Ranqueando “Godzilla”: Qual o melhor filme moderno de monstros?

Nunca houve um período da humanidade em que não tivéssemos um monstro para nos representar. Eles podem ser semideuses, animais gigantes ou uma mistura de ambos vinda de uma galáxia distante, mas a verdade é que eles costumam ser do tamanho do nosso medo em cada época. Este Godzilla, o maior já apresentado até então, chegou destruindo tudo também na bilheteria, catapultando a carreira de seu diretor Gareth Edwards e reintroduzindo o monstro japonês a toda uma nova geração que não tem memória da versão feita por Roland Emmerich em 1998 (sorte deles).

Mas quando comparado a todos os outros monstros que tivemos nas telas neste milênio, quão alto é este Godzilla em relação aos seus concorrentes? Escolhemos 10 exemplos de filmes de monstros que estrearam após o onze de setembro para vermos em que posição o lagartão entra ao tentar se inserir em uma sociedade que já tem medo o bastante da vida real. E não, Círculo de Fogo já foi malhado o bastante pela gente e não conseguiu entrar na lista.

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Algumas considerações antes de começarmos: levamos em consideração apenas filmes cujos monstros sejam criaturas similares a dinossauros, animais gigantes ou seres alienígenas que se assemelhem a algum predador, então nada de lobisomens, fantasmas, ou seja lá o que se chame aquele bicho com os olhos nas mãos do maravilhoso O Labirinto do Fauno. Mais uma vez, estamos ranqueando apenas os filmes que estrearam neste milênio, então lembre-se disso antes de me ameaçar pegar na porrada nos comentários após notar a ausência de filmes clássicos.

Menções honrosas: The Troll Hunter não entra nesta lista pelo simples motivo de eu nunca ter terminado o filme todo (e honestamente, não é algo que eu tenha muita vontade de corrigir, apesar de apreciar todo o esforço da produção norueguesa). Prometheus pode até se encaixar nos critérios estabelecidos, mas eu honestamente não me lembro se tínhamos algum monstro além daquela versão albina do Alexandre Frota, então também ficou de fora. O Segredo da Cabana continua sendo um dos melhores filmes de terror da década, mas mesmo com um terceiro ato recheado de criaturas assustadoras, acho que podemos concordar que ninguém classificaria o filme do mesmo jeito que os outros presentes nesta lista. Por último, O Nevoeiro continua sendo um filme ótimo dono de um final controverso, mas os personagens humanos conseguem ser tão piores que os monstros que também acabou ficando de fora. Agora chega de enrolação e vamos começar.

10 – Malditas Aranhas

Eu não tenho nenhuma base teórica por trás disso, mas eu tenho uma sensação de que Malditas Aranhas, lançado menos de um ano depois dos atentados ao World Trade Center, tem uma pegada muito mais cômica do que o seu blockbuster costumeiro de verão pra tentar balancear o clima pesado que se seguiu a esse começo de milênio. Não que o filme possa ser considerado um blockbuster de verdade, saindo de um pequeno orçamento de 30 milhões e rendendo apenas 45, mas essa divertida homenagem aos filmes de terror B dos anos 50 merecia uma recepção mais acolhedora do que teve (por incrível que pareça os efeitos especiais se saem bem até hoje), e no mínimo serve como um lembrete curioso de uma época em que o David Arquette podia estrelar um filme (e ainda por cima como potencial padrasto de Scarlet Johansson). Um bônus: melhor uso de aranhas em filmes desde Aracnofobia.

