Mulheres hitchcockianas: “a matrona controladora” (Os Pássaros)

Para concluir a série Mulheres Hitchcokianas, já vimos “a vítima ingênua” e “a heroína fálica”, vamos seguir então para o último arquétipo: “a matrona controladora”. Como exemplo, temos Lydia Brenner (Jessica Tandy) de “Os Pássaros”.

Uma livre adaptação do romance de Daphne Du Maurier, o filme é considerado a última obra prima do diretor e conta a história de Melanie Daniels (Tippi Hendren), uma socialite que viaja para a interiorana Bodega Bay atrás de seu misterioso admirador (Mitch Brenner, interpretado por Rod Taylor) e se surpreende com os imprevisíveis e ferozes ataques de pássaros.

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Lydia é a mãe de Mitch e é a personagem mais bem escrita dentro do filme, com camadas e mais camadas de conflitos internos.

Justificando a seleção: foi escolhido “Os Pássaros” pelos fatores 1) filme com alto apelo popular, e 2) desenvolvimento da personagem. Lydia tem muitas sequências importantes e um arco dramático bem expressivo ao longo de todo o filme, gerando momentos de redenção (e comoção com o público, claro).

Assim como os outros tipos de personagens, resolvi usar o termo “matrona controladora” diante do perfil tão comum dentro dos filmes de Hitchcock. Não são necessariamente todas mães (pelo menos não de imediato), mas sim mulheres em situações de autoridade ou maternidade.

A Sra. Danvers (Judith Anderson) de “Rebecca – Uma Mulher Inesquecível”, por exemplo. Apesar de não ser a mãe de Maxim de Winter (Laurence Olivier), atua como uma âncora materna contra a chegada da nova Sra. de Winter (Joan Fontaine). Rejeita, arma planos e até manipula a menina para que o casamento do “filho” seja um fracasso.

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O site The Guardian, em comemoração ao aniversário de Hitchcock este mês (faria 114 anos em 13 de agosto), fez uma interessante coletânea com estatísticas completas sobre a filmografia inteira do diretor. Uma das montagens dizia respeito às mães nos filmes dele. Dentro de uma seleção de 17 mães de diferentes filmes, classificaram elas com adjetivos que iam de Muito Positivo a Muito Negativo. Uma divisão bem elaborada que também serve de introdução para este nosso arquétipo de hoje.

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(clique para ver uma versão maior)

Embora as personagens tenham diferentes tempos de cena (a mãe de Teresa Wright em “Sombra de Uma Dúvida” é um dos vários coadjuvantes, enquanto que Doris Day em “O Homem que Sabia Demais” é a co-protagonista), todas projetam um sentimento forte para o personagem principal, seja ele o seu filho (e aí surge o dilema edipiano) ou a moça pelo qual seu filho se interessa.

Em “Os Pássaros”, como já mencionei, Lydia tem verdadeiro repulsa à Melanie. No início do filme, Mitch, seu filho, apresenta a garota à mãe e revela o presente que ela trouxe para a família dele: um casal de “lovebirds” (uma referência ao pequeno encontro entre os dois no começo do filme). Não demora muito para ela captar a ambiguidade dos pássaros lovebirds e dos dois lovebirds, e fazer olhares negativos e reprovadores.

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E já que falamos sobre os pássaros lovebirds: durante “The Birds” de Camille Paglia, livro que escreveu analisando o filme de mesmo nome, a feminista levantou observações pertinentes não só quanto a aspectos técnicos de produção do filme, mas também quanto às leituras disponíveis das personagens.

Assim que os lovebirds aparecem, Camille descreve eles como sendo “de cores verde pastel com pequenas manchas vermelhas”. Uma característica que volta a surgir no final do filme, na emblemática cena em que Melanie é atacada no sótão.

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Essa não é a única relação que podemos fazer entre Tippi e os pássaros. Logo na cena de introdução da Melanie Daniels, Mitch a lembra de quando ela foi processada por alguns atos de vadiagem.

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Essa janela de vidro talvez não, mas há uma outra que sim…

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Na conversa, Mitch argumenta que “eles (o juiz e os advogados) deveriam ter te colocado atrás das grades”, então não demora muito para Hitch agir como o julgador definitivo, colocando a loira atrás das grades (a cabine telefônica) e punindo-a pelos seus atos.

Aliás, o humor negro é uma marca registrada do cineasta. Há vários pequenos momentos de brincadeiras subliminares, como quando Melanie e Mitch estão andando por Bodega Bay depois do primeiro ataque dos pássaros no filme (uma gaivota mergulhou em cima da garota).

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Enquanto os dois andam, podemos ver a primeira placa “out for lunch” no fundo.

