Crítica: “Noé” de Darren Aronofsky

Desde que Darren Aronofsky foi anunciado como o diretor da versão blockbuster do conto bíblico muita gente entortou a cabeça. Afinal de contas, Aronofsky é um cineasta autoral de filmes independentes. Quer dizer, quantos de vocês já viram Pi? E Réquiem Para Um Sonho (ouvir a famosa trilha sonora não conta)? E esse seria apenas o começo de uma tumultuada e polêmica produção: vários grupos e instituições religiosas aconselharam seus seguidores a não assistir o longa, o estúdio montou diversos finais alternativos para substituir o “oficial” de Aronofsky, jornalistas vazaram brigas entre os produtores nos bastidores, países baniram a exibição do filme… Teve de tudo.

Mas será que os religiosos tinham motivos para criticar a adaptação? O quão prejudicial a liberdade criativa pode ser percebida? O filme se sustenta mesmo assim ou ele já estaria fadado mesmo se se mantivesse fiel à história original? Aqui a opinião do blog sobre o épico Noé de Aronofsky.

Crítica "Noé"

Leia nossa crítica abaixo.

Nos EUA, o filme foi bem recebido pelos críticos. Com aprovação do Metacritic (67%) e do Rotten Tomatoes (77%), Noé falhou mesmo com o público. O Cinemascore, instituto especializado em avaliar a opinião dos espectadores logo após de deixar a sala do cinema, foi atrás do público e o longa foi avaliado com a nota C, a mais baixa de todos os filmes em cartaz. A título de comparação, Noé ficou atrás até do novo filme dos Muppets e da nova comédia de Zac Efron. Até aquela bomba do Aaron Eckhart em que ele faz o Frankesntein perseguido por demônios (?) conseguiu ter uma nota melhor.

Apesar de ter tido sucesso no fim de semana de estreia, a bilheteria despencou na semana seguinte e o filme deve manter as pernas no circuito internacional. No Brasil, por exemplo, Noé teve a quarta melhor abertura de todos os tempos e a primeira para um filme que não é uma sequência. Um dado bastante impressionante, mesmo quando lembramos do enorme número da população católica brasileira (57%).

Independente do motivo que levou a plateia ao cinema, voltamos a principal questão: o filme é mesmo bom ou não?

A verdade é que Noé parece dois longas: o primeiro, um verdadeiro filme-catástrofe, estrelado por um Russel Crowe cinquentão e ainda no auge da forma (ainda mais se levarmos em consideração que o Noé da história tem 600 anos), com grande efeitos visuais e um esmero técnico impressionante; o outro, um filme intimista que concentra a ação entre todos os principais personagens em um mesmo lugar (que poderia ser facilmente adaptada para o teatro, na verdade. Caso algum executivo oportunista queira sugar mais dinheiro da franquia, fica aí a dica). Para ser mais justo com a visão geral do filme, vamos dividir a crítica entre essas duas partes.

Filme catástrofe: Anjos de pedra e frutas silvestres

Durante a primeira parte do filme, Aronofsky realmente surpreende com um filme que se distancia do material original, mas com uma interessante proposta. Intencionalmente ou não, o diretor evita o tom profético da história e adota uma abordagem mais “real”, como se Deus nunca tivesse existido. Um dos maiores acertos do filme foi a adaptação de “anjos caídos” em grandes criaturas de pedras para justificar a rapidez e eficiência de um pequeno grupo de pessoas em construir uma arca que abrigaria um casal de todas as espécies de animais existentes no mundo (e a própria sequência que explica a transformação desses seres de luz em prisioneiros terrestres é muito bem feita). Tudo é resquício do cinema faça-real de Christopher Nolan, que gerou essa atual tendência no cinema em Hollywood, como já havíamos observado em outros filmes.

O desenho de produção desses seres de pedra, o desenho realista da arca, a visão extremamente bárbara dos acontecimentos… É tudo contado com muita confiança por Aronofsky. Nada de ilustrações bonitas ou de uma narração lúdica como já vimos em outras mídias que contam a mesma história. A versão aqui é muito mais sombria. Se a parte mais brutal do filme foi assistir uma personagem morrer pisoteada, o diretor se supera poucos minutos depois, já no dilúvio, com uma tomada especialmente cruel dos “pecadores” aos gritos no primeiro plano, se esgueirando numa rocha tentando sobreviver, com a arca implacável em segundo plano. É, desde já, uma das sequências mais fortes do ano, por mais breve que seja.

