Crítica: “Gravidade”

Foram quatro anos e meio de produção, incontáveis trocas de atrizes para o papel que acabou ficando com Sandra Bullock e um orçamento de aproximadamente 100 milhões de dólares (cada centavo muito bem empregado) nas mãos de um diretor mais conhecido pelo esmero visual de seus projetos do que por entregar sucessos de bilheteria.

O que tinha tudo para ser um projeto de vaidade resultou em sucesso de público (200 milhões de dólares mundialmente já nas duas primeiras semanas e contando) e crítica (97% no Rotten Tomatoes e 96% no Metacritic), e, mais do que isso, no filme mais bonito que você já viu neste século.

O sucesso incontestável de Gravidade fica um tanto quanto óbvio após assistir o filme. Quem nunca olhou para o céu escuro no meio da noite e se perguntou como deveria ser estar lá em cima sozinho? Partindo desse medo básico, o diretor Alfonso Cuarón, preocupado em retratar o espaço com a maior realidade possível, nos tira da posição de espectadores e trabalha com a imersão de que realmente estamos à mercê de toda a impotência da gravidade zero que vemos na tela.

Tendo visto o filme em 3D IMAX, é nítido como tudo o que vemos na tela parece ter sido filmado com o formato interativo em mente, saindo do truque de lançar o filme em 3D apenas pela desculpa de cobrar ingressos mais caros. O público parece estar ciente disso, visto que já é um dos filmes com mais ingressos vendidos no formato, sendo uma das poucas exceções do mercado atual que mostra a rejeição cada vez maior do público por filmes em 3D (e provando que os espectadores estão dispostos a coçar o bolso se o produto oferecido parecer de qualidade).

Tal resultado só pôde ser conseguido com a tecnologia que dispomos atualmente, e com um extenso processo de pesquisa por parte de toda a equipe de produção e dos atores, que almejavam alcançar o nível de realismo necessário para que nos convencesse de que tudo o que vemos ali poderia ser real (salvo algumas licenças criativas para maior carga dramática, como as lágrimas que flutuam dos olhos da Sandra Bullock).

Para quem ainda estava cético se o filme conseguiria sustentar por uma hora e meia a sua premissa tão incomum, podem respirar aliviados. Gravidade não vira uma reflexão monótona sobre o nosso universo após as cenas que já conhecemos pelo trailer acontecerem, mas também não é um amontoado de explosões e destroços voando na nossa cara (apesar disso acontecer sim e ser de cair o queixo). Cada cena no filme tem a função de empurrar a história para frente, tanto no sentido de desenrolamento da ação quanto para que conheçamos mais os dois únicos personagens na tela. Um filme que lida tanto com tecnologia e recursos visuais só é tão bom quanto a nossa ligação com ele, e, felizmente, Gravidade nunca perde contato com o fator humano.

O fator humano aqui cai todo nos ombros de Sandra Bullock, que consegue se sair bem sucedida na difícil missão de ser a única personagem em tela durante grande parte do filme. Hoje em dia uma das atrizes mais bancáveis do cinema, é curioso o paralelo de sua personagem com a atual situação do cinema americano para uma mulher que deseja estrelar um filme. Sandra é dona do outro único filme a ser estrelado por uma mulher a entrar no top 10 americano de bilheteria do ano (As Bem-Armadas), e o próprio Cuarón revelou em entrevistas as inúmeras tentativas por parte do estúdio de tentar transformar sua personagem em um homem, partindo da noção de que o público rejeitaria um filme de ação estrelado por uma mulher. É torcer agora para que a recepção positiva do filme mude o cenário dos próximos projetos que serão aprovados, abrindo espaço para outros atores independente de sexo ou raça.

Não só sobre as limitações de gênero na tela, Gravidade tem a chance de também mudar todo o cenário do que viemos a esperar de uma grande produção que agrega bilheteria e recepção crítica. As comparações com os clássicos do gênero (2001 – Uma Odisseia no Espaço, Alien) são inevitáveis, mas servem para mostrar que o filme tem o potencial para entrar nesse seleto grupo de obras que persistirão ao tempo e mudam a nossa percepção de filmes e o que podemos esperar deles. É um filme que só poderia existir hoje, e além e te mostrar o espaço com uma riqueza de detalhes e possibilidades nunca antes vista, esse recurso é utilizado a favor de uma história não só sobre máquinas, mas sobre a condição humana e dos limites que rompemos sem nem nos darmos conta. É um filme para ser visto, e celebrado, na tela grande.

Gravidade 
Gravity, EUA, 2013, drama/sci-fi, 91 min.
De Alfonso Cuarón. Com Sandra Bullock e George Clooney.

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