Crítica: “Hoje eu quero voltar sozinho”

Anos depois do sucesso do curta-metragem, finalmente estreia a versão longa da história Hoje eu quero voltar sozinho. Muita expectativa se criou ao redor do filme, já que o curta primava pela narrativa bem delicada e um desenvolvimento cuidadoso. O filme, além de quebrar várias marcas (algumas mais individuais, como o recorde de números de salas para uma estreia da distribuidora Vitrine, a mesma de O som ao redor), também confirma uma tendência do cinema atual. Melhor dizendo: não uma tendência, mas uma naturalização da implementação da temática gay dentro do cinema.

Faz quase 10 anos que a equipe de marketing de O segredo de Brokeback Mountain teve que controlar os danos depois que o diretor Ang Lee revelou em uma coletiva que o público-alvo de seu filme era o público gay. Apenas por conter uma temática gay, significa que a produção deve ser reservada a um nicho específico dentro do cinema?

Dali em diante se solidificou a ideia de que não precisa ser gay para apreciar um filme com protagonistas gays. Basta gostar de filmes. Bons filmes, para ser exato. Abordagens tão distintas como o romântico Azul é a cor mais quente, ou o erótico Um estranho no lago ou o político Clube de compra Dallas se popularizaram nas salas de cinema e encontraram sucesso junto do mais diverso público cinéfilo sem mais a distinção segmentada e marginalizada de “filme para a plateia gay”.

Hoje eu quero voltar sozinho é mais um a embarcar nessa onda. Continue o texto e veja nossa opinião sobre a produção.

O lançamento do estreante Daniel Ribeiro fez sucesso no Festival de Berlim e no Festival de Guadalajara e conta a história do adolescente Leonardo (Ghilherme Lobo) que se cansa com o cuidado superprotetor de seus pais por ser deficiente visual. O garoto, junto de sua amiga Giovana (Tess Amorim), lidam com a vinda do novo colega de sala Gabriel (Fabio Audi) e as relações de ciúmes e afeto que surgem a partir daí.

Inferior ao curta-metragem, o filme perde a mão em alguns momentos. Como a história de ambos os filmes é a mesma, percebe-se o cuidado do diretor em não apenas esticar a trama, então logo de imediato podemos perceber a criação de vários outros personagens de apoio como a atirada Karina, os garotos do bullying e os pais, que não estão presentes no vídeo original.

Esse é provavelmente o maior defeito no filme. A figura restritiva dos pais extremamente preocupados com o filho termina por naturalizar demais a situação e perde a funcionalidade problemática. Em vez de o tratamento cuidadoso acontecer por causa da cegueira de Leo, o que transparece para o espectador é  que o cuidado dos pais é independente da deficiência visual do filho. O que não chega a ser exatamente um demérito, mas as exigências que vemos no filme são muito mais próximas de “leva um casaco que pode fazer frio”, do que “você não pode enxergar e portanto deve ter uma vida mais restrita” como Leo insiste em reclamar. É compreensível que o diretor tenha adotado essa técnica justamente para universalizar a questão “todos somos iguais”. A mensagem “ele é limitado pelos pais por ser cego, mas eu também me identifico com isso” é tão óbvia e tão clichê que acaba funcionando contra o filme. O momento em que os pais baixam a guarda, como quando o pai ajuda o filho a fazer barba ou quando a mãe revela que quando Leo crescer e tiver filhos vai entendê-la auxiliam muito mais para essa abordagem universal.

Outro ponto que Ribeiro escorrega é quanto a estrutura narrativa. O diretor escolhe manter alguns recursos do curta na sua transformação para longa metragem, mas acaba dando um tiro no pé em alguns momentos. A trama do trabalho em grupo, que no curta é utilizado como pretexto para Leo e Gabriel se conhecerem, tem o desenvolvimento certo: sendo um filme de 17 minutos, é natural que se tenha uma “pressa” para o desenrolar da história e o curta faz isso muito bem. Já no longa, esse mesmo recurso é tão esticado que na verdade cansa o espectador. É uma trama tão desnecessária que acaba sendo ponto de encontro para outros momentos mais marcantes (como a apresentação de There’s too much love, ou quando Gabriel tenta ler em braile) que poderiam muito bem fazer parte da história sem a marcação repetitiva de “temos que fazer nosso trabalho em grupo”.

E se o filme quer falar de minorias como a cegueira e a homossexualidade, é meio estranho reparar que todos os alunos com falas são brancos. Para um filme que se diz inclusivo, é triste ver como faz falta a diversidade em um elenco que é quase totalmente branco (apenas a professora da escola é negra e ela não deve ter mais do que 2 minutos em cena). A vida de família-classe-média-alta é tão forte que Hoje eu quero voltar sozinho às vezes funciona como uma versão cinematográfica de uma novela de Manoel Carlos.

“I can’t hide my feelings from you now…”

Mas nem só de defeitos vive o filme. Aliás, ele se sustenta mesmo nas atuações do elenco principal. Ghillerme Lobo está especialmente adorável no filme e jamais investe em uma auto-piedade na hora de construir Leo. Embora o menino seja um grande achado (fez sucesso com fãs no festival do México), quem realmente destaca é Tess Amorim. A garota é tão autêntica e espontânea na sua composição que o público acredita e compreende todas as crises que a sua personagem sofre durante o filme. Um retrato muito honesto da dupla principal. O mais fraco em cena é o “invasor” Fabio Audi, que está apenas bem.

No entanto, o que realmente ficará na lembrança do espectador são algumas das várias cenas delicadas que Ribeiro monta ao longo da produção. Quando Gabriel pede para ouvir o seu toque no celular do Leo, ou a cena em que o protagonista se masturba vestindo o casaco do amigo, ou a sequência em que eles tomam banho no chuveiro do acampamento, ou a cena final (extremamente encantadora) que é provavelmente a mais icônica. São vários os momentos em que Ribeiro trata a relação dos jovens com tanta naturalidade e respeito que o público se apaixona com o filme. Uma prova de que é possível criar empatia e compaixão no espectador sem ser piegas ou cafona.

Não sei se hoje eu quero voltar sozinho, mas sei que fiquei com vontade de ouvir Belle and Sebastian.

Hoje eu quero voltar sozinho 
idem, Brasil, 2014, comédia/romance, 95 min. De Daniel Ribeiro. Com Ghilherme Lobo, Fabio Audi e Tess Amorim.

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