Rooney Mara escalada como índia (e outras contratações racistas)

Essa semana Warner Bros divulgou a contratação de Rooney Mara, indicada ao Oscar pela sua atuação como Lisbeth Salander em Os Homens que Não Amavam as Mulheres, para o novo filme do Peter Pan que o estúdio está produzindo. Em vez de adaptar novamente a mesma história que já foi contada inúmeras vezes (o desenho animado em 1953, a versão live action em 2003, e a biografia romantizada do autor em 2004), o estúdio planeja contar uma versão diferente: mudar o foco de Wendy e seus irmãos e contar como Peter Pan surgiu. Ambientado na 2ª Guerra Mundial, o filme planeja contar a história de um órfão chamado Peter e como ele foi sequestrado e levado até a Terra do Nunca, onde deveria proteger o lugar e enfrentar o pirata Barba Negra.

Parece interessante, certo? Entretanto, o que realmente chamou a atenção das pessoas foi o papel para o qual Rooney foi escalada: o da índia Tiger Lily (na adaptação em português, Tigrinha). Rooney Mara como índia? Mas como assim?

Já antecipando uma provável onda de reprovações, o estúdio surgiu com esse anúncio abaixo:

“The world being created is multi-racial/international – and a very different character than previously imagined.

The studio took on an exhaustive search in finding the right girl to play Lily looking at other actresses such as Lupita Nyonog’o and Blue is the Warmest Color thesp Adele Exarchopoulos before going out to Mara for the role”

Multi-racial? Mas quem está mesmo no elenco? Hugh Jackman (um homem branco), Garret Hedlund (um homem branco) e Rooney Mara (uma mulher branca). Realmente, uma explosão de diversidade. Alguém deveria dizer aos executivos da Warner que não basta você dizer “Bem, nós consideramos Lupita e Adele também” como justificativa que automaticamente torna o filme livre de rotulações racistas. Ainda mais quando você ignora os poucos papéis étnicos e os oferece a uma maioria branca.

O mais frustrante é que contratações como essa são muito mais frequentes e pouco discutidas, enquanto que casos como o de Michael B Jordan viram verdadeiras polêmicas. O ator, contratado para interpretar o Johnny Storm (vulgo Tocha Humana) na nova franquia do Quarteto Fantástico, sofreu um terrível backlash dos fãs: “Ele não é negro nos quadrinhos”, “Ele é irmão da Sue, isso significa que ela será negra também?”, “Eles vão alterar a história da série para justificar a escolha?”. Para todas essas reclamações: vocês sabem que pessoas com super-poderes não existem, certo?

Rooney Mara escalada como índia

Há tão poucos papéis com identidades étnicas e raciais diversificadas (principalmente no cinema mainstream) que a tendência da indústria cinematográfica deveria ser mais inclusiva a fim de expandir a quantidade desses personagens. O movimento deveria ser como o dos produtores de Quarteto Fantástico, não como os de Peter Pan. Não faz muito tempo, o Victor escreveu aqui no Anfitrião o texto “Cinco carreiras de atrizes que Lupita Nyong’O não deveria seguir” alertando sobre a falta de papéis para atrizes negras na Hollywood atual. E em duas semanas vemos uma branca contratada para interpretar uma nativa. O retrato não parece ter mudado nem um pouco…

Infelizmente, como em todos os setores da nossa sociedade, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Pra exemplificar, fomos atrás dos casos mais recentes de polêmicas envolvendo contratações de atores brancos para representar personagens étnicos.

Johnny Depp como Tonto de O Cavaleiro Solitário

Rooney Mara não é uma má atriz, muito pelo contrário. Ela já foi indicada para o Oscar em seu primeiro filme high profile e é uma das promessas da nova geração de atrizes. É muito provável que a escolha da atriz para interpretar Tigrinha se deva muito ao nome que ela tem e ao fator chamariz de poder atrair seus fãs e pessoas interessadas em seu trabalho. Em uma escala internacionalmente maior, podemos dizer que Johnny Depp se encaixa em posição semelhante.

No entanto, podem encontrar uma desculpa torta para justificar a contratação de Rooney. “Ah, mas ela é uma nativa da Terra do Nunca. Ela é uma personagem ficcional de um lugar que não existe, que foi inventado. Portanto, os limites que cercam aquilo que denota ela ser uma índia são borrados demais pra que ela possa ser de fato… bem… uma índia” (acredite, muitas pessoas pensam assim).

Por outro lado, Tonto está “preso” às amarras de uma representação mais fiel e menos fantasiosa do universo nativo. Por mais estereotipada que seja a sua interpretação no filme, o protagonista de O Cavaleiro Solitário foi o papel indígena com maior visibilidade que Hollywood ofereceu nos últimos 20 anos e quem conseguiu? Um homem branco. Como já foi dito, mais do que ser um homem branco, a escolha por Depp foi baseada no seu apelo (o que não quer dizer muita coisa, pois ele só conseguiu o status atual de movie star justamente graças às oportunidades que conseguiu ao atuar em grandes filmes por ser um homem branco. É um ciclo vicioso). Mas não deixa de ser frustrante saber que tantos outros atores foram facilmente descartados, mesmo sendo membros de famílias e tribos indígenas.

