Duelo dos Bons Filmes do Chris Evans: Snowpiercer x Sunshine

Há duas semanas o Chris Evans anunciou a sua suposta aposentadoria, uma semana antes da estreia americana do mais novo filme da franquia Capitão América. A declaração está longe de ser novidade no mundo da atuação, tanto que apenas nos últimos anos tivemos exemplos como Jodie Foster, Lena Dunham, Amanda Bynes, Joaquin Phoenix e Alec Baldwin, que saíram publicamente para avisar para muitas pessoas que não mais continuariam a exercer suas carreiras (e a maioria manteve sua promessa por pouquíssimo tempo).

Estou lembrando disso porque o negócio é que eu gosto do Chris Evans desde que o vi com um celular pregado ao rosto tentando salvar a Kim Basinger (mais pra salvar a vida, porque a carreira dessa até em 2004 já estava enterrada de vez) em Celular – Um Grito de Socorro. Dos atores que entram no seleto grupo dos “gostosões cheio de humor que os leks acham um cara de responsa”, ele é um dos mais bem desenvolvidos em sua atuação, realmente parece ser um cara bacana na vida real e tem algo de refrescante sobre alguém que fala tão abertamente sobre o quão ruim os filmes que ele estrela são.

Por isso, com um dos últimos filmes que ele estrelará chegando ao Brasil nesta quinta (lembrando que contratualmente ele ainda possui alguns filmes da Marvel como obrigação, contribuindo para blockbusters cada vez mais monótonos), vamos homenagear o suposto fim desta carreira à frente das telas comparando dois filmes que o Chris Evans não tem motivo nenhum para sentir vergonha: Sunshine, sua parceria com Danny Boyle, e Snowpiercer, filme dirigido por Bong Joon-ho (o mesmo do sensacional O Hospedeiro), e que no momento se encontra num limbo de distribuição sem saber se jamais chegará aos cinemas americanos.

Duelo dos filmes bons de Chris Evans

Vamos começar este duelo antes que o Harvey Weinstein também decidida nos editar e colocar na gaveta.

1. Melhor uso de sci-fi em plot

É bem curioso que ambas as empreitadas criticamente bem sucedidas para o Chris Evans tenham vindo do mesmo gênero, a ficção-cientifica. Em Sunshine, o sol está em seus últimos anos de vida e, para que ele não morra levando consigo toda a humanidade, uma equipe de astronautas é enviada em uma missão para jogar nele uma grande bomba nuclear, assim reacendendo a estrela.

Danny Boyle podia não ter ganhado ainda o seu Oscar por Quem Quer Ser Um Milionário nesta época, mas ele já era um diretor de renome com um grupo variado de filmes em seu currículo, e toda a sua experiência em delinear diferentes tipos de personagens em uma trama inusitada faz com que Sunshine fuja daquele clichê que alguns adoram usar de “o filme se passa em uma nave por acaso, podia ser na Terra também”. Sunshine se passa no espaço porque a história depende disso, mas o talento de Boyle para manter o foco de que a sua história é sobre um grupo de pessoas lutando para defender suas opiniões em um contexto tão afastado, mas mesmo assim tão conectado com o futuro da humanidade é o necessário até para que ainda nos lembremos do filme sete anos depois.

O filme pode tomar algumas liberdades criativas, como a impossível sequência de pessoas pulando de uma nave para a outra sem roupa espacial e basicamente todo aquele terceiro ato, mas assim como muitas incursões de grandes diretores pelo mundo da ficção-científica, o interesse aqui é na nossa condição de ser humano perante um universo que tentamos controlar do que naves saindo de órbita e chuvas de meteoritos, mesmo que estes também façam parte da história.

Já em Snowpiercer, ao invés do Sol morrendo, temos a Terra completamente congelada depois que uma tentativa de acabar com o aquecimento global falhou miseravelmente, obrigando todo o restante da humanidade a ficar confinado no trem que dá nome ao título, vagando sem rumo pela terra com a tripulação dividida em classes sociais, os mais ricos nos vagões dianteiros e os mais pobres na cauda.

Snowpiercer carrega o seu conceito um tanto quanto absurdo por caminhos de questionamentos muito mais políticos e sociais do que Sunshine jamais tentou fazer, e embora descrever um filme sobre pessoas de diferentes classes sociais permanentemente num trem soe como uma versão mais politizada daquele quadro do Zorra Total com a Dilmaquinista, Snowpiercer tem um conceito muito mais único do que a estrutura batida que Sunshine assume a partir do momento que mata os seus personagens como se estivesse em um filme slasher, e também o fato de ter sido realizado fora do circuito Hollywoodiano certamente lhe deu oportunidades de ir em lugares muito mais escuros com a sua história (e que provavelmente devem estar dando dor de cabeça ao Weinstein). Por isso, Snowpiercer começa na dianteira neste duelo.

2. Melhores efeitos especiais

Um bom filme de sci-fi depende obrigatoriamente de efeitos a altura, correto? Sim, e não. Mais importante do que efeitos de ponta (Planeta Vermelho) é como eles serão utilizados a favor da sua história, e se tudo o que vemos em tela não está sendo usado para mascarar um enredo desinteressante, e sim potencializando o que leríamos no papel (Gravidade).