Mas, ao mesmo tempo que Aronofsky tenta negociar um afastamento da história da Bíblia, ele também parece voltar a fonte. Algo como se fosse um acordo “veja que me distancio da história o suficiente para atrair também outros públicos, mas agradando os adeptos aqui e ali”. Por exemplo, as mensagens que Noé diz receber em seus sonhos, que poderiam ser percebidas pelo espectador como simples alucinações, já que nunca O vimos em ação (direta ou indiretamente), acabam perdendo o impacto uma vez que vimos a Sua presença em outros momentos (como a ida dos animais para a arca).

Outra adição desnecessária do filme é a participação de Anthony Hopkins como Matusalém. Presente no filme apenas para expôr ao público os diálogos internos de Noé e sua esposa sem ter de apelar para chatos monólogos ou infindáveis voice-overs, Hopkins é utilizado também como alívio cômico. Em um primeiro instante até que funciona, mas a repetitiva piada das frutas silvestres acaba soando patética em vez de divertida. Isso não é O Rei Leão para agir como Timão e Pumba.

Enquanto Noé acerta em vários departamentos técnicos, é na fotografia que ele derrapa. Sem trazer muita novidade, Matthew Libatique (que já trabalhou com o diretor em Cisne Negro e Fonte da Vida) se resume a criar uma imagem com ruídos para representar a sujeira do mundo e das pessoas, mas erra mesmo quando emprega o clássico degradê azul/laranja no momento mais poético do longa. O recurso acaba empobrecendo e fazendo menção a muitas bombas de Michael Bay e afins em vez de realmente emocionar o público.

Filme intimista: bebês e desculpas

A segunda parte de Noé se passa toda dentro da arca e é dentro desse contexto que a maior parte do argumento do filme se desenvolve (e também a polêmica com os religiosos).

É seguro dizer que Aronofsky mantém a sua intenção de trazer um pouco mais de imparcialidade para o roteiro para derrubar o estigma de “típico filme bíblico”. Ao colocar Noé em um conflito interno pelas contradições de sua missão “deixar os homens morrerem” x “seguir o que Ele pediu a mim”, ele e Russel Crowe dão vida a uma imagem menos poderosa e divina de Noé e muito mais humana. Porém, é uma intenção que parece não ter verdadeira ambição. Assim que esse tema é levantado, ele ou outro personagem logo rebate o comentário/crítica com alguma passagem bíblica para aliviar e passar a mão na cabeça do espectador. Algo como quando uma criança questiona “De onde vem os bebês?” e os pais se aterrorizam, mas depois sorriem quando falam da cegonha. Você sabe que a resposta não faz o menor sentido, mas acaba aceitando por pura conveniência.

Mesmo que Noé se proponha a discussões sociais, ele nunca consegue desenvolvê-las de modo a abordá-las por completo. O que é até compreensível a falta de exercício filosófico, afinal o filme se chama Noé, não Noam Chomsky. Mas será que era mesmo necessário ter Jennifer Connely surtando ao dizer “Eu estive ao seu lado o tempo inteiro, quando todos morreram, eu te perdoeei, mas isso (um momento específico, para não dar spoilers) eu não perdoarei”? Quer dizer, que intransigência seletiva é essa? Soa como algo “Perdoar o fim da humanidade tudo bem, mas ai de mim se entrarmos no campo pessoal”. São recursos como esse que apenas empobrecem o discurso e o restante dos personagens (aliás, não é curioso como a esposa de Noé nem ao menos tem nome na Bíblia? O que vocês tiram disso?).

Outro maior erro do filme é dar voz ao personagem de Ray Winstone, que interpreta Tubalcaim. O rei adquire contornos ateístas ao questionar a existência de Deus e afirmar a superioridade do homem acima de tudo, e todo esse texto é maliciosamente escrito na boca do personagem mais unidimensional, maligno e perverso em cena. Só faltou Tubalcaim se vestir de preto e segurar um cartaz “#NãoVaiTerArca”, tamanha a intenção de vilanizá-lo. Ficou parecendo mais uma tentativa maquiada de catequizar os espectadores do que um recurso estilístico.

É verdade que o filme também surpreende em outras questões (apesar de estar muito bem em cena, ainda é estranha a escalação de Emma Watson no filme, que em nada combina com o resto do elenco), mas a verdade é que não é difícil entender a estranha recepção que o filme recebeu. Ao tratar de um tema polêmico e tendo o investimento de grande estúdio, Noé não segue o material original e nem ousa o suficiente para discuti-lo. Ao tentar ser os dois ao mesmo tempo, ele não está nem lá, nem cá. Faltou mais precisão nesse leme.

Noé 
Noah, EUA, 2014, ação/drama, 138 min. De Darren Aronofsky. Com Russel Crowe, Jennifer Connely e Ray Winstone.

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