Enquanto muitos criticam que é ofensivo dizer que “atores indígenas deveriam interpretar personagens indígenas”, a verdadeira ofensa é dizer que eles não deveriam interpretar esses mesmos personagens. O fato de serem estereotipados e rasos deveria ser um alerta para que não tenhamos mais personagens que fumam e cantem músicas explicando por que têm peles vermelhas.

O papel poderia ter ido para… Além do filme ter sido a maior bomba do ano passado, o longa também deu sequência a uma das parcerias mais desgastadas da indústria atual. No entanto, teria sido interessante ver um nativo como Adam Beach, de A Conquista da Honra e Cowboys & Aliens, dando vida para o personagem. Ele não salvaria o filme do fracasso, mas pelo menos traria um pouco de dignidade.

Benedict Cumberbatch como Khan de Star Trek – Além da Escuridão

Khan é o maior vilão da série Star Trek e votado como um dos maiores da indústria do entretenimento pela Online Film Critics Society. O personagem participou do 22º episódio da primeira temporada do programa em 1967 e depois retornou para protagonizar um filme só seu: Star Trek II: A Fúria de Khan em 1982.

Nas duas aparições o personagem foi interpretado pelo mesmo ator, o mexicano indicado ao Tony, Ricardo Montalbán. Na história, Khan pertence a um grupo de seres superiores, geneticamente criados para serem soldados perfeitos. Os soldados acabaram se tornando conquistadores e Khan, em particular, foi um grande ditador que governou um quarto do planeta.

Inicialmente, Khan seria um personagem de origens nórdicas e no rascunho final acabou se tornando descendente de indianos. Ok, que já é estranho termos um mexicano interpretando o papel de um indiano, mas porque entregá-lo a um branco britânico qualquer? O sotaque e a aparência de Khan era o que diferenciava do restante do elenco, porque agora, onde supostamente deveríamos ser mais receptivos a outras culturas, ignorar essa decisão de quase 50 anos atrás?

Termos um indiano (ou latino, como o ator que deu origem ao personagem) representando uma raça superior a qualquer humano, já era algo bem especial. Ainda mais no contexto político da época, em que a Guerra Fria trazia um sentimento de paranoia e perseguição muito fortes (e a Guerra do Vietnã tomava contornos sombrios e cruéis com as batalhas diretas entre soldados). Um personagem não-americano assumidamente mais inteligente e mais forte que o restante dos tripulantes protagonistas foi uma escolha bastante corajosa e como a franquia atual decide homenagear isso? Simplesmente fingindo que nada aconteceu e embraquecendo a etnia do personagem.

O papel poderia ter ido para… Se ele era inicialmente um indiano então vamos representá-lo como ele é. Nada de culturas “próximas”. Nada de latino, mas um indiano mesmo. Como o filme de 2013 foi dirigido por J. J. Abraams, que tal então Naveen Andrews de Lost? Ator de descendência indiana assim como Khan. Ou se a intenção é de alguém mais regal e dono de uma atitude vilanesca, que tal então Irrfan Khan de As Aventuras de Pi e O Espetacular Homem Aranha? Atores indianos é o que não falta. Até Dev Patel abriria uma janelinha pra gravar umas cenas…

Todo o elenco de O Último Mestre do Ar

Já que estamos falando de Dev Patel, não dá para deixar O Último Mestre do Ar de fora. O longa é uma refilmagem da série animada Avatar – A Lenda de Aang que conta a trajetória do jovem Aang que descobre ser um salvador e deve proteger o mundo, numa trama que é um misto de artes marciais e poderes elementais. Ok, dito isso podemos começar a listar os erros do filme. Em primeiro, claro, o fato dele ter sido dirigido pelo M. Night Shyamalan. Já começou errado a partir daí.

Segundo, o casting definido para representar os protagonistas. Assim que divulgaram o elenco principal, a produção recebeu duras críticas do público quanto ao whitewashing do elenco. Aaang, Katara, Sokka e Zuko são todos personagens étnicos (no desenho). No entanto, (no filme) todos seriam interpretados por atores brancos.

Alguns ainda podem defender a decisão sob o argumento de que não existem etnias no universo do desenho, já que as nações do mundo são divididas entre Tribo da Água, Reino da Terra, Nação do Fogo e Nômades do Ar. Ou seja, nada de orientais, negros, indígenas… No universo de Avatar, as etnias não se dão nessa forma.

Ok, mas a inspiração para a criação dos personagens veio de algum lugar, certo? Os integrantes da Tribo da Água são inspirados nas tribos indígenas Inuítes. E, embora no desenho tudo vire um caldeirão cultural (como por exemplo, mesmo sendo baseado em esquimós, o Soka usa um bumerangue tipo aborígena e a própria cidade da Tribo da Água do Norte é baseada em Veneza), não há como negar que há uma certa “base étnica” durante a concepção dos personagens e criação dos traços do desenho que é completamente anulada quando passado pro filme.

