Duelo da Malévola: “A Bela Adormecida” x “Maleficent”

Com a estreia de expressivos 70 milhões, Malévola foi o filme mais assistido nos EUA nesse último final de semana, superando a marca pessoal de Angelina Jolie, cujo maior lançamento até então foi de 60 milhões com a animação Kung Fu Panda (apesar de que ela não era a protagonista do desenho e nem mesmo mostra o seu rosto, então vamos considerar O Procurado, com quase 51 milhões).

O sucesso não chega a ser exatamente inesperado dado dois fatores: 1) o pesado marketing da Disney em cima da adaptação, já abrindo um caminho para o público se acostumar com versões live-actions de seus clássicos (não vamos esquecer que Cinderella com Cate Blanchett e Helena Bonham Carter está logo aí); e 2) o star power de Angelina Jolie. Aliás, chega a ser curioso como alguém com a carreira de Angelina consiga atrair tanta gente para o cinema, sendo que seus filmes não são nem um pouco memoráveis. Alguém que tem destaques como Sr. e Sra. Smith, Tomb Raider e O Turista na verdade vive mais da sua persona off-screen do que as suas atuações.

… Ou será que não?

Levantamos este duelo então para decidir se realmente o estúdio acertou em apostar na adaptação ou se era melhor deixar a animação intocada.

 Comecemos com o primeiro critério da nossa disputa.

1. Backstory

Malévola é muito provavelmente a vilã mais memorável de toda a franquia Disney. Ela sempre ganha um papel de destaque em qualquer produto da marca, desde a linha de bonecos e roupas Disney Villains, até participações no House of Mouse. Até mesmo a série de videogame Kingdom Hearts, que mistura os universos de todos os desenhos do estúdio, traz Malévola como a principal vilã do jogo. Portanto, não chega ser um choque alguém com esse nível hierárquico finalmente receber um filme solo. O que é até compreensível, já que ao contrário das outras principais heroínas, Aurora tem pouco tempo em cena, o que significa que uma boa parte da ação e da trama pode ser direcionada para outro personagem.

No filme de Angelina Jolie, Malévola é apresentada como uma pequena e adorável fada que vive harmoniosamente com as outras criaturas mágicas da terra de Moors, um território afastado onde humanos e seres fantásticos não podem viver junto. Como não podemos ter um filme sem um pouco de conflito, Malévola eventualmente encontra um garoto por quem se apaixona e os dois ensaiam um romance. E como em toda história de amor que se propõe a ser realista, Malévola é trapaceada e enganada pelo seu amor. Coisas da vida.

A fada agora é corrompida por ressentimento e mágoa e transforma Moors em uma terra escura e assustadora graças às sombras do seu coração… Ou algo cafona desse nível. Afinal de contas, é um filme Disney. Se não tivermos uma cafonice aqui e ali não tem graça.

Sem entregar muito da história, vou só dizer que a fada-agora-bruxa simplesmente não sabe se desapegar do seu passado e acaba se tornando cada vez mais e mais amarga. Malévola deveria ter umas aulas com Elsa e aprender a let it go. Não faz bem pra ninguém isso. Até o final do filme, ela tem o seu coração partido tantas vezes que mais parece uma das participantes do programa Rola ou Enrola da Eliana.

O filme propõe sugestões interessantes que justificam algumas das passagens mais clássicas do desenho. Como por exemplo, a sequência em que Malévola amaldiçoa Aurora apenas porque não foi convidada para a festa de batizado da menina. Quer dizer, vamos nos acalmar um pouco, minha senhora? Eventos em família como esse não são tão indispensáveis assim. Se estivéssemos falando de uma festa com Luciana Gimenez fazendo Meet and Greet pra postar as fotos no Instagram, aí tudo bem. Mas acho que dá para pular um batizado.

No fim das contas, a proposta Nolan-esque de procurar uma justificativa racional pode já estar cansando a fórmula (afinal não é a primeira, nem a segunda vez que percebemos essa tendência), mas pelo menos é algo mais enriquecedor pro contexto da trama do que um simplista “bota aí que ela é o capeta e vamos terminar com isso que tenho que passar madrugada em claro pra comprar ingresso da copa”.

Então vamos dar 5 pontos para os dois filmes.

2. Sidekick

E o que seria de uma grande vilã sem um grande e memorável aliado? Nada mais adequado para uma senhora de chifres e de pele verde que um corvo, certo? No desenho, seu principal companheiro é o corvo Diablo a quem ela chama de “meu bem”. O corvo sassy basicamente só faz jogar deboche pra cima de todo o elenco com seus side-eyes.

