Festival do Rio: Whiplash, It Follows e Obvious Child

E é aquela época do ano de novo. De obsessivamente procurar na lista de filmes pérolas que talvez você não tenha prestado atenção na primeira vez, de se chocar com a tradução horrível que alguns filmes receberam e de ver se o que você se interessou já não está disponível para download, para não dar viagem perdida. Enfim, é época de Festival do Rio.

É sempre curioso reparar na atmosfera que cerca festivais dessa natureza. Por um lado temos gente sentada dentro do Estação fazendo listas de páginas e páginas dos filmes que tem interesse, inclusive de filmes que dias depois estreariam em circuito comercial (Garota Exemplar). Pelo outro, pessoas que nitidamente não fazem ideia do filme que estão entrando, como se aquilo fosse uma fila que você sabe que está dando algo no fim, mas não exatamente o quê.

Nesse primeiro combo de críticas nos focaremos em filmes que eu acompanhei no primeiro fim de semana do festival, começando pelo drama musical, fazendo uma parada no terror adolescente e terminando os trabalhos em uma refrescante comédia de aborto. Vamos lá.

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Whiplash – Em Busca da Perfeição

whiplash

Nossa tendência aqui no Anfitrião é sempre dar mais foco aos personagens femininos e as atrizes que lhes dão vida, mas nos dê licença, Shailene Woodley, porque agora precisamos falar sobre o seu amigo de telas em The Spectacular Now e Divergente, Miles Teller.

Estrelando Whiplash como o focado e antissocial Andrew, Teller entrega a melhor atuação de sua carreira, e ainda consegue esse feito tendo que contracenar com o sempre excelente JK Simmons, que finalmente parece conseguir um papel à sua altura. A dinâmica de mentor exigente arrancando o que pode de seu aprendiz pode ser relacionada com o que vemos da atuação dos dois em cena, em um jogo de ação e reação com duas das performances mais explosivas que eu tenho na memória recente.

Então esse é mais um daqueles “filmes de atuação” (Dúvida, Álbum de Família) que vemos ao longo dos anos no Oscar? Sim, mas não só isso. Simmons e Teller já são os frontrunners para indicações de ator coadjuvante e principal, respectivamente, mas suas atuações trabalham a favor de uma história tensa, fechada e envolvente. Você não precisa ter o menor interesse por jazz (como eu) para se identificar com os temas universais de até onde estamos dispostos a ir para sermos o melhor em algo, e qual o limite ético de um professor impulsionando um aluno ao seu objetivo final. E se as atuações pulam tão energeticamente para fora da tela é porque o trabalho de direção também merece ser reconhecido. O diretor Damien Chazelle se mostra um mestre em como construir tensão, e a edição de Tom Cross, intercalando cortes como se seguissem o ritmo da bateria, faz com que você saia do cinema literalmente sem fôlego.

Não espere uma história padrão de aprendizado como Mr Holland – Adorável Professor ou Whoopi Goldberg ensinando as freiras a cantar em Mudança de Hábito. Whiplash funciona mais como um Cisne Negro, se esse filme transpusesse as alucinações sofridas por Natalie Portman para a figura de um mentor fisicamente e psicologicamente abusivo, te desafiando a ser mais do que um fracassado. Desde já um dos melhores do ano.

Corrente do Mal (It Follows)

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It Follows recebeu um título nacional tão ridículo (Corrente do Mal) que mais parece paródia dos irmãos Wayans daquele filme do Haley Joel Osment que ele morre com uma faca no bucho. O bom é saber que isso em nada reflete a qualidade do filme.

It Follows foi a minha maior aposta no escuro deste festival. Possui 100% no Rotten Tomatoes, mas não tem nem um trailer disponível ainda e eu não sabia basicamente nada sobre a história, mas me lembrou que nesta época de teasers e trailers, as vezes ir sem nenhuma ideia do que será jogado a sua frente é a melhor coisa que podemos fazer para apreciar um filme.

