Investigando: Tarantino pode voltar a fazer filme ótimo?

Eu não sabia quase nada sobre The Hateful Eight exceto que seria o projeto de Tarantino que sucederia Django Livre, mas que acabou sendo descartado depois que o roteiro vazou online. Como depois de semanas após o vazamento este barraco ainda está vivo, me senti responsável a pelo menos dar uma pesquisada sobre o que o filme seria e descobri que  (decepção) era mais um faroeste.

O que teria acontecido com o Tarantino surpreendente que escolhia seus projetos a dedo em intervalos saudáveis para que pudesse realiza-los com mais capricho? Com o aniversário de dez anos de seu último filme ótimo (Kill Bill Vol. 2) e no meio de acusações de quem teria vazado o seu novo texto, o momento é oportuno para perguntar: O Tarantino consegue fazer um filme ótimo de novo? Como? É isso que veremos no Investigando de hoje.

Investigando: Tarantino

A voz mais marcante do cinema dos anos 90, Quentin Tarantino é também conhecido hoje em dia como ídolo supremo de estudantes de publicidade e dos pedantes básicos que só tem ele e Woody Allen como referência de “cinema inteligente”, mas nem sempre foi assim. Eu não tenho a articulação nem o interesse o bastante para explicar a influência que o seu cinema teve nos anos 90, e facilmente você pode achar dezenas de ensaios que esmiuçam desde as referências em suas obras até o impacto e as tendências que criou em outras.

Vamos dizer apenas que no começo dos anos 90 o cinema se dividia entre blockbusters que tentavam emular o exagero dos anos 80 e dramas de superação com aquele formato engessado que você juraria ter o dedo do Ron Howard em todo filme. Apesar do trabalho do Tarantino envolver muito mais uma colagem de elementos que ele apreciava e como ele os utilizava para refletir sobre a cultura pop, o resultado final era diferente de tudo o que existia na época, e qualquer coisa que você veja hoje em dia envolvendo metalinguagem, violência estilizada e diálogos em diners sobre o mundo pop com certeza tem um dedo dele.

Mas como estilo-pelo-estilo não faz de ninguém um mestre do cinema, o que colocou os seus filmes no status de grandes obras foram realmente boas histórias para serem contadas, e uma ansiedade energética de quem quer contar o máximo em cada filme.

Para melhor investigarmos este caso de hoje, podemos considerar então a sua fase ótima sendo todos os filmes entre a sua estreia em Cães de Aluguel e Kill Bill Vol. 2. E apenas os projetos que ele dirigiu e escreveu, nada de Um Drink no Inferno nesse meio.

Um adendo: antes que eu leve um caramelo macchiato do Starbucks na cabeça por acusar o mestre Taranta de não fazer mais filme ótimo, vamos deixar bem claro que Bastardos Inglórios é sim um filme bom e decente, mas feito muito mais pra agradar a geração que não vive sem nutella e bacon, forçando mais a barra do que a Glenn Close naquele filme que se finge de homem basicamente chorando por um Oscar, do que um sucessor digno de seus trabalhos passados. E Django Livre é uma bosta mesmo, então sinto muito se você está tomando as dores por esse.

Certo, passado o que gostamos em seus filmes, vamos ver o que o Tarantino deve ou não fazer para conseguir filmar um filme ótimo no futuro, usando como exemplo suas obras não tão boas.

Sugestão nº 01: Chega de filmes de gênero

Um dos maiores prazeres de ver um filme antigo do Tarantino é reparar como as influências de seus clássicos preferidos casavam com a história e expunham a sua habilidade de justificar a introdução da homenagem sem parecer um filme B desleixado. Eram pequenas pérolas jogadas em determinados momentos, como Kill Bill 2 emulando um western mas sem chegar a ter Uma Thurman vestida de vaqueira. Como nada nessa vida dura, o Tarantino perdeu a mão e começou a usar as ambientações de seus filmes como gimmicks para chamar a atenção para seus novos projetos. Muito se ouvia “o próximo filme do Tarantino é um terror exploitation, ou filme de guerra exploitation, ou escravidão western exploitation”.