   

Mas ao contrário de Iago de Aladdin, que atua como um alívio cômico em contraste com a maldade psicótica de Jafar, Diablo é mais convincente em suas maldades: ele é a única criatura de todo o filme que Malévola confia e, justamente por essa lealdade, é ele quem descobre o paradeiro de Aurora, desaparecida durante quase 16 anos.

Uma pena que no final ele vira uma estátua de pedra quando tenta alertar Malévola sobre a fuga do príncipe Felipe, mas é um fim bem épico na verdade (basta lembrarmos de outros grandes vilões que também já foram transformados em pedras). Então até vale a pena, se é para ficar na companhia de pessoas como Bette Midler em Abracadabra.

No live-action, o parceiro de Malévola também é um corvo, mas não um corvo qualquer. Um corvo que foi o Ian Curtis do Joy Division. E não apenas o corvo que foi o Ian Curtis em vida passada, mas um corvo que também se transforma em ser humano, em um cavalo, em um lobo, em um dragão, na presidente da Petrobras Graça Foster… Enfim, qualquer figura estranha e ameaçadora.

Aliás, é engraçado como Malévola consegue transformar Diablo em todas essas opções, mas não consegue fazer crescer asas nas suas costas e nem aparatar em um castelo, tendo que cavalgar à frente de um clichê pôr do sol. Que bela magia, hein?

Por ter um parceiro que funciona como aqueles robôs-animais do Beast Machines, Maleficent ganha mais 05 pontos nesse quesito.

3. Atitude abrasiva

Antes de tudo, vamos lembrar que A Bela Adormecida é um desenho de meados dos anos 50/60. Estreou nos EUA e aqui no Brasil em 1959 direcionado para o público infantil, durante uma época conservadora. E, mesmo assim, o desenho tinha Malévola esbravejando contra todo mundo, xingando os outros de “idiotas” e “imbecis”, quando o máximo de xingamento que vemos na televisão hoje em dia é “tola” e “boba”. Temos que reconhecer.

Angelina até tenta e, embora ela consiga simular muito bem essa amargura de alguém que lê a sessão de comentários de notícias da Veja e conhece a fundo a podridão da nossa sociedade, ainda não chega nem perto do que se espera de alguém que anuncia sua cartada final com “Agora você se verá comigo e com todos os poderes do inferno“.

Afinal de contas, Malévola é quem verdadeiramente toma conta de Aurora (ela até a enxerga como a sua fada-madrinha, em mais um momento de auto-referência de Maleficent, que parece fazer às vezes de Encantada). Por mais que o filme tente pintar uma aura de que a protagonista perdeu a pureza de seu coração, na verdade o espectador consegue perceber facilmente que ela continua tão amorosa quanto antes. Só há uma (grossa) camada de rancor por cima, mas com o tempo isso se desfaz.

Então acho que não há discussão. 05 pontos para A Bela Adormecida.

Nosso duelo não estaria completo sem uma categoria para extrair o fator WTF-ness, então vamos seguir com…

4. Morte do feminismo

Muito se ouve sobre os clássicos Disney (principalmente os mais velhos) serem machistas por colocarem mulheres em posições muito fragilizadas e passivas, tendo sempre que ser socorridas por personagens masculinos: preferencialmente os príncipes. É um perfil que vem sendo criticado e combatido há muitas e muitas décadas, e que o estúdio tentou desvencilhar a partir de Mulan e mais diretamente com A Princesa e o Sapo, Valente e Frozen.

Em Branca de Neve, a mocinha é perseguida por sua madrasta, enganada, tem de ser socorrida pelos seus amigos e esperar pelo beijo de seu futuro marido para despertá-la. Em Cinderela, a mocinha é perseguida por sua madrasta (de novo), enganada (de novo), tem de ser socorrida pelos seus amigos (de novo) e esperar pela visita de seu futuro marido que literalmente espera que ela se molde às suas expectativas.

Na animação, a Aurora também não faz muito mais que suas colegas princesas e o máximo de ação que acompanhamos da loira é a sua cantoria idêntica a de uma tia do coral, mesmo tendo 16 anos (sério, quem canta assim?). Na trama, a princesa fica inconsciente pouco antes do terceiro ato da história e não participa ativamente do clímax da história que, teoricamente, é dela. Ela, obviamente, é incapaz de salvar a si própria.

Mas seria isso o suficiente para classificar como uma história machista?