E em um plano geral, o letreiro Sea Food Restaurant surge dominando acima do casal. De forma subliminar, nós percebemos que a gaivota também saiu para almoçar e Melanie era o seu prato.

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Não posso deixar de falar também da ironia de Hitch em usar um vidro de água oxigenada para limpar o curativo de Melanie, fazendo referência às suas loiras tão queridas.

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Mas voltemos a Jessica Tandy. Em “The Birds”, Camille chama a atenção do leitor de que a imagem do cartaz não é uma foto de Tippi, a protagonista, mas sim a imagem de uma foto modificada de Jessica Tandy, de modo a deixá-la mais parecida com a heroína.

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Desta forma, a imagem das duas gerações se fundem em uma só. Fusão esta que, ainda podemos contar, também se faz presente em “Psicose” com Norman e Sra. Bates (e também com a família Sebastian em “Interlúdio”, como já mencionei em outro post).

Inclusive, não faltam momentos para a autora traçar paralelos entre este e o mais celebrado filme de Hitch: “Psicose”. Alguns dos momentos mais antológicos do filme de 60 também se fazem presentes aqui, como quando o filho carrega a sua mãe e a coloca numa cadeira, ou os diversos adereços de pássaros (presentes empalhados no hotel de Norman).

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Mas é na análise de momentos sutis que Camille se concentra em seu livro. Como quando observa o motivo de Lydia, durante um ataque dos pássaros, procurar refúgio debaixo de um relógio (it’s driving her cuckcoo) ou quando Lydia, momentos após este embate, recolhe fragilizada os pedaços quebrados de uma xícara (ela está, assim como a louça, se “repartindo”, she’s cracking up).

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Veja que no último quadro ela observa que até seu papel maternal foi substituído por Melanie. Traço aí um paralelo com os pássaros do filme: os ataques são ameaças? Instinto de competição?

A louça repartida, além de aparecer em outros momentos-chave da personagem (quando visita a casa do fazendeiro Dan Fawcett) é também referência à sequência inicial de créditos do longa, com os título repartidos como se estivessem quebrados.

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Aliás, esse momento é o mais emblemático da personagem (e do filme também). Quando Lydia reconhece o Sr. Fawcett e presencia a traumática imagem do cadáver sem os olhos, ela foge aterrorizada para casa e, em um momento de extrema fragilidade, desabafa para Melanie sobre o medo em ficar sozinha, “perder” seu filho e ser abandonada. A conexão com a loira não é só por meio do próprio discurso da personagem, mas a forma de agir e reagir.

Lydia correndo pelo corredor com os braços esticados é a mesma posição de Melanie no sótão…

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… Ou então, quando Lydia dirige o carro em disparada é também outro gancho de quando Melanie deu partida no motor no barco.

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Ou seja, as duas têm uma relação direta durante todo o filme. Seja nos seus discursos, na disputa pelo amor do homem (um entendimento mais psicanalítico, obviamente) e nas ações que tomam durante toda a duração do longa: a batalha entre as duas mulheres vai além do universo sobrenatural dos ataques físicos dos pássaros e adquire contornos de combate entre verdadeiras gladiadoras.

No entanto, tudo culmina no final do filme quando Melanie procura reencontro com Lydia e ganha conforto no seu colo. Camille levanta diversas hipóteses: terá Melanie ganhado a mãe que nunca teve? Ou terá ela se tornado uma versão infantil e dependente? A cena representa a vitória e dominância de Lydia, assim como os pássaros do filme?

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A última pergunta, além de dar fundamento para a divisão da personagem como Matrona controladora (oras, se ela foi a força que prevaleceu, então ainda mantém “a guarda do filho”), também serve como ponte irônica para outro comentário que a autora faz sobre os pássaros do filme.

“Pássaro”, no inglês britânico, é gíria para mulher jovem e atraente. Se a Sra. Brenner se saiu vitoriosa, temos aí a verdadeira representação dos pássaros do título.

Abaixo, um pequeno resumo dos principais filmes do diretor que melhor representa o arquétipo.

Com isso, encerramos a nossa série sobre as mulheres e os arquétipos mais comuns na filmografia de Hitchcock. Talvez faça uma edição bônus sobre o filme “Um Corpo que Cai” (mesmo sendo um dos filmes do Hitch que menos gosto), mas é apenas um pensamento. Se perdeu alguma parte da série, aqui estão os links dos posts anteriores.

1ª parte: Apresentação da série Mulheres hitchcokianas
Vídeo introdutório

2ª parte: Arquétipo nº 01: A vítima enganada
“Interlúdio”

3ª parte: Arquétipo nº 02: A heroína fálica
“Janela Indiscreta”

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De qualquer jeito, espero que tenham gostado dos textos. Dêem sugestões sobre qual outro filme, diretor ou tipo de cinema gostariam de ler na próxima série aqui no blog!

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