Em que momento um super astro global é rebaixado?

O último fim de semana americano viu a estreia de Transcendence, mais novo filme estrelado por Johnny Depp, amargar números tão fracos na bilheteria que, a cargo de comparação, ficaram por volta de um terço do total da estreia de bombas famosas como Príncipe da Pérsia, Battleship e outra bomba do próprio Depp, O Cavaleiro Solitário.

Mas qual o problema? Nenhum jogador de futebol nunca errou um passe? (#Aeileen no Mulheres Ricas justificando a sua desafinação enquanto cantora) No entanto, o negócio é que desde Piratas do Caribe 4, Johnny Depp não estrela um filme que tenha conseguido romper a barreira dos 100 milhões de dólares nos EUA, e Transcendence (com exceção do seu trabalho de voz em Rango e do já citado Piratas) é o quinto filme na sequência vendido nos ombros de Depp a ter um resultado comercial que navega entre o insatisfatório e o desastroso.

Levando isso em conta, nós no Anfitrião começamos a nos perguntar: quando exatamente um super astro global, do nível que o Depp indiscutivelmente se encaixa, é rebaixado para apenas extremamente famoso?

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Continue lendo abaixo.

Hoje em dia, temos provavelmente apenas umas 10 celebridades globais. E quando eu digo global, eu não quero dizer somente muito famoso, premiado ou objeto de obsessão do tumblr (tipo gente que acha que Benedict Cumberbatch já é famoso o bastante a ponto de ter filme vendido em seus ombros). Estou falando daquela estrela tão famosa que o seu pai sabe nomear pelo menos uns três filmes estrelados por ele e a sua mãe já viu algum tipo de menção à sua vida pessoal (ou anúncios de perfume da Jequiti, isso quando a própria estrela não tá na capa da revista vendendo produto, né, dona Reese).

Na maioria das vezes essas celebridades são cantores, por isso que a lista de quem consegue vender um filme em qualquer lugar do mundo é tão pequena, e mesmo que eu não tenha pensado em todos os nomes que a compõem, acho que podemos assumir seguramente que teríamos a presença do casal Jolie-Pitt, Tom Hanks e Cruise, Sandra Bullock, Will Smith, e, como estamos analisando aqui, Johnny Depp.

Para dados mais embasados, resolvi recorrer ao Box Office Mojo na categoria de pessoas, que avalia os atores de acordo com a bilheteria acumulada de todos os seus filmes, mas logo percebi que apenas bilheteria de filmes não é um critério viável para classificar quem é um super astro. Não surpreendentemente, o top 10 é formado exclusivamente por homens, e é liderado por Tom Hanks. Johnny Depp aparece na nona posição, e apesar da lista brevemente parecer uma associação correta dos atores mais famosos do mundo, encontrar Emma Watson na posição 18 devido a bilheteria de todos os seus Harry Potter somados, a frente de pessoas como Brad Pitt, Julia Roberts e Leonardo DiCaprio apontou uma falha nesta classificação.

Outro ponto interessante é notar que mesmo o filme de maior arrecadação de uma celebridade já estabelecida pode ter ganhado muito menos dinheiro do que vários outros da lista, como é o caso de Guerra dos Mundos, maior filme de Tom Cruise, mas a menor bilheteria presente na primeiras 20 posições desta lista. Mais do que uma combinação de blockbusters, um grande astro se faz na habilidade de estrelar grandes produções em que você interpreta uma propriedade conhecida, mas também de levar o público ao cinema para ver um filme sobre algo que eles nunca ouviram falar, mas darão uma chance exclusivamente pelo seu rosto estar no cartaz.

Em uma atual indústria que prioriza filmes baseados em conteúdos conhecidos, precisamos de super astros?

henry cavillNão há mais uma pessoa viva que acompanhe cinema de perto e consiga se impressionar com a quantidade de filmes baseados em algum tipo de obra pré-existente (refilmagem, livro, programa de TV, vídeo game e por aí vai). A Marvel já revelou os seus planos que se estendem até mais longe do que eu consigo imaginar meu próprio futuro profissional e pessoal, e com o fracasso coletivo de filmes com grandes estrelas a bordo (ano passado viu a derrota de Depois da Terra e Oblivion, vendidos sobre os ombros de Will Smith e Tom Cruise), muitas pessoas da indústria afirmam que, assim como a era das supermodelos nos anos 90 que viu o surgimento de Naomi Campbell e Cindy Crawford, a era dos super astros acabou e isso teria vantagens perceptíveis, como a diminuição de salários.