Se percebermos bem, não é o príncipe Felipe o responsável por salvá-la, mas sim as fadas Flora, Fauna e Primavera. Vem comigo, vamos enumerar as tarefas que elas cumprem no filme: 1) abençoam Rosa e tentam suavizar a maldição que ela colocou; 2) cuidam da menina por 16 anos; 3) quando percebem que falharam, elas adormecem toda a cidade enquanto pensam numa solução; 4) descobrem que Felipe era o amante misterioso de Rosa; 5) e de quebra descobrem também que ele está sendo mantido refém de Malévola; 6) elas o libertam e o protegem do exército dela; 7) ajudam a cortar a floresta de espinhos; e finalmente 8) são elas que lançam a magia na espada de Felipe pra que ele possa derrotar o dragão em nome do Bem.

Percebem? Elas só não fazem beijar a Aurora, mas lesbianismo e incesto ainda não estava na agenda de debates da época.

Enquanto isso em Maleficent, as fadinhas não são nada além de completas imbecis que parecem sofrer de um transtorno bipolar. Não sabem demonstrar afeto (o que é compreensível, já que uma delas é a Dolores Umbridge de Harry Potter e a Ordem da Fênix, que nada sabe sobre empatia), não sabem como cuidar de um bebê, falham miseravelmente em todas as tarefas e nem se mostram abatidas quando Aurora é vítima da maldição.

Em compensação, o filme acerta ao mostrar que Aurora não precisa de um príncipe pra sobreviver, mas sim de uma “mãe”. Um amor materno que a guie e eduque. Nesse sentido, Maleficent acaba bebendo da mesma fonte de Frozen e, por mais que tenha tido um bom argumento, a reviravolta de ambos os filmes é tão parecida (e tão recente) que é impossível não ficar com um gosto amargo na boca de frustração.

Por isso, vou novamente distribuir 05 pontos para os dois filmes: A Bela Adormecida, pelas três fadas autosuficientes, que funcionam como as queridas tias de Rosa; e 05 pontos para Maleficent, já que Malévola atua como a madrasta de Aurora (uma madrasta bondosa, ironicamente).

Com tudo empatado, seguimos para o último e derradeiro requisito…

5. Chroma key menos óbvio

Eu sei que a cor preferida de Malévola é o verde, mas eles levaram isso um pouco a sério quando enfiaram o filme inteiro em um chroma key safado. Tudo bem que os efeitos estão incrivelmente melhor do que apresentaram no trailer (lembram quando analisamos o trailer e vimos que o filme parecia ser um episódio de Once Upon a Time?), mas ainda assim é um recurso que está se desgastando fácil.

Maleficent é um filme feito quase que inteiramente dentro do estúdio do mesmo diretor de Alice no País das Maravilhas que também foi feito dentro de um estúdio. Maleficent é estrelado por uma atriz que também atuou em outra produção dirigida inteiramente dentro do estúdio (Capitão Sky e o Mundo de Amanhã). E por fim, o longa é distribuído pela Buena Vista, que tenta buscar em Maleficent o sucesso que não conseguiram ano passado com Oz, Grande e Poderoso que é… um filme feito quase que inteiramente dentro do estúdio. Já pegaram a ideia, né?

A animação, dado o seu formato, não pode ter cenários “físicos” ou reais, mas pelo menos é por limitação da própria mídia e não por contenção de gastos. Por isso, mais 05 pontos para A Bela Adormecida.

E assim temos a vitória da Malévola de A Bela Adormecida. Confesso que antes de elaborar o post, achei que fosse ser uma luta desigual e que a animação iria esculachar Angelina, mas ela perdeu por muito pouco.

A verdade é que Malévola não é um filme ruim, mas também não é espetacular. A proposta do longa enquanto adaptação é bem interessante, mas tem furo seguido de furo, seguido de outro furo e seguido de mais furos que quando você chega no final fica com a sensação de que engoliu muita liberdade artística pra sair satisfeito da sessão.

Concordou com nosso duelo? Achou alguma categoria injusta? Comente e compartilhe.

Anúncios

4 comentários

  1. Bom, pra começo de conversa, Malévola é muito melhor que A Bela Adormecida. Até o visual e os figurinos são melhores! E outra, você deve ser míope, Marcos Paiva. Da onde uma vilã de 1900 e lá vai pedrada, ser melhor que uma vilã de 2014 ? Aliás, a Malévola 2014 nem foi vilã o filme todo. Ela até levou o príncipe até Aurora para que ele beijasse-a e a libertasse da maldição. Ela até tentou revogar o feitiço ! No fim das contas ela foi uma heroína. Ela foi traída, mas superou a mágoa que tomava conta de seu coração. Vê se toca !

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s