Festival do Rio: “O Verão da Minha Vida”

Um horário acessível e um cinema em que eu consigo chegar com apenas uma condução fizeram que O Verão da Minha Vida fosse o meu escolhido para abrir os trabalhos da edição 2013 do Festival de Cinema do Rio. A responsabilidade de mudar a impressão de que essa é a edição do Festival com a pior seleção de filmes que eu já participei era provavelmente grande demais para um filme como esse, afinal, não dá pra exigir tanto de um feel good movie.

Ou será que dá?

É de se esperar que alguém que mostre interesse em ver O Verão da Minha Vida já tenha visto e gostado de Juno, Pequena Miss Sunshine, Minhas Mães e meu Pai, Moonrise Kingdom e qualquer outro exemplar dessas comédias sobre pessoas brancas e excêntricas que acabam parando no Oscar de melhor roteiro original (sendo que os dois primeiros até são citados em letras garrafais no próprio cartaz do filme).

O roteiro de Nat Faxon e Jim Rash (dupla premiada pela adaptação de Os Descendentes, que aqui estreiam na direção) sabe bem o tipo de público com o qual quer dialogar, e esteticamente o resultado é quase um 101 do filme indie bem sucedido: passar por Sundance com uma boa recepção, ganhar um dinheiro razoável (23 milhões num orçamento de 4) e acabar colhendo pelo menos uma indicação (que dependendo da falta de competição resulta em vitória) do já mencionado Oscar de roteiro original. Mas por que exatamente continuamos a assistir filmes assim?

Não suporto Minhas Mães e Meu Pai (que por sinal acho até meio preconceituoso), mas preciso dizer que pessoalmente gosto bastante de Juno e Pequena Miss Sunshine, mesmo sabendo que essa não é a coisa legal a se dizer hoje em dia. São filmes engraçados, em alguns momentos tocantes e conseguem melhorar o meu astral caso eu pegue o pedaço deles em um telecine fun da vida (se você não abriu um sorriso com a Abigail Breslin fazendo a coreografia no final de Sunshine talvez algum pedaço dentro de você esteja morto). Resumindo, são exatamente a definição de um feel good movie.

O verão da Minha Vida não me deixou com uma sensação boa. E não foi pelo filme não ter absolutamente nada de original (até uma das gags do menino perdendo o short de banho já foi feita em Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York), mas sim porque  se identificar com os personagens adultos é difícil visto que qualquer um que não seja do núcleo do parque aquático pode ser basicamente definido com o adjetivo odioso.

Se a história é protagonizada por um garoto (Liam James, bom no papel), são os adultos que se comportam como as crianças aqui, sejam enchendo a cara (a personagem da Alisson Janney não tem nenhuma cena sóbria) ou experimentando drogas como se tivessem em um spring break, algo que é mencionado pela personagem da Anna Sophia Robb (que por sinal aparece bem menos do que eu esperava). A dificuldade em se relacionar com os adultos, no entanto, aumenta a nossa afeição ao personagem principal que consegue escapar da armadilha de “sou um loser porque sou retardado”, e realmente faz com que entendamos o quanto estar em um ambiente onde pela primeira vez o aceitam é importante para ele. Esqueça os supostos excluídos sociais de As Vantagens de Ser Invisível (se é que dá pra chamar jovens sexualmente ativos com dinheiro e beleza de excluídos), aqui a retratação de o que é não ser aceito atinge o alvo bem mais certeiramente.

O Verão da Minha Vida pode não ter nada de novo se comparado aos milhares de coming of age que já tivemos desde que o cinema existe, mas alguns dos clichês são mostrados sob uma nova luz e merecem crédito. A escalação de Steve Carell como vilão (algo que acho que é a sua primeira vez fazendo) traz um pouco de frescor ao ver alguém que parece se repetir em papéis tentando algo novo, apesar de que ele podia estar tentando qualquer tipo de coisa quando vi no trailer que ele estava assim:

O que me deixou que nem a Taylor aqui embaixo quando vi que o seu personagem era babaquíssimo no filme.

Outra das boas surpresas é a relação do nosso protagonista com o personagem do Sam Rockwell, que, aliás, parece ter sido escrito especialmente para ele voltar à velha forma. A amizade entre os dois felizmente nunca cai no buraco de “você é o pai que eu nunca tive”, e parece o desenrolar genuíno de alguém que decidiu prestar atenção em uma criança que ninguém nunca ligou antes.

No fim das contas, a minha maior surpresa foi o tom em geral do O Verão da Minha Vida ser bem mais azedo do que o seu típico feel good movie. Os filmes já citados no começo do texto tratavam de problemas como gravidez na adolescência, vício, traição e morte na família sem nunca perder o otimismo e o bom humor, mas esse não é o caso aqui. Não há redenção, a maioria das pessoas não sabe o que está fazendo e você não tem como saber se algumas delas ficarão bem.

Mas pode um feel good movie terminar desse jeito, se os personagens em si não estão todos felizes? Pode, se ao fim da sessão você que assiste se sentir melhor ao entender não é só a sua vida que às vezes te deixa em um beco sem saída. Ou que pelo menos aquilo tudo não está acontecendo contigo.

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