Mostra SP: Parte 02 “Confissão de Assassinato” e outros

Continuando a nossa cobertura da Mostra esse ano, continuamos com a estratégia de evitar as sessões mais procuradas e dar preferência para horários mais “vazios”. Como são muitos os filmes (e pouco o tempo, já que a Mostra vai até quinta-feira 31), vou seguir com uma estrutura mais pílula-esca:

Surpreendido com os ingressos esgotados de Miss Violence, acabei recorrendo ao policial coreano Confissão de Assassinato. Felizmente, a troca foi bem positiva, já que o considero o melhor filme da Mostra (pelo menos até agora). O longa conta a história de Choi, um detetive que nunca conseguiu desvendar a identidade de um perigoso serial killer, e a sua reação ao lançamento do livro “Confissão de Assassinato” de um desconhecido que divulga ser o autor dos crimes. O problema é que a revelação veio 15 anos depois do acontecido, quando os crimes já prescreveram e o policial nada pode fazer.

Inspirado em um artigo de jornal (em debate com os espectadores após a sessão, o diretor revelou ter se inspirado em uma notícia sobre um criminoso que matou a namorada, comeu ela e depois escreveu um livro a respeito), o roteiro é inteligente o suficiente para fazer fortes críticas aos padrões distorcidos de idolatria da sociedade de hoje, criar momentos de reviravoltas genuinamente inesperadas, sem esquecer de dosar a história com bom humor.

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Em particular, as sequências de ação são o carro-chefe do filme. Em um certo momento, há uma perseguição entre 3 carros com 4 atores pulando em cima de um carro para o outro em lutas coreografadas. É o melhor filme de ação que vejo em muito tempo (e isso não é um exagero). Perguntei para o diretor como foi filmar essas cenas e se ele fez uso de CGI ou algum outro recurso, ao que ele afirmou que 80% do que estava em cena foi de fato filmado com os atores e que teve de fazer uso de dublês aqui e ali, mas evitou o máximo (lembrando que o diretor fez curso para dublê de cinema no início de sua carreira).

Só não digo que o filme é impecável, porque há um machismo que incomoda. É sempre uma mulher quem o diretor usa como ferramenta pra expôr os valores deturpados da sociedade em venerar celebridades de moral questionável (ou como jornalistas em pautas inúteis). Mas é uma crítica pequena diante do grande quadro (ainda mais que há personagens femininas fortes e independentes no filme, então é um recurso tolerável). Essa é estreia em filmes de ficção de Jung Byung-Gil (seu anterior foi um documentário), mas já fica o aviso para mantermos atenção para suas próximas produções.

Confissão de Assassinato 
Nae-ga Sa-rinbeom-i-da, Coréia do Sul, 2013, ação, 119 min.
De Jung Byung-Gil. Com Jung Jae-Young, Park Si-Hoo e Kim Young-Ae.

Outro filme conferido é Vida que se Desfaz do canadense Sébastien Pilote. A produção é sobre o fazendeiro Gaby, um senhor pai de família, divorciado e solitário. Ele vive com seu rebanho de ovelhas e está prestes a se aposentar, até que recebe um pedido da filha mais velha para ajudá-la financeiramente. Para tanto, ele decide leiloar a fazenda, o rebanho e todo o maquinário do lugar.

O filme não acontece muito e se fosse dirigido por Lasse Hallström não seria nenhum espanto. Todos os maneirismos do diretor estão lá: vida rural, clima bucólico, poucos atores, trama sem muitas surpresas… O que não chega a ser um demérito, já que filmes do Lasse são bons filmes (apesar de formulaicos).

A fotografia é linda, em especial nas cenas que Gaby passeia com suas ovelhas enquanto o sol se põe (é tão bonita que dá origem ao cartaz do filme). O que poderia terminar na mesmice ou em um déjà vu é evitado graças à excelente atuação de Gabriel Arcand como o protagonista do filme. Honesto e sisudo, ele sabe dar o tom certo de charme pro personagem sem ficar caricato ou muito plain. Uma ótima interpretação de um filme apenas correto que arrancou palmas efusivas no final da sessão. Vamos com calma, gente.

Vida que se Desfaz 
Le Démantèlement, Canadá, 2013, drama, 110 min.
De Sébastien Pilote. Com Gabriel Arcand, Gilles Renaud e Lucie Laurier.

A Mostra também foi espaço para a estreia mundial do longa Saudade, primeiro do diretor Juan Carlos Donoso Gomez. O filme conta a história do adolescente Miguel, filho adotado que recebe uma carta da mãe biológica (que nunca conheceu) convidando-o a visitá-la nos EUA. Enquanto o menino pensa a respeito, ele passa por uma série de descobertas sexuais e pessoais.

Pareceu comum? Pois é, esse é o problema do filme: nada é muito memorável ou muito particular. O diretor, no entanto, confessou em uma sessão de debate que o filme é também uma biografia sua, já que usa como plano de fundo o período de manifestações populares contra a reforma monetária da época (que inclusive resultou no “impeachment” do então presidente Jamil Mahuad). É impossível não se identificar com alguns discursos politizados, mas isso se deve mais ao contexto atual dos protestos do MPL, Black Block, etc do que à uma proposta política abordada no longa. Um exemplo de como o zeitgeist pode beneficiar a divulgação de um filme.

O grupo de jovens está bem, mas os adultos arruinam todas as cenas que aparecem (todos parecem ser dublados o tempo inteiro e passa uma sensação de Donas de Casa Desesperadas). O saldo final é um pouco decepcionante. Faço coro com uma das entrevistadoras em um comentário nada elegante ao diretor: “para una primera película, está bueno”.

Saudade 
idem, Equador, Argentina, 2013, drama, 100 min.
De Juan Carlos Donoso Gomez. Com Pancho Baquerizo Racines, Joaquin Davila e José Luis Trujillo

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