9 – Morte Súbita

A Austrália é conhecida no mundo do cinema pelos seus filmes de terror insanos (Wolf Creek, The Loved Ones) e pelo ícone cultural Crocodilo Dundee, então juntar ambos para criar um filme sobre um crocodilo assassino fazendo de refém talentos locais como Sam Worthington e Radha Mitchell parecia uma receita perfeita, correto? Embora Morte Súbita apresente uma simplicidade bem anos 90 em uma época em que o cinema de terror parecia se recostar exclusivamente em torture porn, não há nenhuma cena em que o monstro principal possa mastigar alguém em toda a sua glória, algo que esperamos de um filme com um crocodilo gigante. A jornada é divertida o bastante e alguns momentos de tensão acontecem quando os personagens estão ilhados no meio do rio, mas se você vai vender o filme em cima de um monstro, é melhor que ele seja algo pra se lembrar, e não um animal grande que você encontra naqueles vídeos virais de “pai salva filho de ser engolido pela sucuri”.

8 – Monstros

Mais do que nunca, Hollywood tem investido em diretores pequenos para assumir grandes propriedades que muitas vezes não tem nada a ver com o filme pelo qual o estreante chamou a atenção, como Marc Webb ganhando o Homem-Aranha depois de dirigir 500 Dias com Ela e Colin Trevorow, que assumirá Jurassic World após ter estreado no pouco visto Safety Not Guaranteed. Gareth Edwards parece ser o que recebeu a oferta mais coerente, visto que em tese Monstros e Godzilla dividem o tema em comum.

O problema de Monstros não se dá pelo orçamento ínfimo, que por sinal o seu diretor contorna com muita criatividade, mas sim pelo roteiro que não sabe muito ao certo o filme que quer contar. Não que isso seja uma surpresa por completo, visto que o próprio Edwards revelou que começou a filmar sem nada escrito. A história transita entre road trip romântico e thriller de fuga, e em momentos consegue fazer ambos competentemente em um pano de fundo que parece tentar pegar carona no sucesso de Distrito 9. Apesar de mesmo em um filme tão pequeno os monstros aparecerem de corpo inteiro em efeitos especiais melhores do que o esperado, a falta de segurança na história que está contando faz com que Monstros funcione muito mais como um cartão de visitas de potencial para o futuro, e não de uma estreia excelente por si própria. E se aquele final era pra fazer algum sentido, acho que eu perdi esse bonde.

7 – Guerra dos Mundos

Vindo de uma época em que  o Spielberg ainda não queria nos punir lançando produtos tediosos como Cavalo de Guerra Lincoln, Guerra dos Mundos consegue ser tão desorganizado quanto divertido. A história, adaptação mais superficial possível da obra clássica do século 19, era mero pretexto para vender um filme baseado na marca de Spielberg, Tom Cruise (tomando um baque na época do sofá da Oprah), e destruição genérica computadorizada, e continua sendo a maior bilheteria na carreira de Cruise até hoje. O que parecia apenas uma receita para um mero sucesso comercial, contudo, serviu também para lembrar a todos nós o porque Spielberg é mestre no que faz, apresentando suas cenas de destruição com uma sensação de grandeza que Marc Forster rebolou mas não conseguiu recriar ano passado no similar Guerra Mundial Z. Ou você se lembra de muitos outros diretores que tiveram a sacada de vender um filme familiar em que pessoas são literalmente reduzidas a pó, burlando a censura e criando uma das cenas mais memoráveis do filme? Volte para gente, antigo Spielberg, e largue estes filmes de época para alguém como Stephen Daldry.

6 – Ataque ao prédio

ataqueaopredioO próprio cartaz espertamente faz questão de avisar que é dos produtores de Todo Mundo Quase Morto (R.I.P, Ant Man),  e embora a estreia na direção de Joe Cornish fique a dever aos trabalhos superiores de Edgar Wright, Ataque ao Prédio é um tipo de mistura de comédia, terror, e apuro visual que só poderia ter saído do Reino Unido. Ainda pendendo pro lado dos filmes mais baratos desta lista, o design de produção dos monstros (cujo traço mais reconhecível são os dentes azuis neon) é também um dos mais inventivos, e servem como um apetrecho cool para a história de personagens desgostáveis que assumem a responsabilidade de defender o bairro. Não é o melhor filme de monstro da lista, mas a energia e a honestidade de sua história mostra que talvez seja um dos que mais entende porque o gênero existe em primeiro lugar.

