Cinco carreiras de atrizes que Lupita Nyong’O não deveria seguir

Todos nós conhecemos a história de cor e salteado. Garota estreante chama a atenção de público e crítica em um papel marcante e de repente vira a it girl do momento, aparecendo em capas de revistas, especulando-se sobre quem ela estaria namorando e quais serão os seus projetos futuros. Se ela é uma garota branca (atriz mirim não conta), é o começo de uma linda carreira.

Aproveitando a ascensão magistral de Lupita Nyong’O, recém-vitoriosa no Oscar por 12 Anos de Escravidão e coroada pela internet revelação do ano e ícone fashion, vamos tomar como exemplo cinco atrizes que um dia foram grandes promessas, relembrar o que infelizmente acontece quando você é uma it girl saída de uma minoria, e torcer para que a Lupita consiga quebrar esse destino injusto.

lupita

De origem queniana, mas nascida no México por um acaso político envolvendo seus pais, Lupita Nyong’O é uma estreante no cinema mesmo no alto de seus 30 anos, o que para padrões Hollywoodianos é quase como a chance final. Embora 12 Anos de Escravidão seja o seu primeiro trabalho no cinema, Lupita já possui uma experiência cinematográfica tanto acadêmica quanto trabalhando por trás das câmeras em diversos projetos, dentre eles, a estreia internacional de Fernando Meirelles em O Jardineiro Fiel. Tendo vencido o Oscar por seu papel de estreia no cinema, Lupita é a primeira atriz a conseguir tal feito desde o ano de 2007 quando Jennifer Hudson foi premiada por Dreamgirls (e que será citada novamente nesta lista).

Com todos esses fatores citados, Lupita parece direcionada a ter uma carreira empolgante e duradoura, que faria qualquer ator se sentir no topo do mundo se estivesse em sua posição. Mas por que então não conseguimos deixar de lado a sensação de que por algum motivo esse show não vai durar? Que a Lupita deveria aproveitar o quanto pode e já agendar o maior número de projetos possíveis para continuar trabalhando ao longo do ano?

A resposta não é só porque o meu pessimismo usual rompeu a barreira da minha vida pessoal e agora afeta o jeito como eu vejo cinema, e sim porque a cultura pop nos revela em fatos que, apesar da dificuldade de oferta para atrizes negras que não sejam Zoe Saldana não ser surpresa para ninguém a essa altura do campeonato, Hollywood ainda prefere investir esforço e dinheiro em atrizes como Amber Heard, Brooklyn Decker, Rosie Huntington-Whitely e Julianne Hough (essa última até topou ser a beard do Ryan Seacrest, pelo amor de deus), do que apoiar uma atriz realmente talentosa, mas que não seja branca. Vamos aos exemplos:

Q’Orianka Kilcher

Q'Orianka Kilcher

Ficou famosa por: O Novo Mundo, que estrelou aos 14 anos.

Trabalho mais recente: Muita série de TV desconhecida e um filme chamado The Power of Few, que segundo o Rotten Tomatoes deu 30 mil dólares de bilheteria.

O que deu de errado: De todas as minorias que esporadicamente vemos representadas em filmes, indígenas é com certeza uma das menos representadas na tela. Sem surpresas, quando algum ator dessa etnia é escalado para um papel ele com certeza será um personagem de época e que, antes de ser uma pessoa, é uma raça (isso quando a abordagem Vogue da coisa não acontece e eles só jogam um balde de curry numa modelo branca pra deixá-la mais terracota).

Estreando como Pocahontas em O Novo Mundo, Q’Orianka arrancou elogios de crítica, virou alvo de obsessão do público mais hype por ser nova, magra e “exótica”, mas nunca conseguiu ganhar um papel de relevância depois disso. Q’Orianka dividiu a sua já pequena carreira com ativismo ecológico, sendo até presa na frente da casa branca em 2010 por protestar contra o encontro de Obama com o presidente peruano Alan García (e se isso não é base pra um personagem digno de Oscar, eu não sei o que é).

