Investigando: Como A Culpa é das Estrelas é eficiente em te fazer chorar?

Em determinado momento de A Culpa é das Estrelas, quando o casal principal já voltou de Amsterdã e a trama caminhava para o trágico terceiro ato, uma menina na fileira atrás da minha comentou com um tom de nervosismo ensaiado: “Ai meu couro, é agora”. Com anos de Harry Potter e Jogos Vorazes nas costas, fãs que não calam a boca por sentirem a necessidade de mostrar aos outros no cinema que já leram o livro não é nenhuma novidade para mim. Faz até parte da graça de ver o filme no fim de semana de estreia.

Mas o que acontece é que você não precisava ter lido o livro (coisa que eu não fiz e nem pretendo fazer) para saber o que estava vindo. Na verdade, todo mundo naquele cinema sabia o que estava vindo, e eu não digo isso me referindo ao destino específico de personagens, mas sim à sensação de “eu vim ver esse filme porque ele vai me fazer chorar, e a hora é agora”. E foi difícil achar alguém com os olhos secos ao fim da sessão.

E não apenas na minha sessão, mas todas as pessoas que eu conheço que viram o filme contaram que choraram em algum momento (isso quem não chorou logo do início ao fim). Se todos nós sabíamos onde estávamos entrando, como exatamente A Culpa é das Estrelas consegue esse feito? Já pegue a sua caixa de lenços, porque é o que vamos descobrir no Investigando de hoje.

banner culpa das estrelas

O cinema te deve esse choro há alguns anos

Eu prometo que vou tentar evitar ao máximo entrar no tópico de como o cinema apresenta poucas opções para o público feminino, visto que isso já foi comentado aqui, aqui e aqui. Contudo, quando o seu filme tem 82% de público feminino no fim de semana de estréia, fica um pouco difícil deixar de lado esse ponto tão importante para o seu sucesso. Mas sabe uma outra coisa que anda sumida, além de filmes estrelados por mulheres? Filmes românticos.

Vamos fazer um experimento: tente se lembrar do último filme romântico que viu passar no cinema, deixando de lado filmes indies e adaptações de livros do Nicholas Sparks. Difícil, né? E embora o Sparks tenha virado uma marca própria que atrai um público fiel para qualquer nova versão das mesmas histórias que ele continua lançando, ele acabou ganhando uma imagem tão parodiável que alienou as outras pessoas que, só de ver os cartazes de seus filmes, já sabem no que tão entrando. Ajudaria também se os pôsteres variassem um pouco além de “casal branco quase se beijando”.

nicholas sparks

E os poucos filmes românticos que apareceram não supriram a necessidade de choro do público, ou vai me dizer que você não conseguiu conter as lágrimas quando Zooey Deschannel não ficou junto do Joseph Gordon-Levitt em 500 Dias com Ela, também conhecido como o novo Amélie Poulain na opinião dos pedantes? Precisamos lembrar que Um Amor para Recordar completa 12 anos em 2014, o que é a idade de muitas das leitoras de A Culpa é das Estrelas. Para alguns, esta é uma oportunidade para chorar um novo amor trágico. Para a geração de hoje que considera inexistente o período antes de seus nascimentos, é como se fosse viver um primeiro amor.

Obviamente que nenhum filme adquire o nível de frisson só por ser a primeira opção em algum tempo, ninguém ama As Bem Armadas só por ter sido a única comédia feminina do ano (bom, o Marco ama, mas não por este motivo). É preciso que o público aceite e se identifique com a sua história, e para isso…

Uma protagonista que você consegue gostar

shailene - movieSe um filme baseado no sofrimento do seus personagens quer dar certo, a primeira coisa que precisamos é ter alguém por quem nos faça valer a pena sofrer junto. Só imagine se o filme fosse estrelado por uma Lea Michelle ou aquela biscate de Skins que só tem uma expressão, você não ia achar um pouco mais difícil sofrer por alguém assim? Hazel Grace, pelo menos no filme, não parece uma personagem muito distinta. Ouvimos bastante de sua própria boca que ela vive uma vida desinteressante, que não é ninguém especial e que não tem uma grande história. Nada de “a escolhida”, ou “à bordo de uma missão importante”. Só uma garota comum, e você não precisa de um tanque de oxigênio afixado ao seu nariz para se identificar com isso. Qualquer garota pode conhecer esse personagem e exclamar “ei, eu sou desinteressante também!”, e é por isso que a escolha da Shailene para o papel se mostra muito acertada. Inegavelmente dona de uma beleza mais natural (e quase não usando maquiagem durante o filme), Shailene tem aquele desprendimento necessário pra gente poder se focar no filme, e não em como uma atriz bonita tá tentando nos convencer de que passa por menina com câncer.

O maior sofrimento per capita em filme

TFIOS-tissue-Confesso que fui ver o filme sem saber que o personagem do interesse romântico, Augustus, também tinha sofrido de câncer. Até aí tudo bem, mas comecei a ver que eu não conhecia nem um pouco a história que eu tava entrando quando descobri que o sidekick melhor amigo do casal, que neste post aqui eu mencionei que usava os óculos wayfarer para provar que este e The Spectacular Now eram o mesmo filme, era na verdade cego. E agora pensando, todos os personagens no filme sofrem de algo. Não conseguiu se identificar com o câncer testicular do líder do grupo de apoio? Não esquenta, que tal o drama da mãe da Hazel cogitando o que acontece com ela depois que ela deixa de ser mãe? Até quando eles vão para a Holanda o escritor ídolo da Hazel sofre de algo que é melhor não comentarmos pra não irritar quem ainda não viu o filme.