O Príncipe Zuko, supostamente um chinês (já que a Nação do Fogo é baseada na China antiga) seria interpretado por Jesse McCartney, um novaiorquino. Realmente, tudo a ver (E acho que o fato do maior sucesso dele foi ter composto Bleeding Love, o hit de Leona Lewis, já deveria ser um indicativo da carreira do garoto). Algumas semanas depois, Shyamalan voltou atrás na decisão e anunciou que por “incompatibilidade na agenda”, o ator foi substituído pelo indiano Dev Patel de Quem Quer Ser um Milionário?. Melhorou um pouco no sentido de que continua sendo um personagem étnico no fim das contas. Mas em que mundo um ator indiano consegue um papel para um personagem chinês?

O papel poderia ter ido para… Sinceramente? Teríamos que mudar o elenco dos quatro atores principais e o número de combinações é infinito. Sem contar que nenhum dos quatro é verdadeiramente famoso, então as chances de abrir audições para anônimos a fim de encontrar alguma revelação não seria uma decisão tão absurda (Ei, Daniel Radcliff e Emma Watson começaram assim).

As mulheres de Memórias de uma Gueixa

Ainda no assunto de ofender culturas alheias, vale mencionar Memórias de uma Gueixa. O longa, dirigido por Rob Marshall tinha a intenção de ser um grande e emocionante épico inspirado no romance de mesmo nome sobre… as memórias de uma gueixa. Qual foi o problema então? Escolher atrizes de diferentes nacionalidades para interpretar japonesas.

Ok, que isso não foi o único motivo para o filme ter sido um fracasso de crítica e bilheteria, mas certamente fez muita gente torcer o nariz. Quer dizer, das três personagens principais, duas são chinesas (Ziyi Zhang e Gong Li) e uma é malaia (Michelle Yeoh). O pior é perceber que, mesmo se a produção tivesse conseguido contratar as suas primeiras opções, a situação não mudaria de figura, já que as principais candidatas eram Yunjin Kim (sul-coreana) e Maggie Cheung (de Hong Kong).

Como nenhuma delas falava japonês, elas tiveram que fazer aulas com uma professora para recitar as suas falas de acordo com a fonética japonesa. Imagina: você estuda 12 anos para aprender a falar chinês fluentemente e depois descobre que tem que aprender a falar japonês também fluentemente pra ter um sotaque perfeito? E tudo isso só pra estrelar um filme do Rob Marshall? Que espécie de contrato é esse? A Xuxa que assinou?

É claro que isso gerou polêmica e uma das produtoras tentou abafar a história ao revelar que tiveram um dia aberto de audição para atrizes japonesas, mas como nenhuma apareceu, eles tiveram que recorrer a outras nacionalidades para preencher a vaga. Ah, tá bom que eles não tinham nenhuma atriz japonesa.

O papel poderia ter ido para…  Tudo bem que ficaria difícil escolher a nossa favorita Rinko Kikuchi, já que o filme estreou antes dela chamar atenção em Babel, mas antes disso já tinhamos a Chiaki Kuriyama, de Kill Bill Vol. 01. Tinhamos também a Ko Shibasaki, a Mitsuko de Battle Royale (e, o mais recente, Os 47 Ronins). Sem falar na Nanako Matsuhima, de Ringu – O Chamado (e também de Escudo de Palha, o novo trabalho de Takashi Miike)… Todas japonesas.

Javier Bardem como Felipe em Comer, Rezar, Amar

Esse filme entrou só para tentar convencer o leitor que achou que as reivindicações desse texto talvez sejam exageradas. Confessa, você também se irritaria se visse um espanhol (ou mesmo um português) se passando por brasileiro. O Brasil já é um país de dimensões continentais e rico o suficiente para possuir diferentes pronúncias por si só. Imagina então assistir um filme com um estrangeiro tentando falar português? Isso sempre soa ridículo para um nativo.

Agora imagina como os japoneses se sentiram vendo chineses falando japonês? Ou então americanos se passando por nativos? Ou por indianos? Imagina se você fosse um ator de traços étnicos e soubesse de um papel que pede por referências físicas iguais as suas, mas que no fim acaba indo parar nas mãos de um ator branco? Isso não seria revoltante? O “embranquecimento” do elenco em filmes americanos é problemático e não deve ser subestimado (mesmo que aconteça em um filme de alguém irrelevante, tipo Ryan Murphy).

O papel poderia ter ido para…  Que tal apostar no contraponto brasileiro do Bardem e ir de Wagner Moura? O brasileiro já reclamou que nos filmes internacionais sempre preferiam o espanhol, pelo menos dessa vez Wagner definitivamente seria a melhor escolha para o papel.

E você? Discorda da nossa seleção? Lembrou de mais contratações polêmicas? Escreva nos comentários.

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