Festival do Rio: “Fruitvale Station”

Fruitvale Station é um daqueles filmes que todo o entorno é maior do que a gente vê na tela. Baseado em um chocante caso de 2009, em que o abuso de poder de um policial terminou com o assassinato de Oscar Grant na plataforma do metrô que dá nome ao filme, a produção não poderia ter estreado em um momento melhor aqui no Brasil, onde relatos de abusos similares tem se tornado cada vez mais comuns.

Assisti o filme em uma sessão semana passada em que a montadora do longa estava presente, com direito a um discurso confusíssimo, e a fila saída do Estação Botafogo chegava quase ao fim do bloco (embora muita gente não soubesse exatamente qual filme eles estivessem indo ver por conversas que eu consegui pegar durante a fila).

Até aí nenhum problema, um filme baseado numa história chocante que chega com um timing excelente sempre vai atrair pessoas que vão gritar FORA CABRAL FORA PAES no meio da sessão achando que essa crítica bem desenvolvida é urgente bastante para que atrapalhe a experiência dos outros (e isso literalmente aconteceu), mesmo sendo um festival também financiado pelo governo do Rio de Janeiro. Mais apropriado que isso só se a sessão fosse na Cinelândia com o público tomando uma surra de cassetete da PM com bombas de efeito moral entrando pela janela do Odeon. O problema é que, enquanto filme, Fruitvale Station não se sustenta.

Acompanhando o último dia de vida de Oscar nos seus afazeres corriqueiros, o filme usa uma estrutura mais solta para que conheçamos sua vida e a de seus familiares, sem a preocupação de muito desenvolvimento de roteiro porque todos sabemos que o filme começa mesmo quando o couro comer na estação (e convenhamos, todo mundo assiste filmes desse tipo pra ver o horror na tela e se chocar e ficar indignado. Ninguém viu O Impossível pra não ver o tsunami).

O negócio é que para um filme cuja história real aconteceu há quatro anos e foi até captada pelos celulares de testemunhas, é uma decepção confirmar que basicamente todas as cenas apresentadas para dar alguma empatia para o personagem do Oscar foram inventadas com o intuito de forçar uma identificação nossa com o seu personagem (algo que você pode conferir nessa crítica meio preconceituosa da Forbes). Até ele salvando um cãozinho aparece no meio.

Obviamente que nada disso tira o peso do ato brutal e repulsivo que aconteceu em 2009, mas se a intenção do filme é nos mostrar o homem por trás do caso, será que dá pra confiar em uma descrição que não é nem realista? Não que seja uma surpresa vindo dos Weinsteins, que agem quase como aves de rapina atrás de histórias reais que eles possam extrair algum dinheiro e prêmios.

Se enquanto estudo de personagem o filme não deslancha, enquanto drama de Oscar (o prêmio, não o personagem) a coisa melhora um pouco, mas não muito. A tensão e desespero dos presentes na cena do metrô são reais e fazem com que realmente sintamos a indignação de presenciar tal ato. O problema é que é tudo tão rápido que quando a gente já vê o desdobramento do filme no hospital é difícil saber exatamente qual é o momento que a gente deveria começar a chorar (visto que o filme tem sendo vendido como o tearjerker da temporada e eles já nos manipulam como devemos nos sentir desde o começo).

No fim das contas, Fruitvale Station existe enquanto denúncia de uma situação inaceitável que precisa ser exposta para o maior número de pessoas que ainda não conheçam o caso, e também funciona como celebração de uma pessoa que perdeu a vida tão brevemente. Enquanto filme, que você senta, assiste e reflete, é mais uma ideia mal desenvolvida.

Easter Egg da sessão:

1. Um homem gritou Amarildo ao fim do filme, seguido por um silêncio desconfortável, mas acho que se tinha algum filme nesse festival que ele podia gritar isso era esse, então acho que tudo bem?

2. Depois de um minuto de créditos finais as palmas começaram. Certeza que alguns RPs presentes na sessão foram demitidos nessa noite.

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