Percentualmente falando, nem Titanic tinha tantos personagens sofrendo assim (alguns dos ricos só desceram do navio pro bote e consideraram aquilo uma típica noite de quarta, vamos combinar).

O interesse romântico perfeito

Se você é uma garota nova e impressionável que ainda está aprendendo sobre a vida lendo este post, o melhor conselho que eu posso lhe dar é que o Augustus não existe. Eu sei, você pode ficar confusa e querer contra-argumentar, mas é melhor entender isso agora e te economizar ansiedade e decepção do que crescer com a ideia de que existem garotos assim por aí. Augustus é a personificação do parceiro perfeito, que apareceria na vida de uma garota para lhe dar sentido e dizer que tudo vai dar certo. Lá no fundo, a maioria do público entende que o charme do Ansel Elgort, sabendo o que falar e como agir a cada segundo é um ideal que só podemos ter no cinema, e é por isso que começa a obsessão com a história.

ansel

Por mais sexista que isso pareça (e na verdade é), um filme romântico só é tão bem sucedido quanto o homem que eles querem vender como o namorado ideal. Imagine Diário de uma Paixão, provavelmente o maior exemplo da década passada, sem Ryan Gosling. Mesmo com a Rachel McAdams sendo uma protagonista carismática e complexa, o que ela faria se não tivesse o amor do menino sulista para lhe confortar? Trabalhar? Ter uma carreira acadêmica? Esses filmes funcionam porque sabem da insatisfação na vida real que todos temos com os nossos parceiros, e alçam os seus personagens masculinos a um patamar inalcançável que vai fazer com que muitas meninas repensem os seus relacionamentos ao fim da sessão. Se você já viu o filme, você também sabe que o que te faz chorar é ver o que o destino reservou para um personagem tão perfeito.

O filme tem todos os clichês de filmes de romance, mas que você quase nunca vê

Se você viu o trailer de A Culpa é das Estrelas (e levando em conta que o vídeo oficial tem mais de 22 milhões de visualizações e você está lendo esse texto, você provavelmente viu) você sabe exatamente como o filme começa, acaba e termina.

Em um parágrafo sobre Gravidade no meu ranking de filmes indicados ao Oscar eu comentei o quanto da experiência sensorial e física uma sessão de cinema pode possuir, e embora eu não esteja nem de longe dizendo que o romance adolescente aqui em questão esteja em nível próximo do filme de Alfonso Cuarón, tem algo de muito básico na experiência de comunhão que é uma sessão de A Culpa é das Estrelas. Somos ensinados ao longo dos anos que tudo é muito clichê, e que nada é realmente novo. Mas sabe porque continuamos a nos recostar em clichês para contar nossas histórias? Porque eles funcionam.

tfios-still-01

Quando a gente começa a ver um filme, mesmo que sabendo pouco da história, uma série de expectativas já estão em nossas cabeças, e é com elas que um filme no fim das contas tem que enfrentar o seu resultado. Todo o material de divulgação do filme esforçou-se a passar um determinado sentimento de “filme grande e honesto”, do tipo que não temos há algum tempo. Em uma época em que somos guiados a assistir o filme milionário de super-herói que se linka com mais outros 15 filmes de uma mesma franquia, A Culpa é das Estrelas subverteu as regras não por nos entregar algo novo e inesperado, mas justamente por voltar ao básico, colecionar os clichês de um filme romântico como se estivesse riscando itens em uma lista de supermercado (a trombada inicial que faz com que o casal se conheça, a menina fazendo jogo duro, a viagem romântica internacional), e que por algum motivo andam desaparecidos do cinema, e entregou um produto tão bem amarrado que conseguiu a façanha de alinhar as expectativas do público em perfeita sincronia com o filme que eles apresentariam.

Mérito aqui dos roteiristas e produtores (com passagens pelos já mencionados 500 Dias com Ela The Spectacular Now), que resolveram pela abordagem Jogos Vorazes da coisa – um bom elenco (os veteranos tão bons quanto os novatos), um roteiro fiel em cima de um orçamento sem exageros e um resultado final que agrada tanto os fãs da obra original quanto os não iniciados. Quando você chora na cena final que termina com uma esperada montagem dos bons momentos do casal, você chora sim pelo câncer, pela perda e pela rapidez com que a gente pode estar aqui e logo em seguida não estar mais. Mas você também chora porque de vez em quando Hollywood se lembra do poder de sugestão e fantasia que possui e lança um filme tão redondinho, bonito e satisfatório que parece aquela primeira taça de sorvete cheia de calda depois de uma dieta. Não devia te fazer bem, mas o gosto é tão bom que você não consegue evitar ficar com os olhos um pouquinho marejados.

E é isso neste Investigando de hoje. Consegue pensar em outros motivos? Não conseguiu ler porque ainda não superou a ressaca de choro do filme? Não deixe de nos dar a sua opinião aqui embaixo nos comentários, okay? Okay.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s