Neste ponto, Sunshine já acerta em dobro. Apesar de ambos possuírem o mesmo orçamento de 40 milhões, Sunshine tem muito mais cuidado na retratação dos planetas e estrelas, e parece que custou pelo menos o triplo do seu adversário. Mesmo que a história engasgue de vez em quando (embora sempre mantenha o interesse), é inegável que o Boyle se dedicou completamente a retratar os visuais do jeito que queria e está tão impressionado com o que vê quanto os seus personagens, e isso tudo em uma época em que a maioria das pessoas não possuía TVs de alta definição e Gravidade ainda não tinha mudado de vez o jeito que veremos o espaço no cinema.

Snowpiercer tem efeitos eficientes para uma produção asiática que não saiu de um grande estúdio Hollywoodiano, mas o seu forte é no design de produção do trem e na direção de arte, o que é uma pena por que O Hospedeiro, mesmo sendo de 2006, já tinha alguns dos melhores efeitos digitais que eu já vi em filme de monstro. Aqui, quando a gente acompanha as tomadas externas da Terra completamente congelada e toda em CGI, a impressão que temos é que a equipe de efeitos teve o mesmo tempo e dinheiro daqueles filmes que você encontra quando está dando uma passeada no Netflix pra ver o que tem de bom e se pergunta “a Halle Berry ainda tá tentando, gente?”.

O vencedor aqui é Sunshine.

3. Melhor Vilão

Se o nosso Chris Evans é sempre o herói americano pronto para assumir a responsabilidade que nunca pediu e salvar o dia, nós precisamos de um vilão à altura. Tilda Swinton é sempre uma das melhores pessoas do mundo, e a sua retratação meio professora-de-faculdade-de-letras-fumante-de-derby meio Emma-Thompson-no-melhor-filme-do-Harry-Potter é uma das atuações mais deliciosamente bizarras que eu vi num filme há muito tempo, e ela certamente estava se divertindo o máximo possível. Não obstante, o filme ainda tem um segundo vilão memorável em um papel que tirou Ed Harris da tumba e o deu algo de bom pra fazer. Aqui fica a nossa homenagem com uma parede de gif.

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Sunshine, me desculpe, mas mesmo que o vilão zumbi desfigurado que aparece no terceiro ato pra tentar derrubar o filme inteiro fosse uma boa ideia, precisaria de muito carisma (e pelo menos um rosto) para bater esse combo de vilões de Snowpiercer, e não dá nem pra fazer suspense sobre isso.

4. Melhor Elenco

Esta daqui é uma categoria acirrada, então deixemos a lista de elenco do IMDB falar por si própria. Em Sunshine temos Cillian Murphy, Michelle Yeoh, Rose Byrne e Mark Strong, ou seja, basicamente uma sequência de atores competentes que, junto do Chris Evans, nunca conseguiram exatamente marcar um impacto com o grande público (com exceção da Rose Byrne, e não por eu achar que ela conseguiu ficar famosa, mas sim por eu ser da opinião que ela é de longe a mais sem sal desse grupo).

Em Snowpiercer, Jamie Bell, John Hurt, Octavia Spencer, o pai e filha de O Hospedeiro, os já mencionados Tilda Swinton e Ed Harris e Allison Pill de Scott Pilgrim. Vale ressaltar que além da ausência da Rose Byrne aqui, a dinâmica de ficar sempre avançando para o vagão seguinte guarda a surpresa de “qual celebridade que não esperamos ver em um filme sul-coreano é a próxima a aparecer?”.

allison pill

E a Allison Pill prenha de nove meses e metendo chumbo nos pobres é simplesmente excelente demais para dar qualquer coisa menor do que a vitória neste quesito para Snowpiercer.

5. Chris Evans menos tradicional

chris evans snowE se o duelo é em sua homenagem, nada mais justo do que a categoria final ser decidida por qual filme, mesmo que brevemente, conseguiu tirar o Chris da rotina de produções que ele mesmo admitiu serem horríveis, não é mesmo? Em Snowpiercer, seu papel é o de líder da revolução das classes que a todo momento deixa bem claro que nunca pediu tal responsabilidade para si, mas que obviamente o aceitará e o cumprirá com eficiência (e no meio do caminho revela uma backstory tão sombria que eu não consigo imaginar estreando com esse corte em solo americano).

Contudo, apesar da camada de sujeira, sangue, e do olhar desesperançoso que tenta esconder o fato de estarmos encarando um homem com uma aparência de rei do mundo, Chris Evans aqui ainda é o mesmo herói que promete que buscará o seu filho e tudo acabará bem no fim, diferentemente do seu personagem em Sunshine, cabeludo, irritado e periférico na história.

Chris Evans disse que os elogios recebidos por sua atuação em Sunshine se devem exclusivamente ao trabalho de Danny Boyle, que nas palavras do ator conseguiria fazer até uma mesa atuar, mas a verdade é que ele deveria se dar valor pelo bom papel que desempenhou em ambos os filmes.

Apesar de Sunshine sair vencedor neste quesito, o placar final revela que Snowpiercer é o melhor filme bom do Chris Evans, e se você parar pra pensar é um tanto quanto irônico que o melhor filme em sua carreira possa ser justamente o que não verá a luz do dia em sua América, cuja nação (na ficção), e povo (na vida real) ele passou por anos defendendo e entretendo sob um cheque polpudo, um contrato de compromisso assustador e muito arrependimento. Boa sorte com a carreira, Capitão, nos vemos em breve.

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1 comentário

  1. UAHUHAHUAUHAH adorei a comparação de Snowpiercer com Dilmaquinista.

    Aliás, nem lembrava de Chris Evans em Sunshine. Pra mim é muito mais sobre Cillian Murphy do que ele (e lembro também da Rose Byrne, mas mais porque assistia Damages na época, rs).

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