Mostra SP: “Como Descrever uma Nuvem” e “Ontem Nunca Termina”

Esse final de semana iniciou em São Paulo a 37ª Mostra Internacional de Cinema. Com alguns grandes títulos inéditos (“Inside Llewin Davis” dos irmãos Coen, “O Grande Mestre” de Wong Kar Wai e “Ana Arabia” de Amos Gitai), a Mostra também conta com retrospectivas em homenagem a outros grandes diretores, como Stanley Kubrick, Eduardo Coutinho e Lav Diaz.

Fugindo do desespero e das lutas pelas sessões mais disputadas (lição que aprendi depois de perder a estreia de “O Menino e o Mundo” com direito a um debate com o diretor no final), assisti dois filmes da Perspectiva Internacional: “Como Descrever uma Nuvem” do holandês David Verbeek, e “Ontem Nunca Termina” da espanhola Isabel Coixet.

O primeiro conta a história de Liling, uma jovem que deixa seu trabalho de lado para cuidar de sua mãe que ficou cega. Além de largar sua vida como DJ em Taipei (uma grande metrópole) para ir se mudar a um pequeno vilarejo rural onde mora sua mãe, Liling também tem de lidar com a crescente espiritualidade dela que passa a crer em superstições e acredita ter ganhado um “sexto sentido” com a sua cegueira.

O filme é lindamente dirigido e conta com uma fotografia e direção de arte espetaculares. Algumas cenas fantásticas, como pessoas soltando gigantes balões de papel na praia (no que parece ser um ritual de passagem de ano), ou a sequência em que Liling passeia pelo metrô são visualmente lindas. O que só prova a habilidade do diretor ao saber “costurar” essas cenas coerentemente, já que os dois momentos não faziam parte da história: foram filmados por ele quando passeava por aí com sua câmera na mão.

Só um pouquinho diferente da estação Barrafunda.

Verbeek realiza contrastes interessantes entre a grande cidade onde mora Liling e o tranquilo vilarejo onde mora sua mãe pra demonstrar diferenças não só entre gerações, mas também entre crenças.

Em um dado momento, a protagonista observa uma cacatua pousando numa torre e depois discute com um amigo que ver essa ave cantando é sinal de alguém próximo vai morrer, ao que o amigo responde “cacatucas são animais extremamente sociáveis, os gritos dela são para que possam ser ouvidas e atrair outras da espécie. Algumas pessoas têm cacatuas em casa, mas geralmente têm elas presas em gaiolas”. Durante essa conversa, o diretor exibe alguns planos de varandas de prédios e da cidade vista ao longe, fazendo alusão de que todos nós somos iguais às aquelas cacatuas.

Essa cena, inclusive, foi reescrita para que Verbeek pudesse incluir a Cacatua (mais um exemplo de sua “costura” com fatos que lhe aconteceram na vida real).

Esse mesmo amigo, um ilustrador de capas de obras sci-fi, também mostra à Liling alguns desenhos que fez sobre uma história que está ilustrando. São seres fictícios que habitam um planeta que possuem condições de vida semelhantes a da Terra…

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… Que ela mais tarde consegue testemunhar, quando parte à procura desse amigo que sumiu. Liling vive nessa oposição entre real e imaginário e procura respostas mais substanciais. Nenhum assunto ou tema que o filme traz à tona é novo ou original, mas a forma com que o diretor conduz é bastante memorável.

Outro ponto interessante, por exemplo, é essa crescente atração pelo inexplicável. Um médico diz que Liling deve descrever as coisas ao seu redor para que sua mãe consiga reviver essas imagens por meio da sua memória. Mas ao longo do filme, ela parece perder a noção do que é real ou não. Isso sem trair a natureza low-budget do filme, de manter as proporções pequenas e verdadeiras.

Apesar de obviamente contar com referências orientais, o filme jamais cai numa situação de multi-gênero (misturar comédia, drama, terror e romance em um filme só, como ocorre com Sede de Sangue” de Chan Wook Park, ou “O Hospedeiro” de Bong Joon Ho) tão típico de filmes asiáticos. As cenas de suspense, ou as sequências em que ela discute com seu irmão sobre ter abandonado a família são honestas e não pesam no tom pastelão ou escrachado… O que já é bem diferente de “Ontem Nunca Termina”.

Isabel Coixet é uma talentosa diretora que têm grandes filmes em seu currículo como “Minha Vida Sem Mim” e o excepcional “Fatal” (indicado a Melhor Filme na seleção anual do blog em 2008), mas aqui ela erra feio.

O filme conta a história de um casal amargurado que se reúne depois de um trágico acidente familiar. O longa parece uma mistura de “Antes do Pôr-do-Sol“, mas com uma ambição do nível de “A Paixão Segundo G.H.“: ele simplesmente não funciona. O casal interpretado por Javier Cámara e Candela Peña (que também estão juntos em outro filme da Mostra “O Que os Homens Falam“) discutem sobre o que os levou a se distanciarem e como estão agora em suas vidas, mas com pequenas interrupções em preto e branco, representando o que eles estão pensando, mas não necessariamente falando. O recurso fica repetitivo depois de um tempo e, francamente, parece um shtick de Denise Fraga nos seus quadros no Fantástico.

O cenário representa bem uma hipótetica Espanha falida (apesar do país ter reagido bem à crise econômica), mas não é bem o foco do filme, que concentra o seu potencial no diálogo entre Javier e Candela, mas, como eles não possuem muita química juntos, acaba enfraquecendo bastante o filme. A melhor parte foi quando a tradução de uma das falas saiu errado e, em vez de dizer “todas as vezes que você saía…”, saiu “todas as fezes”. Único momento de aproveitamento genuíno.

Só não digo que ele é candidato a Bomba do Ano, porque a concorrência pro título tá bem acirrada (principalmente entre “As Aventuras de Tadeo” e “Hitchcock“), mas o filme já desponta como a maior decepção dessa Mostra e deve terminar como o pior filme da seleção (ano passado, o longa “L” foi o detentor dessa honraria).

Como Descrever Uma Nuvem 
How to Describe a Cloud, Holanda/Taiwan, 2013, suspense, 80 min.
De David Verbeek. Com Lu Huang, Yi Ching Lu e Pong Fong Wu.

Ontem Nunca Termina 
Ayer Termina Nunca, Espanha, 2013, drama, 108 min.
De Isabel Coixet. Com Javier Cámara e Candela Peña

E você? Conferiu algum filme da Mostra? Espera assistir quais? Nós vamos continuar nossa cobertura ao longo dessa e da próxima semana.

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