Crítica: “Isolados”

Se alguém me chamasse para assistir Isolados, filme de terror dirigido por Tomas Portella e estrelado por Bruno Gagliasso e Regiane Alves, minha provável primeira reação seria um sorriso amarelo achando que a pessoa em questão está fazendo uma brincadeira comigo, mas que logo se tornaria em uma franzida de testa caso o convite fosse real, significando que a nossa amizade já tinha chegado ao fim por diferenças irreconciliáveis.

Mas pensando durante alguns minutos, será que é realmente uma ideia tão absurda? Não é novidade nenhuma o quanto eu me interesso pelo gênero de terror, como já escrevi aqui no Anfitrião, e mesmo com o desenvolvimento do cinema nacional colocando produtos para bater de frente com estreias americanas (apesar da maioria deles envolver algum comediante em um cruzeiro, por algum motivo), não é todo dia que podemos ir ao cinema e ver um filme nacional que tenta fazer algo em um gênero tão negligenciado por aqui.

Portanto eu paguei os meus oito reais da meia entrada no pior cinema da cidade (tudo bem que Niterói só tem dois cinemas, mas esse era o único que estava exibindo o filme), me ajeitei na melhor opção para não doer o pescoço (visto que a sala deve ser uma das três do Brasil que não é stadium) e pensei que não dava pra ficar muito pior que isso. E spoiler: eu estava enganado.

Por falar em spoilers, que fique claro que este texto está repleto deles, então se você realmente tem interesse em assistir esse filme só continue lendo se não se importar em ter vários detalhes da trama revelados.

Não há motivo nenhum para o terror ser um gênero tão subdesenvolvido no Brasil, não só por já possuirmos uma figura de avô do gênero em Zé do Caixão por toda a sua contribuição no cinema, mas também pelas inúmeras possibilidades que a nossa dimensão geográfica proporciona. Basta pensarmos em quanto o Nordeste poderia ser aproveitado como cenários de produções no estilo de Wolf Creek e O Massacre da Serra Elétrica, o misticismo e o folclore do Norte muito poderiam ser base de uma espécie de True Blood brasileiro e a violência de centros urbanos como Rio e São Paulo parecem prontos para receber uma abordagem do filme estilo The Purge.

Isolados se passa na região serrana do Rio, que não é das nossas locações mais carismáticas, mas pelo menos não é dentro do Projac. O filme começa com uma cena de uns 10 minutos com uma menina pendurando roupa em um varal com uma trilha sonora tão estridente que você vai achar que entrou por acaso em uma sessão de Transformers: Serra da Mantiqueira de tão over the top que é.

Depois de realizar mais algumas tarefas da casa (em um bem conduzido plano-sequência), a menina vai até a nascente de um rio onde é assassinada por alguém com um facão. Seu sangue jorra pela mangueira conectada ao rio, o que é mais desconfortável do que assustador por vermos alguns minutos depois o nome da Itaipava e imaginar que aquele é o rio que provavelmente usam na produção da cerveja.

Seguimos com os créditos e o nome do filme na tela, e vemos o nosso odiosíssimo casal principal pela primeira vez. Bruno Gagliasso é Lauro, um nome sério para tentar tirar da nossa cabeça o fato de que ninguém se convenceria com Bruno Gagliasso interpretando médico. Regiane Alves é Laura Renata, mas deixaremos para analisar com atenção o seu personagem mais adiante, visto que no começo ela aparenta ser apenas uma mulher depressiva/de luto/putíssima de subir a serra com a ressaca batendo.

Ao pararem em um posto de gasolina-buteco-mercadinho(?), o vendedor questiona Lauro se ele realmente quer ir para essa região isolada, visto que dois maníacos estão matando e estuprando as vítimas depois de mortas, e o nome do filme nesse momento deveria virar DEATH WISH porque o Bruno parece não dar uma foda pra isso e pede para que o moço não conte nada para sua esposa, porque ela se assusta fácil e a ultima coisa que ela precisa indo pra uma casa isolada é a informação prévia de que deve ter um maníaco embaixo da cama (até porque quem não se assustaria fácil nesse cenário, né?)

