção com tantos outros personagens secundários.

Aliás, esse parece ser o problema mais recorrente da filmografia da Marion. Em seus outros filmes mais famosos, como “Contágio” e “Meia Noite em Paris” por exemplo, ela também tem que dividir a cena com vários outros atores. Não acho que seja negativo dividir tela com Kate Winslet, mas eu me sentiria ofendido em perder tempo de filme para Adrien Brody ou Kathy Bates.

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Em “Inimigos Públicos”, filme de Michael Mann, ela tem um destaque maior, mas para azar dela o filme passou praticamente despercebido pelo público e pelos críticos americanos. Uma pena…

Por ter uma variedade maior de filmes de gêneros diferentes, em línguas diferentes e com papéis significativos, Juliette ganha essa rodada e leva outros 30 pontos, enquanto Marion ganha apenas a metade pela tradição de ter apenas metade do tempo de duração em cena.

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A diferença aumenta entre elas. Melhor Marion começar a reagir ou vai terminar perdendo de lavada.

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E se um ator é conhecido por seus acertos, nada mais justo do que utilizar também como critério de avaliação seus maiores erros. Vamos começar a vasculhar então as maiores bombas de cada uma.

Logo de início, não posso deixar de falar de “Elles”, provavelmente o único filme verdadeiramente ruim que Juliette fez em toda a sua carreira. A produção conta a história de uma jornalista que escreve um artigo de revista (a “Elle”, daí o título) sobre prostituição feminina. O filme tenta fazer uma conexão entre os depoimentos das duas prostitutas femininas com a fracassada vida sexual da própria jornalista, mas tudo fica incoerente e desinteressante demais.

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Merecia negativá-la também pelas artes com mil fontes diferentes. Pra que isso?

Os outros filmes decepcionantes não chegam a ser exatamente bombas, só são filmes medianos. Por exemplo, “De Coração Aberto”, “A Vida de Outra Mulher” e “Palavra de Amor”. São filmes dispensáveis? Sim. Mas também são inofensivos. Não chegam a exatamente queimar o currículo dela.

Com Marion ocorre o mesmo. Os seus piores filmes são apenas medianos (quer dizer, com a exceção de “Nine”, que é de fato ruim): “Até a Eternidade”, “Um Bom Ano” e por aí em diante. Pelo menos em “Nine” ela mostra que além de atuar, sabe cantar muito bem.

Por acaso, os filmes mais citados de ambas são justamente as comédias românticas. Tudo bem que é bom fazer um filme desses de vez em quando pra garantir o leitinho das crianças, mas será que é tão difícil assim fazer uma comédia romântica genuinamente boa?

E se estamos falando de bomba, impossível deixar de lado o único verdadeiro erro de Marion. A cena em que sua personagem morre em “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”.

A atuação foi tão ruim, mas tão ruim, que gerou uma comoção na época com direito ao tumblr People Dying Like Marion em que todos imitavam a atriz, até a febre morrer (e ainda assim de uma forma muito mais natural que a dela).

E com isso, acho prudente tirar 20 pontos de cada uma pelos desserviços prestados. Parabéns a todos os envolvidos.

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Com mais que o dobro de pontos de Marion, Juliette ainda mantém a dianteira. Vejamos como que o duelo termina agora que chegamos ao último quesito.

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Aqui já temos um assunto talvez intangível demais. Como definir o legado de uma atriz? Decidi por, primeiro, avaliar os diretores com quem cada uma trabalhou. Olhando a legião de cineastas que as dirigiram, podemos ter uma percepção melhor sobre quem é mais influente ou tem mais prestígio.

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Ok que alguns deslizaram aqui e ali, mas ainda é uma lista de diretores muito bons . Todos tem uma carreira sólida e invejável. Deixando o discurso politicamente correto de “The Voice” de lado, pessoalmente acho a lista da esquerda mais forte. Dou 10 pontos para Juliette, então.

Mas como avaliar além disso? Como definir a influência que cada uma deixou no cinema? Marion já ganhou críticas como a do jornalista do New York Times que disse que sua atuação como Edith Piaf é “a mais espantosa imersão de um artista no corpo e alma de um outro jamais vista em um filme”. É uma opinião radical, sem dúvida nenhuma, mas porque seria menos ou mais importante que uma outra qualquer? Como mensurar algo tão subjetivo como a nossa visão de um filme ou de uma interpretação?

Por isso, vou terminar com esse critério em aberto e não distribuir pontos para ninguém. Acho que é mais justo para as duas, não?

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Dessa forma, o nosso duelo termina assim. Uma vitória expressiva de Juliette Binoche ou, como dizem a imprensa francesa, La Binoche. Talvez com mais alguns anos de carreira, Marion consiga chegar lá e superar sua colega de produção.

O que acha do resultado? Gostaria que fosse diferente? Acha que seria melhor se um outro ator ou atriz estivesse no post? Deixe sua opinião nos comentários!

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