Melhor Atriz: três tópicos para discussão

Em poucas horas, saberemos os indicados desse ano ao Oscar e durante semanas cinéfilos por toda parte vão lamentar quem foi esnobado, quais atores foram esquecidos, quais filmes merecem ganhar e todas as outras discussões típicas entre aqueles que acompanham a premiação durante anos e anos.

Esse ano, em vez de fazer uma lista previsível e reproduzir os mesmos nomes que você pode encontrar em qualquer lugar na internet, vou fazer uma análise mais aprofundada da categoria que mais me interessa: a de Melhor Atriz. Isso mesmo, nada de Beneditc Cumberbatch ou Michael Keaton por aqui. Já discutimos o papel da mulher no cinema aqui no blog várias vezes e hoje não é diferente.

Vou comentar sobre as prováveis indicadas e também levantar importantes tópicos que acho que merecem ser discutidos.

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Primeiro comecemos com…

1- Os prêmios precursores

Teoricamente, cada premiação possui sua própria ideologia, seus próprios critérios e sua própria base de pensamento de forma a se sustentar por conta própria. No entanto, o que vemos é um amontoado de premiações genéricas que existem apenas para viver de termômetro de Oscar. E eu não estou me referindo apenas a associações de críticos que agora qualquer fundo de quintal tem (ainda mais agora que cada estado tem uma ou mais), mas até mesmo a premiações mais sérias como o Globo de Ouro, o Critics Choice, o SAG Awards e o BAFTA.

Mesmo possuindo diferenças estruturais, as instituições continuam se espelhando quase que exclusivamente no Oscar. O Critics Choice escolhe 6 indicados por ano e a teoria que tem se provado certa é a de que os atores são selecionados seguindo o critério: “os prováveis cinco indicados + aquele que também tem chances”. O BAFTA, considerado o Oscar inglês, em vez de querer se distanciar e apresentar sua própria personalidade, muitas vezes parece fazer concessões buscando aceitação da mídia americana. Timothy Spall, por exemplo, um grande e respeitado ator britânico, que venceu o prêmio de Melhor Ator em Cannes por seu papel em Mr. Turner foi completamente esnobado em sua terra natal, a troco do americano Jake Gyllenhaal, no provável oscarizável O abutre). Já o Globo de Ouro vive em uma constante autosabotagem, indicando filmes dramáticos, como Birdman, Trapaça e Sete dias com Marilyn, na categoria de “comédia” e ignorando as verdadeiras comédias insinuando que essas, justamente por serem comédias, são menos merecedoras de prêmios.

A falta de criatividade de todas essas instituições ao citar sempre os mesmos nomes anula qualquer chance de atuações como as de Scarlett Johansson, em seu melhor ano entregando três atuações de respeito (como protagonista em Lucy e Sob a Pele, e coadjuvante em Capitão América). Tilda Swinton, já esnobada em 2011 por Precisamos Falar Sobre Kevin, foi completamente ignorada esse ano por Amantes Eternos. Ou mesmo Shailene Woodley, transformada numa nova commodity com o lançamento de Divergente e A Culpa é das Estrelas, e até mesmo Keira Knightley, em uma de suas melhores atuações em Mesmo Se Nada Der Certo (mas se ela voltar a usar corselete e grandes e elaboradas perucas de época, daí ela volta a ser um contender, pois estamos falando de um filme “sério”). E o fato de todos simplesmente ignorarem Marion Cotillard em Era uma Vez em Nova York é algo inexplicável para mim.

2- As malucas leis de qualificação

Quando falamos em Oscar, imediatamente pensamos em “Os Melhores do Ano”. Ok, pode até ser, mas fica difícil pensar em “melhores do ano” quando damos uma olhada no cronograma de lançamento dos maiores oscar-hopefuls da temporada: a gigantesca maioria tem estreia programada para os últimos meses do ano para o filme ficar mais fresco na memória do votante e conseguir mais votos. Como podemos pensar em “o melhor do ano” se os filmes ditos “melhores” estream todos na mesma época? É o “melhor do ano” ou “melhor de dezembro”?

Se essa decisão em si já é problemática o que dizer daqueles que levam esse truque quase que em seu sentido literal?

Por exemplo, para um filme qualificar para a disputa da Academia, as regras exigem que ele estreie em um número mínimo de salas durante pelo menos uma semana em regiões específicas (como Los Angeles, a capital de Hollywood). A Última Estação, por exemplo, estreou em uma única sala em LA por uma semana e assim conseguiu se eleger e emplacou Helen Mirren como uma das cinco melhores atrizes de 2009.

Estreias limitadas assim não são raridades. Esse ano o mesmo ocorre com as duas maiores concorrentes ao prêmio. Tanto Still Alice de Julianne Moore, quanto Cake de Jennifer Aniston, ainda não estrearam no circuito comercial americano: ambos os filmes tiveram estreias limitadas em pouquíssimas salas (o primeiro no primeiro final de semana em dezembro, e o segundo no dia 31) e esperam lançamento nacional pós-anúncio dos indicados (Still Alice, inclusive, estreia exatamente nessa sexta-feira, um dia depois da divulgação, para aproveitar o máximo possível do momentum). É justo que as maiores competidoras ao título de Melhor Atriz do Ano estejam em filmes que não estrearam e que ninguém viu?

