Ranking: Indicados ao Oscar 2014

Pela primeira vez desde que comecei a acompanhar religiosamente o Oscar em 2001, me propus a assistir todos os indicados a melhor filme, e embora seja de grande valor descobrir bons filmes que você por si próprio não iria atrás, todos nós sabemos que o intuito maior de tal esforço é poder quebrar aquele conhecido na mesa de bar que defende o filme mais pedante e te questiona “mas se você nem viu, como quer falar mal?”

Bom pedantes, se segurem porque o trabalho está feito, e que jeito melhor melhor de aquecer os motores pro Oscar listando (por critérios extremamente pessoais, mas coerentes) do pior para o melhor cada um deles?

Ranking Oscar 2014

O Lobo de Wall Street

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Garantindo a pior colocação no meu ranking (como previsto no meu post sobre os filmes mais insuportáveis do Oscar), O Lobo de Wall Street conseguiu a honra de ser o único dos nove indicados deste ano que eu não aguentei assistir até o fim. Absurdamente longo (eu larguei com uma hora e ainda tinha mais duas pro filme terminar), incrivelmente repetitivo e verborrágico ao nível de exaustão, O Lobo de Wall Street alcançou também a proeza de usar um tema do que eu imagino que seja o dia a dia na vida da Rihanna e mesmo assim ser entediante. Talvez a falta de fortes personagens femininos, ou talvez qualquer personagem que não seja um homem branco sem moral seja um fator determinante pra falta de identificação que eu tive com o filme, mas aparentemente desejar o oposto é pedir pro Scorsese colocar na tela um tipo de gente que ele pelo jeito não conhece. Talvez quando ele voltar com A Cougar de Park Avenue eu me interesse mais.

Trapaça

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Produto mais recente de David O. Russel, dono da carreira mais superestimada que eu já pude conhecer, Trapaça é um filme de roubo que funciona melhor quando deixa de lado a sua história principal para se focar em Amy Adams sendo encoxada na balada e Jennifer Lawrence caindo de bêbada num jantar. Mas olha, se eu quisesse assistir algo só por causa de perucas mal colocadas eu faria uma maratona de America’s Next Top Model recente só pra ver o quanto a Tyra precisou cortar custos hoje em dia, e não aturar mais de duas horas de Bradley Cooper num overacting alucinado e muita Amy Adams recebendo os elogios da vida só porque pela primeira vez não tá fazendo papel de sonsa.  E J-Law, eu te amo, mas se você roubar o Oscar da Lupita Nyong’o (ou até da June Squibb) com essa performance miscasted nesse filme aqui, nossa relação ficará abalada.

Capitão Phillips

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Capitão Phillips é a prova definitiva de que o Paul Greengrass não só é o único cineasta mainstream a fazer de shaky cam um recurso justificável como também é um dos mais habilidosos diretores de ação que temos no cinema atual. Mas apesar de excelentemente filmado e mais divertido de ver do que muitos dos indicados, Capitão Phillips é também um tanto quanto simples em sua proposta, e nunca consegue convencer na tentativa de dar peso e voz para o lado dos piratas somalianos. Tal simplicidade de tema se comparado aos outros competidores, aliado ao fato de que o filme poderia perder tranquilamente uns 15 minutos em sua metade final fazem com que o filme apareça aqui pelo final da lista. E gente, relaxem sobre a cena final com o Tom Hanks, o hype em cima disso é tão grande que você acha até que vai ver o Daniel Day-Lewis gritando que bebe o seu milk-shake no final de Sangue Negro quando na verdade tá mais pra uma versão mais longa e triste da cena final do Will Smith em À Procura da Felicidade.

Dallas Buyers Club

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Vendido como um daqueles “filmes de atuação do Oscar”, Dallas Buyers Club depende tanto do Matthew McConaughey para escapar do que por vezes flerta com biografia convencional hollywoodiana quanto Blue Jasmine só entra pro lado dos filmes bom do Woody Allen graças a atuação da Cate Blanchett.  Além do ápice de uma carreira que nós últimos anos só teve escolhas acertadas, o filme surpreende acima de tudo por lembrar que o Jared Leto antes de tentar destruir o mundo da música por dentro com a sua banda horrível começou a carreira como ator e que, se bem dirigido como é o caso aqui, pode ser até um muito bom.