Acontece que por mais que Hollywood queira tirar o seu dinheiro te fazendo assistir Homem de Ferro 10 ou o vigésimo reboot de Homem Aranha, tem um limite de projetos não originais que podem ser lançados sem que o público comece a rejeitá-los em massa e migre para algo que parece novo e interessante, mas que tenha uma identificação em alguém que conheçamos. Apesar de todos adorarem um novo rosto surgindo, são celebridades estabelecidas que vendem tabloides, que gostamos de especular se estão grávidas e que optamos por crer que elas não associariam seus rostos extremamente famosos a um produto no qual não acreditassem, repetindo o mesmo modelo que fazemos inconscientemente quando consumimos o produto da Seara porque a Fátima Bernardes está lá (e boa sorte consumindo aquela versão deles pro Hot Pocket, chamada Hot Hit e que eu carinhosamente apelidei de Hot Shit).

Quantos erros são erros demais?

Se já especulamos sobre como os super astros se formam e sua necessidade para a indústria, agora nos chega o momento de indagar quando seria a hora de rebaixá-los por não estarem mais cumprindo o seu papel. Para isso, vamos pensar em celebridades que já passaram por esta situação devido a diferentes motivos, como políticas internas de estúdios, desinteresse do público e problemas com sua imagem pessoal.

Robin Williams

Apesar de Bom Dia, Vietnã e Hook terem feito grande sucesso, foi em Uma Babá Quase Perfeita que ele estourou de vez e se consolidou como um dos maiores comediantes dos anos 90 (e que recentemente foi anunciado que terá uma continuação). Os anos seguintes viram sucessos como Jumanji, Gênio Indomável e Patch Adams, mas uma briga interna com a Disney, que consequentemente decidiu cortar o orçamento de O Homem Bicentenário em 20 milhões de dólares, iniciou uma sequência de fracassos comerciais como Morra, Smoochy, Morra, Retratos de uma Obsessão e Insônia. Apesar dos filmes revelarem grande versatilidade por parte de Williams, o público havia sumido, assim como a sua carreira por grande parte dos anos 2000 (ele acabou aparecendo até em episódio de Extreme Makeover). Eventualmente fez as pazes com a Disney e prometeu uma volta com uma participação pequena em Uma Noite no Museu, seu maior sucesso, mas hoje em dia se recostou no mundo mais seguro das sitcoms.

Eddie Murphy

Este é um caso clássico de como uma única bomba pode potencialmente acabar a sua carreira para sempre. Na época em que Pluto Nash estreou nos cinemas, Eddie Murphy ganhava um retorno com o seu papel marcante em Shrek, que era tão energético e característico da sua pessoa que rompeu o limite de apenas trabalho de voz e foi considerado um marco em sua carreira, como Ellen DeGeners em Procurando Nemo. Pluto Nash foi responsável por um dos maiores prejuízos já lançados no cinema, partindo de um orçamento de 100 e rendendo 4 (quatro) milhões nos estados Unidos. Apesar de A Creche do Papai ter rendido mais de 100 milhões no ano seguinte, Murphy ficou associado durante os anos 2000 apenas a franquia de Shrek, especialmente quando optou por perder o Oscar de coadjuvante por Dreamgirls ao se recusar a adiar o lançamento de Norbit no mês seguinte a cerimônia.

mel gibsonMel Gibson

E temos o também clássico caso da pessoa que é obrigada a deixar de ser uma estrela, não por não conseguir mais abrir filmes (lembrando que o Mel era dinheiro à frente e atrás das telas, com a Paixão de Cristo ainda sendo a maior bilheteria de um filme adulto da história). Com a explosão de controvérsias em sua vida pessoal ao fim da década, que incluem comentários homofóbicos, acusações de anti-semitismo e toda a polêmica envolvendo a sua ex-esposa Oksana Grigorieva (foto) que culminou na frase “se ela terminar sendo estuprada por uma gangue de negros a culpa será inteiramente dela”, a presença de Mel Gibson em qualquer projeto se tornou uma mancha, e a sua carreira foi encerrada por ele.