5 – Godzilla

Muito apropriado chegar ao filme que deu origem ao post aqui na quinta posição, no meio do caminho, que pode representar tanto a minha opinião sobre esta nova versão do Godzilla, quanto o comportamento do público, que correu para lotar os cinemas no primeiro fim de semana, mas que está soltando um boca a boca negativo que talvez possa afetar os rendimentos do filme até o fim de sua corrida. Por que Godzilla é um filme tão divisor de águas? Basicamente por que se recusa a ser um filme da Marvel.

Eu sei que parece injusto querer culpar o estúdio de quadrinhos pelas expectativas atuais do que um blockbuster tem que se parecer, visto que ainda no início de sua dominação mundial, com Homem de Ferro se tornando o hit surpresa do verão, Transformers já estava em sua segunda empreitada de ataque ao cinema. Contudo, incontáveis sequências, spin-offs e filmes com os mesmos cartazes, a Marvel aperfeiçoou a receita de bolo que lhes deu liberdade de desenhar os planos para mais de dez anos no futuro, investindo em filmes similares, inofensivos, e que ninguém quer realmente ver, mas se sente preso em uma teia da qual não conseguem se livrar. Godzilla  tem sim cenas de ação (e elas são ótimas), mas no geral não é nada disso. Esqueça o limite mínimo de destruição do terceiro ato (e que Homem de Aço levou a níveis absurdos no verão passado).  O que temos aqui tem muito mais a ver com atiçar do que agradar o público, e por incrível que pareça a arma secreta que Gareth Edwards usa para isso se chama “silêncio”.

Quem diria que o movimento mais ousado de um filme em 2014 seria a recusa de um diretor de jogar pelas regras e ter os culhões de só usar o seu monstro quando o mundo (e a história) realmente precisam dele? Eu ainda sinto que a falta de personagens mais interessantes (ou da Elisabeth Olsen ter algo pra fazer além de parecer assustada) feriram o filme e o nosso interesse de nos focarmos na história, mas se uma produção desse porte vai errar porque pela primeira vez em anos tenta nos dar algo que não temos nos nossos “filmes de verão”, eu acho que os pontos negativos podem ser contados como erros honestos.

4 – Super 8

super8Muita gente despreza Super 8 como uma tentativa forçada do JJ Abrams de emular Spielberg, mas você pode culpá-lo quando o resultado é tão bom? JJ Abrams é como se fosse o Coldplay do cinema, e eu nunca imaginei que fosse comparar alguém a essa banda para tecer um elogio. Sua filmografia (que diga-se de passagem, não possui nenhum filme verdadeiramente ruim), mostra um diretor eficiente, esperto de um jeito que um bom publicitário seria e que está disposto a levar para as grandes massas produtos bem acabados e levemente alternativos,ainda refletindo a sua visão pessoal de um jeito que o grande público aceita e consome. Super 8 é um filme que estreou regado de mistérios e que não se rendeu à Christopher Nolan-ização do cinema moderno, oferecendo um passeio divertido, emocionante, e que recriava uma experiência típica de anos 80 para um público ávido por uma chance de consumir um produto com um sabor, curiosamente, “diferente”. E claro, aquela cena do descarrilamento do trem continua zerando a vida mesmo várias assistidas depois.

3 – King Kong

Existe uma teoria de que, entre os nossos 12 e 16 anos, vivemos algo chamado de “anos de obsessão”, e tudo o que consumimos de cultura durante este período tem um olhar imparcial que nunca deixaremos completamente de lado durante as nossas vidas. Sim, eu posso ainda olhar para o primeiro CD do Evanescence com um olhar carinhoso, ou ainda me lembrar recorrentemente de como adorava The OC, mas sinto-me na obrigação de afirmar que, obsessões a parte, King Kong é sim um filme excelente.