As exigências da Academia são tão arbitrárias que, mesmo permitindo ações absurdas como essa acima, impõem uma série de restrições sem sentido. Uma delas, por exemplo, é a de proibir indicações de filmes que foram exibidos na televisão antes de estrearem nos cinemas. Por conta disso, a campanha para Essie Davis, do terror The Babadook (tão admiravelmente defendida pelo A.V. Club) como uma possível candidata é imediatamente descartada. O filme, apesar de contar com uma intensa e surpreendente atuação da australiana, é deixado de lado simplesmente porque foi exibido primeiro na Direct TV antes de chegar às salas.

Só resumindo: um filme que passou primeiro na TV e depois seguiu para o circuito comercial é impedido de concorrer, enquanto que as duas favoritas ao prêmio estão em filmes que ainda não estrearam. Isso fez algum sentido para alguém?

3- O mundo não vive só de Meryl Streep

De imediato, digo que se há uma categoria que é generosa com novos talentos é a categoria de Melhor Atriz. Seria injusto acusar o prêmio de ser uma panelinha, fechada a novas revelações, quando comparamos com o seu correspondente masculino.

Desde os anos 2000, apenas 3 homens em papéis de revelação foram indicados: Adrien Brody (O pianista) em 2002, Ryan Gosling (Half Nelson) em 2006 e Jesse Eisenberg (A rede social) em 2010. Já na categoria feminina, nada menos do que 9 atrizes foram indicadas nas mesmas circunstâncias: Keisha Castle-Hughes (A encantadora de baleias) em 2003, Catalino Sandino Moreno (Maria cheia de graça) em 2004, Marion Cotillard (Piaf) e Ellen Page (Juno) em 2007, Carey Mulligan (Educação) e Gabourey Sidibe (Preciosa) em 2009, Jennifer Lawrence (Inverno da alma) em 2010, Rooney Mara (O homem que não amava as mulheres) em 2011 e Quvenzhané Wallis (Indomável sonhadora) em 2012. Esse ano, é provável que Rosamund Pike (de Garota exemplar) e Felicity Jones de (Theory of everything) sejam as mais novas debutantes desse título.

Claro que isso é mais um reflexo do sexismo presente na Academia, afinal isso só confirma o quanto o Oscar gosta das suas mulheres jovens e no início da carreira (29 é a idade mais comum de uma vencedora do prêmio, enquanto que apenas um homem venceu com menos de 30 anos).

No entanto, é mais comum ver no grupo feminino as mesmas indicadas aparecerem mais vezes. Enquanto que entre os homens temos uma maior variedade de atores que revezam entre si, na categoria feminina, estamos destinados a ver sempre os mesmos nomes: Meryl Streep (18 indicações, 15 na categoria principal), Judi Dench (7 indicações, 5 na principal), Kate Winslet (6 indicações, 4 na principal), Cate Blanchett (6 indicações, 3 na principal), etc. Esse ano corre o risco de termos Meryl mais uma vez entre as indicadas. Não na categoria principal (já que ela concorre como coadjuvante por Into the Woods), mas para isso Meryl arranjou uma boa substituta.

Recentemente, o nome que mais tem se repetido é o de Amy Adams. Nos últimos 10 anos, ela foi indicada nada menos do que 5 vezes. Um número que muitas veteranas de respeito nunca chegaram ao longo de suas carreiras, o que dirá num espaço de 10 anos. Mesmo se creditarem “ela é uma ótima atriz”, mas e quanto a Michelle Pfeiffer (3), Laura Linney (3), Sigourney Weaver (3), Naomi Watts (2) e tantas outras? Elas também não são ótimas atrizes? Porque não tiveram a mesma sorte?

03Amy Adams vem sendo tratada como uma mini Streep. Um embrião em gestação. A sua surpreendente vitória como Atriz de Comédia no Globo de Ouro (tendo ganhado na mesma categoria ainda ano passado) só prova o quanto ela é generosamente bem quista pela indústria e todas as comunidades de prêmios. Amy Adams se transformou na indicada padrão: “Na dúvida, vote em Amy”. Se ela conseguir uma indicação por Big eyes, espere ela ser indicada por qualquer coisa que fizer daqui pra frente, já que Big eyes é o segundo filme menos bem sucedido de Tim Burton (sua bilheteria só não perde para Edwood) e tem uma avaliação medíocre tanto no Metacritic (62%) quanto no Rotten Tomatoes (69%).

Por fim, eu aposto que a indicação deva ficar próxima disso:

ADAMS, Amy (Big eyes)
ANISTON, Jennifer (Cake)
JONES, Felicity (Theory of everything)
MOORE, Julianne (Still Alice)
PIKE, Rosamund (Gone girl)
Alt: WITHERSPOON, Reese (Wild)

Inicialmente, eu diria que Reese tem mais chances que Amy, mas não há entusiasmo algum por Livre (o que significa menos votos nº01) e o filme não conseguiu tração nenhuma fora dessa categoria (como Roteiro Adaptado ou Atriz Coadjuvante). Já aconteceu em anos anteriores, por exemplo, candidatas que todos davam como certo como Angelina Jolie (O preço da coragem) ou Emma Thompson (Walt Disney nos bastidores de Mary Poppins), mas que foram esnobadas por não terem tido um apoio muito efusivo (muitos votos nº3, por exemplo, que não é útil na maioria das vezes).

Depois de anunciado os indicados, vamos voltar a nossa análise de cada categoria de atuação como fizemos ano passado. Gostaria de ler mais posts sobre o Oscar aqui no blog? Comente abaixo!

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