Chegamos a casa onde encontramos Juliana Alves como empregada e, ao invés de pensarmos qual seria a probabilidade de vermos a Juliana estrelando o filme e uma atriz branca de empregada, porque não fazemos um TOUR VIRTUAL na casa através do game presente no site oficial de Isolados? Confiram as imagens:

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Uma eloquente lareira que ocupa metade da sala e mais parece aquela choupana que o Topo Gigio carregava na cabeça

isolados casa1

O clima romântico de ter um abajur conceito Tok Stok com uma desnecessária vela acesa ao lado

Já hospedados, a vibe Anticristo com alterações o bastante para não garantir um processo (coisa com que Leandro Hassum não teve o mesmo cuidado segundo o trailer de O Candidato Honesto, que parece uma cópia de O Mentiroso só que em Brasília) começa com as revelações de que Lauro é um médico psiquiátrico e Renata uma ex-paciente com quem ele acabou se envolvendo. Sabemos isso porque os dois mencionam em conversas extremamente não espontâneas, sem a necessidade dos flashbacks cujo único motivo de estarem no filme parece ser para a filha de José Wilker (a roteirista de Isolados) criar um personagem para o seu pai atuar.

Os flashbacks são tão mal colocados, na verdade, que depois que o filme atinge a metade de seus 90 minutos eles simplesmente param de acontecer porque parece que até os realizadores notaram que nem esse artifício estava dando certo pra distrair do fato que o filme não tem história suficiente pra sua duração.

Grande parte da crítica que cobriu a estreia do filme colocou logo no título de seus textos como Isolados era influenciado por produções como O Iluminado e Sob o Domínio do Medo, mas o que eu realmente sinto é que o filme é na verdade um balaio doido de diversos filmes do gênero de um escalão menor. Onde dizem ver O Iluminado, parece mais aquele remake horrível de Horror em Amytiville do Ryan Reynolds. A invasão domiciliar tenta canalizar Os Estranhos da Liv Tyler, e falha em emular um filme que já era horrível por si próprio.

Sem saber se é um terror psicológico ou filme de serial killer na cabana, Isolados atira para todos os clichês de filmes de terror que não são nem cabíveis com a história e, pior, todos eles através da personagem de Regiane Alves, que parece tanto uma colcha de retalhos em forma de personagem que merece até o seu próprio quadro de exemplificação.

(e isso porque eu não consegui a imagem de quando a personagem coloca um vestido vermelho e age como puta possuída tipo Michelle Pfeiffer em Revelação)

Em entrevista ao UOL, o diretor Tomas Portella disse que a intenção do filme era que ficasse próximo a outros do gênero de terror, e que acusações de similaridades eram elogios porque esse tipo de filme tem uma série de códigos a seguir, mas ficou a dúvida se ele realmente entende quais são os códigos desejados pelo espectador de um filme de terror. O filme basicamente não possui sangue, é impossível se identificar com o casal protagonista e sua suposta luta pela sobrevivência porque eles não se comportam como nenhuma pessoa agiria em tal situação (ainda mais alguém que possui uma arma e prefere lutar com uma faca), e os assassinos que supostamente conhecem a região como a palma da mão só conseguem atacá-los quando eles correm para o carro, desconhecendo que o Lauro e a Renata  possuem uma casa e estão escondidos nela.

Contudo, credibilidade não é nem de longe o principal problema do longa, mesmo porque até os melhores filmes de terror nos pedem que aceitemos situações que não seguem nenhum tipo de racionalidade, mas falta ao projeto o menor senso de diversão, e esse é o maior pecado que um filme de terror pode ser: chato. Quando se tem um elenco tão bonito quando Bruno Gagliasso e Regiane Alves em um filme de um gênero conhecido pelo seu apreço por nudez gratuita, porque não fazer um filme que tivesse o mínimo de sensualidade? Que pelo menos fosse ridículo do início ao fim como em alguns momentos em que Regiane Alves tem que atuar possuída e que parece que o filme vai entrar num (bem vindo) território camp?

Isolados não é o pior filme nacional que eu já vi, mas é uma oportunidade perdida de um projeto que tinha muito mais potencial e responsabilidade de abrir portas para um gênero que tem tanto a adicionar ao nosso cinema, e falha de um jeito tão sem personalidade que não representa em nada o toque brasileiro que a gente pode dar ao terror. Eu já vi a Xuxa ser torturada em Xuxa fucking Requebra, pelo amor de deus, sei que um bom filme de terror com a nossa cara está para chegar. Infelizmente eu estou aqui para dizer que Isolados ainda não é esse filme. Ou então você pode acreditar na opinião de Preta Gil aí embaixo.

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2 comentários

  1. Kkkkkkkkkkk…….muito ruim mesmo!!, amei sua critica, perfeita. Não conseguria escrever melhor, um balaio doido, afinal?, quem era Lauro e Renata…. Tem parte II para se entender!!… Affffff

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