A história tinha tudo para ser ridícula, e eu me manterei breve para não revelar o mínimo possível da trama: trabalhando com um conceito de “maldição sexualmente transmissível”, o filme coloca nossa heroína sendo perseguida por uma figura que anda lentamente em sua direção. E é isso.

Há muito o que elogiar em It Follows. A magistral primeira cena, um plano-sequência de uma garota correndo a esmo na rua, já dita o tom de estranheza do filme e já dá indícios do talento de David Robert Mitchell com condução de câmera, fazendo o filme parecer ter um orçamento muito maior do que a provável coxinha e guaracamp que custou. A trilha sonora de Disasterpeace, compositor emergente de jogos, tem a mistura ideal de 8-bit, sintetizadores e homenagem à trilha sonora clássica de Halloween, deixando até as cenas mais banais estilosas, porém soturnas.

É notável também como o filme escapa do campo comum de tratar a maldição sexual como uma punição corpórea, como no recente Contracted, e utilizando-a como metáfora para o fim da infância, as barreiras que somos impostos por figuras paternas (inexistentes no filme), e a inevitabilidade de um mal que se aproxima, e mesmo que se transmitido para outra pessoa, continua a te observar. Construído inteiramente em cima de uma atmosfera de devaneio sem um tempo estabelecido (leitores eletrônicos se contrapõem a telefones fixos com linha e TVs sem cores), It Follows consegue aliar pretensões artísticas sem se esquecer de que é sim um filme de terror, e isso é um feito que poucos filmes recentes podem se dar ao luxo de afirmar terem conseguido.

Obvious Child

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Sejamos honestos, embora a Jenny Slate recuse o título de que esse filme é uma comédia-romântica de aborto, ela provavelmente tem ciência de que esse é o aspecto mais importante do longa, ou isso não seria mencionado em todas as entrevistas e textos sobre o filme. Para assistir Obvious Child, eu tive que passar por cima de alguns conflitos pessoais. O primeiro é que não suporto a Jenny Slate. Nunca vi graça em seu tipo de humor, a sua aparição em Parks and Recreation foi uma das gotas d’agua para eu abandonar a série (embora ela já estivesse bem distante da excelente série que um dia já foi) e eu também já tenho uma repulsa natural por qualquer coisa que envolva stand up comedy. Então resumindo, eu sou do público que está aqui só pelo aborto.

Claro que para chegarmos nesse estágio da história, precisamos que ela antes conheça o homem, engravide, e nisso acompanhamos o fundo do poço que a sua personagem se encontra, levando um pé na bunda do seu namorado e tendo a livraria onde trabalha sendo vendida, lhe dando algumas poucas semanas antes de perder o emprego. Obviamente, seu personagem reage a tudo isso agindo como uma criança irresponsável, porque é assim que a Lena Dunham ensinou ao público que é como todos os millenials se comportam, indo resmungar com os pais ricos dizendo que não precisam de seu dinheiro porque eles vão tomar iniciativas correndo atrás de um emprego sendo quirky e se escondendo dentro de caixas de papelão (isso literalmente acontece no filme).

Obvious Child não é nem de longe odioso como Frances Ha, visto que a trama melhora bastante quando gira em torno do aborto em si. A dinâmica do casal principal é boa quando se tratam como pessoas que não tentam ser um produto irônico da nossa geração, mas é difícil espantar a sensação de que o filme, no fim das contas, foi mal cozido. O único personagem bem desenvolvido é o da Jenny, sendo todos os outros genéricos e apenas estando lá, e mesmo assim não escrita de um jeito que você consiga ter algum tipo de empatia por ela.

A estreia de Jenny Slate carregando seu próprio filme com certeza tem o poder de colocar a atriz no mapa como uma espécie de estrela indie, e se a sua intenção foi de algum modo trazer o debate para um assunto delicado, a tentativa é justa. Agora custava ela ser ao menos um pouco mais interessante?

 ***

E é isso por hoje, não se esqueçam de dividir a sua opinião conosco, mencionar qual filme deveríamos ter prestado mais atenção no Festival e aparecer aqui para o segundo round de críticas sobre essa semana final do Festival do Rio. Até mais =)

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