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Contudo, é notável o círculo vicioso perverso ao qual um ator étnico é submetido. Muitos deles só ganham reconhecimento em filmes onde o sofrimento do seu povo é retratado. São aclamados por suas atuações, o filme ganha importância por uma sensação de reparação histórica, e depois o ator cai num limbo por não conseguir interpretar nada que vá além de um escravo, um índio ou um imigrante. Até que surge uma nova atriz e a cobra morda o próprio rabo. Infelizmente pode ser tarde demais para um comeback da Q’Orianka (que até tentou um papel em Crepúsculo, mas não deu certo), mas esperamos que a Lupita ainda tenha tempo para burlar essas concepções.

America Ferrera

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Ficou famosa por: Ugly Betty, por onde ganhou prêmios no SAG, Globo de Ouro e Emmy.

Trabalho mais recente: Chávez, estreia na direção do ator Diego Luna (que você talvez conheça por E Sua Mãe Também ou por The One That Got Away da Katy Perry, onde foi creditado como “Namorado artista”).

O que deu de errado: Na verdade, vamos começar pelo que deu certo pra America, que, em 2007, não só foi nomeada pela Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, como também foi a primeira latina a ganhar um Emmy por Atriz de Comédia. Ugly Betty foi a série de maior sucesso entre as estreantes em 2006 e talvez a comédia de maior sucesso da ABC em seus anos iniciais.

Dito isso, America pode não ter sido estigmatizada em um papel de latina atravessando a fronteira, mas seu estrelato em uma série que já tinha feia no nome apontava que o maior problema para a sua carreira seria a sua aparência, e especialmente o seu peso (que vamos combinar, só pode ser descrito como o de uma pessoa real, e nem próximo de acima do peso). Um dos maiores estereótipos para uma mulher latina é ser considerada uma bombshell fogosa de sotaque forte, tendo como maiores exemplos Sofia Vergara, Penélope Cruz e Salma Hayek, e o recente relatório divulgado pelo Women’s Media Center revela que além de mulheres ficarem mais frequentemente nuas em filmes do que homens, mulheres latinas estão bem mais na frente do que as brancas em relação ao número de nudez na tela.

America Ferrera apresenta sua latinidade já em seu nome e, por mais que Ugly Betty deliberadamente explorasse a feiura de sua personagem na série, ela também dava espaço para que a Betty fosse, além de uma mulher latina, uma pessoa comum tentando crescer profissionalmente do jeito que é. Coisa que os papéis em Hollywood geralmente não estão interessados.

Jennifer Hudson

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Ficou famosa por: Sexto lugar em American Idol, Oscar por Dreamgirls

Trabalho mais recente: Black Nativity, atualmente com 48% no Rotten Tomatoes

Jennifer Hudson talvez seja a que mais se aproxime de Lupita Nyong’O entre as atrizes que estamos analisando. Ambas estrearam no cinema arrebatando quase todos os prêmios na categoria de Atriz Coadjuvante, ganharam o Oscar por um filme com elenco majoritariamente negro (embora 12 Anos de Escravidão tenha saído vitorioso na categoria de Melhor Filme) e estavam em basicamente todos os lugares durante a maratona de premiações.

O que me deixa apreensivo na comparação entre as duas é que a Jennifer mesmo tendo estreado em um papel menos clichê e com uma carreira promissora no mercado musical conseguiu ter como evento mais marcante em seu pós-show o seu grande emagrecimento e ser porta voz dos vigilantes do peso (e isso não faz nem uma década depois de um Oscar, minha gente). Claro, talvez suas escolhas não tenham sido tão acertadas, como fazer um personagem no filme de Sex and the City que é um estereótipo ambulante que está praticamente cantando as suas falas, mas pelo menos ela estava em um filme cuja bilheteria mundial foi de 415 milhões. Definitivamente foi uma das que mais tentou manter a carreira acesa e é uma pena que tenha sucumbido.

Gabourey Sidibe

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Ficou famosa por: Preciosa, filme que eu acredito ter mais ajudado bullies a ter um apelido para meninas gordas e negras do que ter contado uma história inspiradora.

Trabalho mais recente: Dizer que um personagem em uma série do Ryan Murphy é sem pé-nem-cabeça é no mínimo um pleonasmo, mas sua aparição em American Horror Story, apesar de divertida, estava longe de requerer qualquer habilidade de atuação.