Nebraska

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Partindo de um conceito absurdo que mais parece uma justificativa exótica para um road movie de reconciliação (pai alcoólatra acha que ganhou um milhão em um anúncio de revista), Nebraska se revela um dos poucos projetos direcionados para um público maduro trazendo a questão se em algum momento da vida somos recompensados por todos os percalços e problemas que precisamos enfrentar. Embora eu não goste de avaliar filmes por um ângulo pessoal demais (como pessoas que gostam de filmes de câncer só porque conhecem alguém que teve câncer), por ter vivenciado alcoolismo de perto com membros da família, cenas como o Will Forte tentando fazer com que o seu pai assuma o vício que tem me atingiram um pouco mais próximo do que eu esperava. Além disso, o excepcional trio de protagonistas lidando com seus problemas de um jeito sem glamour e dramatismos vazios (toma essa, Álbum de Família) junto do que pra mim foi um dos atos finais mais simplisticamente recompensadores que eu vi recentemente transformam Nebraska em um filme maior e mais importante do que suas pretensões.

Philomena

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A segunda presença no ranking de filmes com temática “idoso procurando por algo perdido”, Philomena é assumidamente um feel-good movie (se é que a história de uma senhora que teve seu filho arrancado de si pela igreja católica pode ser considerado feel-good), e um espaço para a interação perfeita entre o escritor-estrela Steve Coogan e Judi Dench, que em uma atuação poderosa e sem afetações relembra que não foi nomeada dama sem motivo. Embora a direção costumeiramente engessada de Stephen Frears não quebra aquela sensação de piloto-automático, a adição de elementos não muito comuns (a crítica à igreja, a liberdade da Philomena em falar de sexo) em um filme que tinha tudo pra ser demasiadamente açucarado tiram a cara de feito nos moldes pro Oscar. E francamente, é refrescante ver um filme que mira em um público tão idoso (na minha sessão no Estação Botafogo, o mais novo depois de mim tinha pelo menos 60 anos) ter os culhões de lidar com homossexualidade  de um jeito tão carinhoso e dizer o quanto a igreja católica pode ser filha da puta.

12 Anos de Escravidão

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É um desafio assistir 12 Anos de Escravidão sem agarrar e torcer o braço da cadeira de nervoso em muitas cenas do filme,  e se em alguns momentos fica a dúvida de até que ponto o roteiro que retrata uma desgraça histórica passa do limite e cai no buraco de virar exploitation, também não ajuda o fato de que por vezes a narração priorize o sofrimento do Solomon em relação aos outros escravos por ele ser oficialmente um cidadão livre, ao contrário dos outros. Contudo, é inegável o talento de Steve McQueen em segurar as rédeas por trás das câmeras do que poderia facilmente se tornar um melodrama apelativo e formulaico. O par de protagonistas Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o são duas das maiores promessas a surgir em filme nos últimos anos, e se o filme não é a obra definitiva retratando o sofrimento desse período histórico tão abominável, nós pelo menos podemos torcer para que  estes excelentes atores, agora em 2014, possam ter ao menos a chance de mudar um pouco a indústria e  trabalhar mais e mais ao longo dos próximos anos.

Ela

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Alguns filmes entendem tão bem o tempo em que vivemos, até melhor do que nós mesmos, que acabam virando o símbolo de uma época. Eu acredito que Ela é um deles, e se cada vez mais pessoas acabarem chegando ao filme, melhor poderemos entender e refletir sobre como vemos tecnologia e como nos relacionamos com ela. E parabéns para a Scarlett Johansson que não só cada vez melhora enquanto interprete, mas que conseguiu entregar a melhor performance de sua carreira utilizando apenas a sua voz, e sendo um fator primordial para que consigamos aceitar o Joaquin Phoenix se apaixonando pelo seu sistema operacional. Falando nele, vale lembrar que mesmo atuando com o silêncio durante o filme todo, seu retrato de um homem recluso e desiludido não só é um auge em uma carreira já memorável, mas é um trabalho que tem tudo para resistir ao tempo.

Gravidade

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No momento que eu terminei de ver Ela pela primeira vez eu fiquei incerto se eu tinha acabado de ver o filme que desbancaria Gravidade como o melhor indicado ao Oscar, e embora tenha chegado bem perto, ou até mesmo eu mude minha opinião daqui algum tempo, o segundo ganhou a dianteira por algo que eu prezo muito e pra mim é um dos motivos da existência do cinema: o espetáculo. Desde que o público fugiu achando que seria atingido pelo trem na sessão dos irmãos Lumiére, a nossa relação com o cinema foi algo muito mais abrangente do que apenas o campo das ideias. É visual, é físico, é colocar na tela o que não imaginamos ser possível de ver, mas que mesmo assim sonhamos ser alcançável de transportar para fora da imaginação. Gravidade é uma montanha russa de sensações e aflições, é abrir a boca em êxtase como quando criança vimos pela primeira vez o T-Rex correr na chuva em Jurassic Park. É tudo o que o cinema pode fazer, feito de um jeito que deveria acontecer mais vezes.

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