Crítica: “As Bem-Armadas”

Você muito provavelmente já conhece de cor a premissa de “The Heat” (me recuso a escrever o título brasileiro do filme). Uma dupla de policiais, com abordagens e estilos opostos, devem se unir e trabalhar em equipe para que possam resolver um caso que trará benefícios para ambas as partes. A história é igual a muitas e muitas (e muitas) outras que existem por aí. Felizmente, o filme tem as suas novidades.

A primeira a saltar à vista é o fato de ser estrelado por mulheres. A comédia é um dos raros exemplos do gênero buddy-cop que dispensa os Bruce Willis’s (da franquia “Duro de Matar“), Mel Gibson’s (de “Máquina Mortífera“) ou Will Smith’s (de “MIB – Homens de Preto“) da vida e os substituem por duas mulheres. Mas não duas mulheres quaisquer, mas sim… pasmem… duas mulheres quarentonas.

Apesar de ser um raríssimo exemplo, é estimulante ver que filmes assim são produzidos e exibidos no período mais competitivo do cinema hollywoodiano, o verão americano: período do ano em que os estúdios vivem em pé de guerra pra disputar quem vai lucrar mais. Mais do que isso, “The Heat” foi um grande (e até inesperado) sucesso. É a décima maior bilheteria do ano dentro do mercado americano.

Veja abaixo a nossa opinião sobre o filme.

O fato de ser protagonizado por duas mulheres (e uma das pouquíssimas opções de filmes do tipo entre os longas em cartaz na época) talvez seja uma explicação do porquê foi tão bem recebido pelo público feminino. Na sua semana de estreia, 2/3 do público era composto de mulheres de, em sua maioria, mais de 35 anos.

Mas mais do que ter duas mulheres liderando a produção, “The Heat” também é uma comédia especial por pôr em atrito dois estilos de humor completamente diferentes. Sandra construiu sua carreira graças ao seu humor físico com gags, caretas e muito do estilo Jerry Lewis. Já Melissa é um dos grandes exemplos do tipo de humor improvisado, com diálogos em cima do outro, momentos fora do roteiro, dentre outras características já carimbadas pela trupe do Judd Apatow. Dois tipos de humor distintos, mas que de alguma forma funcionam muito bem.

A sequência em que Melissa pergunta do gato Abóbora pra Sandra e desata a chorar, pensando no que fez o gatinho abandonar a agente, enquanto Sandra assiste e concorda com a cabeça é apenas um dos vários exemplos em que as atrizes expõem seus estilos de atuação e os misturam em algo zoneado e sem ordem, mas muito especial.

A história, no entanto, é exageradamente previsível. O que chega a ser estranho, já que o filme devota bastante parte da sua duração a explicar a trama, sendo que não há muito desenvolvimento da plot. A descrição das cenas de crime, dos possíveis suspeitos: por boa parte do filme, a sensação é de um constante dejá-vù. Inclusive, muito da estrutura de “The Heat” é bastante similar com “Miss Simpatia”: em poucos minutos, é possível prever quem é o vilão, quais serão os obstáculos que elas terão que enfrentar individualmente, dentre outras típicas reviravoltas.

Em (1) como a tenente Lenina, de “O Demolidor”;
Em (2) como a agente do FBI Gracie Hart, de “Miss Simpatia”;
Em (3) como a detetive Cassie, de “Cálculo Mortal”;

Diante de um mote tão bobo é aí que entra a outra novidade do filme de Paul Feig, a ousadia. “The Heat” não tem o menor pudor: balas perfuram as testas de criminosos, gargantas são cortadas, pessoas são esfaqueadas… O fato da personagem de Melissa ser mais desbocada que as sub-celebridades da “Fazenda” é um fator pequeno dentro das cenas excessivamente gráficas. Felizmente nenhuma dessas cenas soam gratuitas ou aleatórias. Um dos melhores momentos do filme (e um dos melhores do ano) é quando Sandra se vê obrigada a desempenhar uma traqueostomia de emergência. Simplesmente hilário.

Se há cenas corajosas e profanas, também há as previsíveis sequências de uma comédia feminina/teen. É algo como esperar pela clássica cena em que a protagonista faça sucessiva trocas de roupa, enquanto o elenco coadjuvante ri e uma música pop qualquer embala o momento. Os exemplos têm aos montes.

Em “The Heat”, a cena-clichê é a dança ao som de “Groove is in the Heart” depois que as duas enchem a cara no bar. Não só é desnecessária, como destoa do resto do filme. Parece ter sido feita apenas para que a produção fosse indicada a “Melhor Coreografia de Dança” dos Teen Choice ou MTV Movie Awards da vida (e espero que nenhum dos envolvidos tenha uma ambição tão pequena pra mirar tão baixo assim).

Quanto ao elenco de coadjuvantes não há muito o que se falar. Demian Bichir descansa na sua gimmick de “olá sou latino”, enquanto que Marlon Wayans não faz absolutamente diferença alguma como o par romântico de Sandra. Aliás, porque insistem em emparelhar Sandra com atores bem mais jovens que ela? Daqui a pouco até o Chico Bento Moço vai ser o próximo interesse romântico.

A única que chamou minha atenção foi Jane Curtin (da hilária série “3rd Rock From the Sun“), mas mais pelo motivo de “eu-conheço-ela,-mas-não-lembro-de-onde” do que pela personagem em si (ela interpreta a mãe de Melissa). Uma pena que a carreira dela tenha sido reduzida a esse tipo de participações especiais “de luxo”.

Apesar de uma trama previsível e chupinhada de outros tantos filmes do gênero, “The Heat” se diferencia pela incrível química entre as protagonistas e pela profanidade dos diálogos e das cenas de humor. Um viva à grosseria feminina.

As Bem-Armadas 
The Heat, EUA, 2013, comédia, 117 min.
De Paul Feig. Com Sandra Bullock, Melissa McCarthy e Demian Bichir.

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4 comentários

  1. Achei o filme divertido, mas achei as cenas de violência chocantes demais. E para quem problemas em ver sangue (como eu), faltou só passar mal com a cena da traqueotomia.

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