O atual mercado internacional e a entrada da China no jogo

Então onde que o Johnny Depp entra nesse meio? Ele não está no meio de politicas do estúdio, nem tem problemas com a sua imagem (que por sinal, é um tanto quanto privada), e o público parece gostar de vê-lo interpretar as variações de Jack Sparrow, cuja única mudança de um filme para o outro é a maquiagem que recebem.

Há alguns anos Hollywood tem desenvolvido filmes mais deliberadamente internacionais, tanto na escolha de elenco (e não confundam isso com diversificação étnica, Hollywood ainda adora homens brancos) quanto nas locações de suas histórias, e que não apresentam problemas quando tem rendimentos insatisfatórios em solo americano (toda a franquia Resident Evil, filmes de destruição como Pompéia e Noé, este nomeado recentemente como a maior bilheteria da Paramount de todos os tempos aqui no Brasil).

Mais do que isso, o público internacional é avido por produções em 3D, que possuem ingressos mais caros e estão em constante declínio no consumo do público americano. Um exemplo das vantagens do novo mercado global vem do próprio Depp com o último Piratas do Caribe, que surpreendeu a todos quando conseguiu romper a barreira do bilhão mundial mesmo tendo apenas 25% dessa renda vindo de sua terra natal.

depp chinaOutro ponto importante é o mercado da China. Obviamente um lugar com 1 bilhão de pessoas é uma mina de ouro para se vender qualquer coisa, e as autoridades chinesas, cientes do fato e de acordo com suas políticas nacionais sempre controlavam a entrada de qualquer coisa em seu mercado, mas a atual facilidade de se estrear filmes por lá e a disposição com que o público os consomem (o relançamento de Titanic deu por volta de 100 milhões por lá) fez com que estúdios filmassem porções inteiras de filmes em ambientações chinesas (Looper) e até mudassem pedaços de roteiros que pudessem ofender seu publico (como um arco inteiro sobre um personagem asiático em Finalmente 18). Johnny Depp inclusive fez uma conferencia de imprensa exclusiva por lá para divulgar Trascendence, e o filme acabou estreando com uma arrecadação maior do que nos Estados Unidos (apesar de ainda insatisfatória).

A questão é que era muito mais fácil se livrar de uma celebridade trabalhosa no começo dos anos 2000 do que agora, mesmo com conteúdos cada vez mais direcionados a marcas, e não pessoas. Com o mercado internacional ainda em seus primeiros estágios e produtos cada vez mais similares entre si, é o apelo de uma pessoal global que fará alguém em qualquer lugar do mundo pague por um filme sem efeitos especiais monstruosos como Sombras da Noite, que conseguiu mais do que o dobro de sua bilheteria de terras internacionais.

A verdade é que dificilmente veremos Johnny Depp ser rebaixado do nível de astro global porque Hollywood ainda não pode se dar ao luxo disso, e não só com ele, mas com Tom Cruise e Will Smith também. Os que resistiram até agora continuarão a resistir por enquanto. O que provavelmente podemos esperar é que o Depp apareça em muito mais Piratas do Caribe e Alice do que com a sua cara limpa em um projeto original. Bom, isso enquanto o Robert Downey Jr não decide fazer algo além de Homem de Ferro, rouba todos os fãs do Depp e repete o ciclo, mais uma vez.

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3 comentários

  1. O que está acontecendo com o Johnny Depp é normal,acontece com todos,isso se chama fase.Me digam um ator que todo ano arrebente nas bilheterias,não existe né?O Robert Downey é outro exemplo,fora Homem de Ferro e Sherlock Holmes ele não tem nenhuma grande bilheteria.

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