Crítica: “Violette”

As cinebiografias, tendência comum do atual cinema mundial, tem ganhado mais espaço junto ao público graças ao seu interesse em conhecer mais sobre seus artistas preferidos – ou ser apresentado a aqueles que a História não foi tão generosa. O segundo caso parece ser o mais próximo da história de Violette Leduc, a protagonista do filme homônimo.

A produção conta a trajetória da autora francesa a partir da 2ª Guerra Mundial e a sua trajetória enquanto escritora até pouco depois do lançamento de seu livro mais famoso, A bastarda. Em vez de se concentrar em apenas um período fechado de tempo, como ocorre em outras biografias como Camille Claudel 1915 ou Hannah Arendt, o filme pretende abordar o início do flerte entre Violette a literatura e o seu envolvimento e maturidade com o ato de escrever.

Leia nossa crítica abaixo.

Nascida bastarda, bissexual e de pensamentos feministas, nem é preciso dizer que Violette sofreu muito de inadequação social. Tendo que sobreviver do mercado negro enquanto o mundo mergulhava nas dificuldades econômicas da 2ª GM, o filme começa justamente com a prisão da loira enquanto contrabandeava comida.

O filme acerta ao problematizar algumas dessas questões e, sem jamais mitificar a biografada, o diretor Martin Provost traz um retrato bem cruel e direto da escritora. Intensa, extremamente carente e necessitada de atenção (uma personagem em um momento específico do filme a define como “uma alma sedenta por amor”), Violette surge em cena como alguém obcecado por seu alvos de afeição e idolatria. Conforme os capítulos de divisão da história progridem, a paixão de Violette muda o foco: primeiro Maurice Sachs, depois Hermine, Simone de Beauvoir…

 Inclusive, boa parte da publicidade do filme faz uso do envolvimento entre ela e Simone (a Castor, como é chamada pelos seus amigos, pela semelhança entre as palavras Beaver e Beauvoir e ao fato de ser um animal construtor em simbologia com as ideias filosóficas de Beauvoir). Quem for assistir o filme esperando a “relação lésbica” entre a autora de O segundo sexo e Violette pode ter suas expectativas frustradas, já que até mesmo amizade era algo fora de cogitação: “você sabe que é impossível ser amigo de Violette. Eu apenas cumpro meu dever”, justifica Beauvoir em um momento do longa. O que supostamente é vendido como uma troca de amor, no longa acaba resultando em uma obsessão desvairada que vai levar o relacionamento das duas a diversos empasses.

Felizmente, esse oportunismo mercadológico não ofende Violette enquanto filme. A produção levanta alguns itens importantíssimos para a discussão do feminismo da época como a luta da beleza ideal, o sucesso profissional e a independência financeira da mulher, mas sem tratá-los com desonestidade e didatismo (“ei, veja como essas questões ainda são atuais!”). Muito pelo contrário, o diretismo com que Violette enfrenta estes temas é assustadoramente cru – e cômico às vezes também (a sequência em que ela discute com a dona de livraria sobre o lançamento do livro A asfixia, por exemplo). Os momentos em que ela se lamuria e cai no melodrama são hilários quando postos em contraste com a atitude pragmática e impaciente de Beauvoir.

O verdadeiro tour-de-force, no entanto, é a atuação de Emmanuelle Devos como a protagonista do longa. Mesmo interpretando uma personagem obcecada, emocionalmente fragilizada (por vezes excessivamente melodramática), Devos consegue achar um equilíbrio para manter esses sentimentos em ordem e em cheque com o público. Enquanto a heroína sofre de autocomiseração, a plateia evita julgar a escritora e, mais do que isso, se coloca no lugar dela. Um sentimento de identificação que enraiza fundo principalmente nos conceitos mais universais que traz Violette. É muito provavelmente a sua melhor atuação desde Reis & Rainhas (e ela já foi indicada aqui no Anfitrião por seu papel coadjuvante em Coco antes de Chanel).

Sandrine Kiberlain não faz feio e também convence no papel de uma das feministas mais importantes da história (aliás, curioso como o único produto audiovisual que existe da autora seja somente um telefilme qualquer dos anos 2000, não?) e Catherine Hiegel rouba a cena como a mãe imatura da protagonista que, mesmo rejeitando a filha, possuem uma adorável dinâmica.

A direção de Provost e montagem de Ludo Troch também merecem destaque. Mesmo apelando para alguns cortes brutos e secos (mesmo que tente suavizá-los com alguns fades, a linha narrativa sofre trancos muito sérios), a história flui tão bem que as mais de duas horas de filme jamais pesam. Pelo contrário, elas apenas enriquecem a trajetória literária da autora e os seus questionamentos, mesmo aqueles em que ela indaga porque tudo é sempre mais difícil ou quando revela que está envelhecendo e que ninguém a quer. Passagens que podem não trazer nada de relevante a princípio, mas que ajudam a caracterizar e definir Violette.

Mas qual a funcionalidade de ter apenas mais uma biopic? É certo que recorrer para “histórias verdadeiras” pode não ser o caso mais original de produção cinematográfica, mas mesmo assim é bem pouco o número de produções que posicionam a mulher enquanto protagonista. Imagine os veículos que tratam daquelas que realmente existiram? Ainda menor.

Mais do que dar prosseguimento a sequência de biografias de artistas, Violette traz um outro diferencial: discutir a literatura.

Pode parecer estranho usar uma mídia para discutir outra – embora já tenha sido feito antes -, mas sendo um longa sobre uma relação entre duas grandes escritoras é natural que essa conversa venha à tona. E Provost provoca isso com muita naturalidade: o que define um grande escritor? Como deve ser o processo de escrita? Violette (e Emmanuelle, é claro) se entregam veementemente a esse desejo e o resultado é o belíssimo filme. Esperamos por mais exemplos assim.

Violette 
idem, França, 2014, drama, 139min. De Martin Provost. Com Emmanuelle Devos, Sandrine Kiberlain e Catherine Hiegel.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s