Guillermo del Toro e os filmes de terror

Com o lançamento e estreia de Círculo de fogo em dvd/blu-ray, Guillermo del Toro já tem outro projeto em frente: Crimson Peak, protagonizado por Tom Hiddleston e Mia Wasikowska, com Jessica Chastain e Charlie Hunnam. Embora o filme seja um romance gótico, ele é também uma história sobre fantasmas, dando continuidade a preferência de Del Toro pelo sombrio e fantasioso gênero de terror.

A julgar pelo seu novo livro “Cabinet of Curiosities”, é possível esperar por futuros personagens com maquiagens exageradas e novas formulações do rosto humano/não humano. O sketchbook reúne os mais diversos rabiscos e desenhos do diretor sobre os monstros e criaturas de todos os seus filmes. Del Toro, em uma entrevista para o site io9 (que traduzo alguns trechos aqui) fala um pouco sobre o livro e sobre os filmes que produziu.

guillermodeltoro

Quando se olha para “Cabinet of Curiosities”, pode-se perceber que del Toro se esforçou em levar a imagem da face humana para pontos mais extremos, quebrando com qualquer composição normal (seja os olhos nas palmas em O labirinto do fauno, ou a boca cortada ao meio em Blade II. Perguntamos a del Toro se existe um limite para a desconstrução de um rosto, de forma a se ter ainda um rosto. Ele respondeu:

Isso é fácil e difícil ao mesmo tempo. Você pode reduzir a expressão básica até quase um pictograma, sabe? Você pode fazer uma coisa simples, como o smile, que é um círculo, dois pontos e uma curva como um sorriso, porque a mente humana — o nosso instinto mamífero — [cria] padrões onde não há. E uma dessas coisas nos ensina a ver figuras ou rostos em tudo que fazemos.

Então se você admitir isso, pode reduzir o desenho a alguns gestos e criar um rosto heróico, ou corajoso, ou valente, ou louco. E nós fizemos isso com os robôs [em Círculo de Fogo]. Nós reduzimos até uma expressão mínima, o ângulo do visor de Gipsy Danger… [Essas coisas] dizem muito sobre a personagem.

Em relação ao monstro-dos-olhos-na-mão, e o vampiro do rosto cortado ao meio, del Toro diz que “é isso que define a criação de máscaras e, portanto, a criação de monstros. No caso do monstro-dos-olhos-na-mão, as narinas já atuam como olhos, e o ângulo do rosto já suporta essa ideia, então quando as mão levantam e completam a figura, isso faz com que fique muito mais assustador”.

(alguns trechos do storyboard do filme presentes no livro)

Estes disrupturas faciais são uma parte da tentativa do del Toro de entender o que significa ser humano ao quebrar o rosto em configurações diferentes? Del Toro diz um absoluto sim:

Isso é basicamente sobre tudo o que os meus filmes são. Seja em Hellboy, ou A espinha do diabo ou O labirinto do fauno, eu sou atraído pelo horror humanista e a melhor forma de se definir o que nos torna humano é de explorar o que torna as coisas não-humanas.

(esquema de rascunho e a versão final do vampiro em Blade II)

O site pergunta sobre alguns outros projetos que del Toro tem interesse em realizar e ele acaba resumindo a maior problemática dos filmes de terror de hoje em dia: precisam ter um orçamento mínimo, pra se obter um lucro enorme. Não é surpresa pra ninguém, a logística do mercado cinematográfico sempre foi assim. Mas quando se pára pra pensar, muitos filmes de terror seguem essa regra e conseguem se sair muito bem. Alguns exemplos recentes bem-sucedidos temos Sangue negroO orfanato e Sweeney Todd em 2008, Anticristo em 2009, Sede de sangue em 2010, A casa muda em 2011, Inferno e Invasão em 2012 (com Prometheus e O Impossível como “quase” terror).

Mas o que tivemos esse ano? Quem melhor repercutiu? Tanto A morte do demônio, quanto A invocação do mal ou Uma noite de crime ganharam buzz pelas suas interessantes propostas, mas são filmes que sempre caem no gore e  violência extrema. É preciso recorrer a isso sempre?

Dentre as outras estreias, dificilmente diria que Círculo de fogo é terror… a menos que se considere como critérios uma execução tenebrosa e uma história horrível como configurações de um filme do gênero. Daí sim teremos um filme de horror.

O site io9 pergunta a del Toro porque ele ainda deseja fazer filmes de terror tendo a carreira que tem. Ele responde:

Sabe, na verdade, eu não sei. Eu sou um grande fã de filmes de terror. A essa altura, eu faço filmes que estão em um gênero bem estranho, onde crio coisas que eu gosto. Mesmo em filmes grandes como Círculo de fogo, não é definitivamente apenas um filme do verão americano [referência ao período mais lucrativo do cinema hollywoodiano] que se parece com um tradicional filme do verão, com os tradicionais momentos de filmes do verão.

Não existem muitos filmes do verão onde um gigante bebê de um monstro sai da mãe e se estrangula com o cordão umbilical. Ou onde uma pequena criança japonesa corre por aí com um sapato vermelho nas mãos.

Não acho que fui confinado pelo que faço dentro de um gênero cinematográfico. Então, sabe, eu continuo voltando atrás daquilo que me estimula. E eu acho que o que me estimula é um certo grau de terror.

Bom, mesmo que tenha decepcionado aqui e ali, del Toro ainda se mantém como o maior realizador de produções do gênero e (muito provavelmtente) aquele que tem o melhor saldo. Quero dizer , com as quantidades sucessivas de flop do Wes Craven e M. Night Shyamalan não acho que exista exatamente algum tipo de disputa entre eles.

Mais algumas artes rascunhadas pelo cineasta, presentes no livro “Cabinet of Curiosities”.

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