Ou você consegue pensar em um filme de ação que tenha tantas cenas memoráveis quanto os dinossauros caindo do desfiladeiro, o Kong enfrentando os T-Rex ou os aviões no topo do Empire State? Ou outro filme de monstro que tenha alguém do calibre de Naomi Watts dando uma das melhores atuações de sua carreira? Sim, Kong Kong podia ser bem mais curto do que suas 3 horas de duração, mas Peter Jackson trata a sua história com tanta ambição e vontade de redefinir o clássico como um novo épico por seu próprio mérito que até o começo em Nova York durante a crise já parece uma aventura com Ann Darrow tentando sobreviver sendo uma atriz sem renda fixa. Por algum motivo o público não conseguiu se identificar com o filme, e mesmo a grande quantia que arrecadou não foi o bastante para ser considerado um sucesso em cima do também grande orçamento.  Tudo o que eu sei é que Jackson, recém-vitorioso pelo terceiro senhor dos anéis, parecia estar no topo do mundo como se fosse o próprio Kong no final do filme, e ainda lanço a polêmica de que, tivesse estreado em um ano diferente, King Kong acabaria até levando mais alguns Oscars para casa.

2 – O Hospedeiro

Você provavelmente estava esperando ver esse aqui em primeiro lugar, e, embora O Hospedeiro não saia no topo desde ranking, eu não tenho problema nenhum em coroar a primeira aparição do monstro à beira do rio como a melhor cena de um ataque de monstro deste milênio inteiro. O Hospedeiro é muitas coisas, desde um filme de monstro, luto, drama familiar, sátira social, e faz todas essas coisas de um jeito no mínimo excelente. Eu vou ser ousado e dizer que eu acho que a segunda metade do filme engasga um pouco, algo que já senti assistindo outros excelentes filmes sul-coreanos, mas nada a ponto diminuir a excelência alcançada neste que provavelmente é um dos melhores filmes da primeira década dos anos 2000. “Porque então ele está em segundo lugar”, você deve estar se perguntando, e a minha resposta pode soar um tanto quanto incoerente: porque talvez O Hospedeiro seja um pouco melhor do que deveria para ganhar um título de melhor filme de monstro, o que me leva ao meu primeiro lugar.

1 – Cloverfield

Eu provavelmente já vi Cloverfield mais de dez vezes. No cinema, com a família em casa, com os amigos de novo, já usei em aula, e embora eu também já tenha visto O Hospedeiro mais de duas vezes, dada a opção de escolher entre os dois filmes passando em algum canal a cabo eu certamente pararia neste aqui, o que não diminui em nada o meu apreço pelo filme sul-coreano.

cloverfieldAntes de mais nada, Cloverfield é um filme rápido. Fecha por volta de uma hora e vinte, sem inchar a duração com explicações de onde o monstro veio, cena pós crédito preparando terreno pra sequência e desfechos para todos os personagens. É o registro de um ataque sofrido por pessoas normais e como elas tentariam sobreviver em tal situação, já quebrando o clichê de acompanhar soldados tentando destruir o monstro. Cloverfield é também o melhor uso do estilo found footage desde A Bruxa de Blair, aproveitando o recurso para brincar com a sugestão da presença do monstro e nos aproximar do desespero dos protagonistas. Sem contar que de todos os filmes desta lista é o único que passa no Bechdel teste e tem mais de uma protagonista feminina. É um filme que não para, você não pode prever o que vai acontecer e faz até o clichê batido de destruir a estátua da liberdade parecer algo novo e assustador. Pode não ser tão bem desenvolvido quanto O Hospedeiro, mas isso seria como comparar O Bebê de Rosemary com Evil Dead, e esse tipo de adrenalina descontrolada, de dar um recado bem dado e jogar o microfone no chão é exatamente o que eu espero do meu filme de monstro, e o que faz de Cloverfield o melhor exemplo do milênio.

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