“Ah, mas Kill Bill Vol. 1 não era exatamente isso e foi considerado um dos filmes ótimos?”- perguntará o leitor ávido por respostas. Sim, você está certo, e talvez tenha sido o próprio sucesso crítico e comercial de Kill Bill (sua maior bilheteria até então) que o motivou a seguir nesta linha de atenuação do seu estilo pessoal na busca de expandir o público e de algum jeito ainda ganhando Oscars no caminho. Ou vai dizer que Django ser vencedor de Oscar e a maior bilheteria da filmografia de Tarantino é um fato super coerente e esperado?

Sugestão nº 02: Coloque uma mulher como protagonista

Não é novidade alguma que nós do Anfitrião adoramos levantar bandeira pra mais mulheres trabalhando no cinema, mas nós realmente achamos que o Tarantino trabalha melhor quando tem algum tipo de musa como inspiração.

Não precisa ser Uma Thurman de novo, mas desde À Prova de Morte que não temos garotas estrelando seus filmes (apesar de tecnicamente a parte Tarantinesca de Grindhouse ser estrelada na verdade pelo Kurt Russel). A Shoshanna é realmente um personagem memorável dentro do filme e junto do Christoph Waltz a melhor coisa de Bastardos Inglórios, mas a sua participação é decididamente mais coadjuvante do que gostaríamos.

Vamos fazer um teste simples. Imagine se em Django Livre tivéssemos a Kerry Washington sendo a escrava liberta que tenta salvar o seu homem do Leonardo DiCaprio. Agora me diz se o filme não ficou insanamente melhor na sua cabeça depois disso?

Sugestão nº 03: Novos tempos, novas regras

Muito se disse neste texto sobre como o Tarantino foi a voz mais influente dos anos 90, mas o que podemos afirmar dos seus trabalhos atuais? Para mim não é coincidência que desde Kill Bill ele não tenha feito nenhum filme que se passe na atualidade (e nem pretendia, visto que o fatídico The Hateful Eight tinha oito homens estrelando um western – simultaneamente ignorando as nossas três dicas). Suas inspirações são filmes antigos, e acredito que é o tempo em que ele fica mais confortável para situar suas histórias.

Contudo, precisamos lembrar que apesar de muitos dos candidatos a Tarantino terem perecido ao longo dos anos, alguns tem construído uma filmografia sólida e podem fazer com que ele corra atrás do prejuízo. Tomemos um Edgar Wright por exemplo. Seu trabalho em Scott Pilgrim é verborrágico, pulsante e interligado com tecnologia e juventude de um jeito que nenhum filme do Tarantino chegou perto neste milênio. A princípio você pode achar a comparação meio descabida, mas o seu trabalho na excelente trilogia do Cornetto não é exatamente o que o Tarantino faz ao tentar reinventar gêneros e colocar a sua marca pessoal neles?

Sugestão nº 04: Pense mais no filme e menos em você

Por que pior do que assistir Star Trek – Além da Esuridão com a disputa de ver quem fala mais alto que conhece o Benedict Cumberbatch de Sherlock é ao fim de Django ver o nosso diretor se escalando como figurante com fala sem motivo nenhum só pra ver quantos do público médio já reconhecem o seu rosto. Você é melhor que isso, Quentin.

Conclusão: Eu gosto de imaginar o Tarantino chegando com uma reinvenção de sua filmografia, mas tem como argumentar contra Oscars e dinheiro? Achei que não. E que venha Kill Bill 3 pra acalentar os fãs que realmente acham que isso é uma boa ideia.

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3 comentários

  1. Acho a filmografia completa dele ótima…Django foram quase três horas que nem senti, até minha mãe gostou, death proof é pop, cheio de reviravoltas e final fodastico, Bastardos Inglórios é mto bom, os diálogos prendem atenção…a trilha sonora sempre bem escolhida, os filmes nascem cult. É uma marca dele aparecer em pontas nos filmes, bom ler o contraditório, mas o cara é bom mesmo, chato criticar só pra ser do contra, constrangedor.

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