O que deu errado: Realmente precisamos dizer? O único modo que o público aceita uma atriz do tamanho da Gabourey é se ela for feita de espuma e vestida pelo Martin Lawrence ou Tyler Perry em uma comédia de peidos. Não que eu goste de Preciosa enquanto filme, pra mim é um amontoado de tragédias em um mesmo personagem que na verdade não está contando a história de ninguém real, e sim vendo até que ponto se pode apelar pra vender um filme pro Oscar, mas a Gabourey teve uma estreia tão marcante e um trabalho tão cheio de alma que justificava aquela bagunça de filme. Não ganhou um Oscar pelo papel, ao contrário de sua companheira de cena Mo’Nique (outra que poderia estar nessa lista, se ao menos ela tivesse tentado fazer um filme na sequência), mas mesmo tendo trabalhado em Roubo Nas Alturas, com Eddie Murphy e Ben Stiller, e participado de American Horror Story, ela ainda é conhecida como Preciosa.

Quvenzhané Wallis

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Ficou famosa por: Ser a mais jovem indicada ao Oscar de melhor atriz por Indomável Sonhadora

Trabalho mais recente: 12 Anos de Escravidão, e se você viu o filme e nem sabia que ela estava nele, bem-vindo ao clube.

O que deu errado: Eu sei que ainda é muito cedo pra acusar uma carreira que começou em 2012 de ter dado errado, mas não está demorando um tempão pra vermos a Quvenzhané associada a um papel que não seja esse Annie que demorou uma eternidade pra filmar (e cujo trailer lançado ontem é horroroso)? Sim, ela esteve em 12 Anos de Escravidão em um papel sem falas e que eu nem reconheci quando vi, mesmo adorando a garota. Apesar de atrizes mirins que foram indicadas ao Oscar geralmente terem uma carreira turbulenta (vide Hailee Steinfeld, que só voltou aos filmes ano passado após ter estreado em Bravura Indômita em 2010), tomemos Abigail Breslin por exemplo. Após ser indicada ao Oscar de coadjuvante por Pequena Miss Sunshine, nos dois anos seguintes (que é o tempo que se passou desde Indomável Sonhadora), ela atuou em seis filmes dos mais diferentes gêneros. É esperar pra ver se a Quvenzhané está apostando mais em qualidade do que quantidade, mas números nós temos o bastante para provarmos que temos motivos para estarmos alertas.

Lupita Nyong’O é uma atriz talentosa, linda e uma pessoa carismática que queremos ver dar certo. Neste fim de semana ela pode ser vista no cinema em Sem Escalas, outro veículo para a ação geriátrica de Liam Neeson, e onde ela não possui mais de cinco falas. É torcer para que ela consiga aliar o seu talento em projetos que lhe deem espaço para atuar, mas também conseguir projetos mais comerciais para que tenhamos um rosto como o seu inspirando o maior número de pessoas possíveis. Vamos lá, Lupita, vamos fazer essas loiras indistinguíveis trabalhar pelo dinheiro delas pra variar.

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6 comentários

  1. Q Wallis estava em 12 Anos de Escravidão? Aonde, minha gente?! Eu acho que o caso da Lupita é bem diferente. Eu não conheço muito bem a história da Q Kilcher, mas Lupita é magra e linda e isso já a coloca anos-luz de distância de America Ferrera (o melhor nome próprio que já vi) eJennifer Hudson. Não que eu ache as duas feias (eu pessoalmente acho a America LINDA), mas elas fogem do padrão Hollywood de beleza. Lupita parece que saiu das páginas de uma revista, além de ser extremamente exótica, e isso conta bastante. Resta torcer pra que o agente da Lupita seja tão eficiente quanto o seu estilista. #lupitasnlhost

  2. Calmaí, jovem! Antes de participar de AHS, a Gabourey Sidibe participou das quatro temporadas de “The Big C” e seu papel teve uma trajetória bem interessante.

    1. É verdade, Silas, mas The Big C nunca foi uma série muito grande de audiência (nunca assisti, então não posso opinar sobre qualidade), mas não é a trajetória comum para uma indicada ao Oscar se enfiar em uma série que tem um público pequeno.

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